Não é fácil de entender. No dia em que a Farfetch apresentou, pela primeira vez, um lucro operacional de cerca de 10 milhões de dólares, no outro lado da folha de resultados os prejuízos disparavam para mais de 2 mil milhões — um número nunca antes visto nas contas da empresa. Se tivermos em conta todo o ano de 2020, esses mesmos prejuízos atingiram mais de 3 mil milhões de dólares, dez vezes mais do que as perdas registadas em 2019. E, ainda assim, na conferência online que o CEO português José Neves e Elliot Jordan (o responsável financeiro) fizeram na quinta-feira à noite com investidores, depois do fecho do mercado norte-americano, o tom era de alegria e celebração.

Farfetch teve lucros operacionais pela primeira vez. Valorização das ações fez disparar os prejuízos

Como escreveu o analista Luke Lango , do InvestorPlace, nesta sexta-feira, os resultados apresentados pela plataforma de moda de luxo “eram bons e “superaram as estimativas”, ainda que na negociação after-hours do mercado (depois do fecho e da apresentação dos resultados) o valor das ações tivesse caído mais de 10%.

Segundo o mesmo artigo, este arrefecimento deveu-se à desaceleração no ritmo do crescimento da empresa a partir do terceiro trimestre e à expectativa de que este ritmo se mantivesse assim em 2021. Ou seja, o analista esperava mais daquele que foi o primeiro unicórnio (empresas avaliadas em mais de mil milhões de dólares) com ADN português. Sobre os prejuízos, Luke Lango não escreveu uma linha. E acrescentava que o título da tecnológica era um “vencedor no longo prazo”. Mas…

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Como é possível um “vencedor” apresentar prejuízos de 3 mil milhões?

“Estes prejuízos que são puramente contabilísticos”, explicou ao Observador Luís Teixeira, responsável pelas operações da loja online de moda de luxo. O que quer isto dizer? Que não dizem respeito a dinheiro que está a sair da empresa, mas ao valor das ações que estão alocadas aos mais de 5 mil colaboradores da Farfetch (fazem parte dos benefícios dos trabalhadores) e ao investimento de 1,2 mil milhões que a Alibaba e a Richemont fizeram em 2020 na tecnológica, através de obrigações convertíveis. Estas duas “provisões”, como lhes chamou José Neves em novembro, têm de aparecer contabilizadas nas contas da empresa, apesar de representarem um impacto não monetário.

“Se calhar algumas dessas notas convertíveis foram feitas no momento em que as ações da Farfetch valiam 20 dólares. Mas, na realidade, chegaram ao final do ano a valerem quase 64 dólares”, diz Luís, o que faz com que o valor em ações que está alocado a esse investimento seja agora mais elevado do que no momento em que o financiamento foi contratualizado.

É por isso que o valor dos prejuízos não foi uma surpresa nem para a tecnológica nem para os investidores e analistas, explica o responsável. Porque a partir do momento em que as ações valorizaram quase 38 dólares entre o fim do terceiro trimestre e do quarto, já se sabia que isto ia acontecer, explica.

Entrevista a José Neves: Farfetch vai ter “lucros operacionais já no próximo trimestre de 2020”

“Isto é uma fórmula matemática: em 2020, a Farfetch obteve um financiamento de 1,2 mil milhões, a taxas de juro baixas ou inexistentes, e através de obrigações convertíveis. Portanto, o prejuízo reportado após impostos de 2,3 mil milhões, no quarto trimestre, reflete o impacto não monetário de todas as obrigações convertíveis que a Farftech emitiu. Portanto, sim, estávamos à espera”, sublinha.

E se este financiamento foi feito a taxas de juro baixas ou inexistentes, o que é que os investidores ganham com isso? Se as ações valerem mais no momento de saída do que o que valiam à entrada, no momento da transação, então, quando a dívida maturar, os investidores ficam com um valor em capital social superior ao que na verdade investiram. E é daí que advém o retorno deste investimento. É quase como se estivessem ambos a apostar na valorização da empresa — a Farfetch e os investidores.

Então, teria sido melhor que as ações da Farfetch não tivessem valorizado cerca de 500% num ano?

