“Escolhi o Abel como forma de agradecimento. Ele mudou tudo no Palmeiras. Era um time desacreditado até então. Ele tem o lema que ‘Todos somos um’ e eu sinto isso, que somos todos um, inclusive a torcida. A foto significa a alegria pela glória eterna e por se tratar do primeiro título dele como técnico profissional, por tudo que vem fazendo pelo Palmeiras, com uma identificação imediata e muito respeito com o clube e a torcida“, explicou o advogado José Wilker Rodrigues, de 31 anos, numa das muitas conversa com jornalistas após fazer uma tatuagem que demorou 12 horas a ser finalizada com a figura do treinador português com a Taça dos Libertadores depois do triunfo por 1-0 frente ao Santos. “A paixão de um torcedor não tem limites. Fico muito honrado e só tenho de agradecer todas as manifestações de apoio e carinho”, respondeu Abel através das redes sociais.

Apenas em três meses, o antigo treinador de Sp. Braga e PAOK (entre equipas seniores de Primeira Liga) conseguiu aquilo que muitos não conseguiram sequer aproximar-se: a total devoção dos adeptos, capaz de, sendo levada ao extremo, proporcionar momentos como aquele que se tornou viral com José Wilker Rodrigues. Mais do que isso, Abel passou uma ideia da teoria à prática, dentro e fora de campo. E foi esse ‘Todos somos um’ que resumiu os 27 realizados desde que chegou ao Brasil que explica em grande parte o sucesso: o estudo da história do clube, a perceção das características, a europeízação dos métodos da equipa, a implementação de uma nova ideia de jogo, a criação de um sentido de família para reagir à adversidade, a capacidade de encontrar gasolina em tanques quase vazios pela densidade competitiva para ganhar. Mas a Libertadores era tudo menos um ponto de chegada.

“Ganhar o Mundial de Clubes é algo que ainda não foi feito no nosso clube e que nos motiva e desafia por saber que ainda ninguém conseguiu. E tudo faremos para consegui-lo. Somos capazes de fazê-lo e ainda melhor do que cada um de nós pensa, é nisso que temos de acreditar. Foi o que nos levou a vencer a Libertadores. É isto que temos de fazer: viver com intensidade, competir para ganhar. É a nossa forma de estar. Temos de fazer aquilo que sabemos, jogar futebol de alto nível, com que nos sentimos seguros, de que desfrutamos, é o que vamos tentar, respeitando o nosso adversário e competir. Quando falamos de futebol brasileiro, falamos de talento. Do mexicano, do uruguaio, é raça, atitude, querer. É isso que queremos juntar: raça, talento e atitude. Por isso é que os sul-americanos se dão bem. Não basta ser bom tecnicamente, é preciso dividir cada duelo como se fosse o último. Temos que juntar o talento com a garra”, alertou Abel antes da meia-final do Mundial frente ao Tigres.

“Há uma expressão no Brasil que eu não conhecia que são os ‘secadores’. Há secadores por todo lado. No futebol, o mais difícil é fazer o fácil. Temos de lembrar-nos do que nos trouxe até aqui e saber o que fazer, gastar energia na nossa forma de jogar, defender, atacar. Em todo o lado há torcedores e secadores, faz parte do futebol. É isso que dá vida, dá alma, ver que de um lado nos apoiam e do outro nos secam”, acrescentou ainda, falando sobre o facto de vários adeptos de outros clubes brasileiros não quererem a vitória do Palmeiras na prova mundial e apelando também a esse propósito ao ‘Todos somos um’… apesar do número de todos a favor ou contra.

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Essa mesma frase e sobretudo a ideia serve para descrever em poucas palavras o que se passou no jogo, neste caso a derrota do Palmeiras: o ‘Todos somos um’ foi o segredo para a vitória na Libertadores mas tornou-se curto para a meia-final do Mundial de Clubes porque, ao longo de mais de uma hora, houve uma luta entre Tigres e gatinhos, com os mexicanos a dominarem e a colocarem-se na frente. Depois, quando os brasileiros tentaram reagir, já era tarde. E se mais uma vez conseguiram ir buscar forças onde elas não existiam, agora não chegou.

O início do encontro confirmou as dificuldades, os últimos 20 minutos até ao intervalo adensaram ainda mais as dificuldades. Mesmo sendo percetível que tinha outra organização tática em termos posicionais, a equipa começou por sentir problemas em assumir o jogo por fugir à forma que tendencialmente prefere dando a iniciativa ao adversário mas teve ainda um remate com perigo de Rony após assistência de Viña (20′), antes da fase menos conseguida a acabar com o lateral Luis Rodríguez a descer vezes sem conta pelo corredor direito a solicitar Gignac, experiente avançado francês que obrigou Wéverton a grandes defesas que mantiveram o nulo (34′ e 37′).

O 4x3x3 do Palmeiras não resultava sobretudo porque o meio-campo falhava em algumas coberturas defensivas e sobretudo não conseguia ligar jogo ao ataque, deixando os elementos que podiam criar desequilíbrios com espaço mas sem bola, à direita (Gabriel Menino) e à esquerda (Rony). No entanto, e pouco depois do reatamento, essas necessidades de mudança ficaram reforçadas com o primeiro golo do encontro, marcado por Gignac de penálti após falta de Luan sobre González (54′). E era aí que começava um novo jogo. As entradas de Felipe Melo e De Paula deram outra estabilidade ao corredor central, o lançamento de Willian Bigode trouxe outra velocidade nos corredores laterais, a aposta em Scarpa promoveu a criatividade em falta e a própria equipa como que reforçou as suas forças para ir com tudo para a área contrária, tendo ficado próxima do empate a 13 minutos do final, com o desvio de Luiz Adriano ao primeiro poste a desviar em Rodríguez e quase a entrar na baliza de Guzmán. Todavia, era tarde. E pela primeira vez uma equipa da CONCACAF conseguiu chegar à final do Mundial de Clubes.