Não. Para Luís Teixeira, esta valorização foi “muito boa” e o objetivo é que continue a acontecer no próximo ano. O que o responsável não quer é que haja um movimento descendente. “Esperemos que não, mas, se por acaso, houvesse uma desvalorização num trimestre, um movimento contrário a este que vimos, e as ações caíssem do valor a que estão, a verdade é que, em vez de prejuízos que são puramente contabilísticos, teríamos um lucro contabilístico. Mas agora ninguém quer isso. Esperamos que nunca aconteça”, explica.

Em comunicado, o responsável financeiro Elliot Jordan já tinha admitido que o preço das ações da Farfetch tinha “valorizado significativamente em 2020” e que isso significava que a empresa tinha criado valor para quem nela investiu. “Estamos muito satisfeitos com o desempenho financeiro da Farfetch no último ano e a valorização do preço das ações, ao longo do último ano, demonstra que a empresa potenciou uma significativa criação de valor para os detentores de obrigações convertíveis, bem como para os nossos acionistas”, referiu Elliot Jordan.

O que significa, então, a empresa ter lucro operacional?

Significa que o negócio (as operações) da Farfetch deu, pela primeira vez, dinheiro. Saiu do vermelho para o verde, foi rentável e obteve resultados positivos. Numa empresa tecnológica com um ADN como o da Farfetch, é frequente ser admitida em bolsa ainda a dar prejuízo, porque quer continuar a crescer e, por isso, reinveste o que ganha, fazendo com que o break-even (momento a partir do qual a empresa começa a ser rentável) seja tardiamente atingido. Mas o que se soube na quinta-feira foi que a Farfetch teve um trimestre positivo e não um ano inteiro. E convém salientar isso.

Os resultados operacionais avaliam-se pelo EBITDA [lucros antes de juros, impostos, depreciações e amortizações] ajustado e, neste indicador anual, a empresa fechou 2020 com 47 milhões de dólares negativos — ainda assim, uma melhoria face a 2019, ano em que registou 121 milhões negativos. Para 2021, José Neves quer que as operações anuais tenham um balanço positivo, no final, mas perspetiva que haja alguns trimestres em que o EBITDA ajustado seja novamente negativo (como o primeiro). Contudo, o objetivo é que no final de 2021 o resultado seja acima de zero.

Luís Teixeira diz ao Observador que, “numa empresa como esta, em crescimento, obviamente que temos de garantir cash flows [fluxos de caixa] positivos e a sustentabilidade do negócio, mas é importante perceber que o negócio tem de continuar a crescer. O nosso objetivo é que o negócio seja financeiramente sustentável, mas reinvestindo o máximo que conseguirmos. E o que conseguirmos está a vir das vendas, melhores margens, mais eficiência operacional, reinvestindo em inovação para que o negócio possa continuar a crescer.  Não trabalhamos propriamente com o objetivo de ter um lucro muito acentuado”, diz.

Outro indicador que dá conta da evolução de um negócio são as margens (diferença entre as receitas e os custos). Em teoria, quanto mais elevadas forem as margens de um negócio, mais sólido e sustentado ele é. No quarto trimestre, este indicador da Farfetch também melhorou. Passou de uma margem negativa de 5,3% no último trimestre de 2020 para uma positiva de 2,2% nos mesmos meses de 2020. Também foi a primeira vez que aconteceu. Quando a análise é feita ao ano de 2020, num todo, as margens foram negativas em 3,2%, ainda assim melhor do que as obtidas um ano antes (13,6% negativos). No campo negativo, quanto mais as margens descerem e se aproximarem de zero melhor é.

Mas, num ano marcado pela pandemia, a Farfetch vendeu mais ou menos?

Vendeu mais. Em termos de receitas e de volume de negócios, a tecnológica bateu recordes, ainda que o crescimento não tenha sido tão elevado como o que Luke Lango esperava, por exemplo. No último trimestre do ano, as receitas da empresa cresceram 41% (quando comparadas com o período homólogo) para 540 milhões de dólares e o volume de negócios subiu 43%, ultrapassando os mil milhões de dólares. Olhando para a totalidade do ano de 2020, as receitas cresceram 64%, atingindo 1,7 mil milhões de dólares e o volume de negócios da empresa cresceu outros 49%, totalizando mais de 3 mil milhões de dólares.

Ao Observador, Luís Teixeira disse que em 2020 a empresa atraiu mais de dois milhões de novos clientes só no segmento online e que o objetivo passa por, um dia, a Farfetch ser “a plataforma para a indústria de luxo”.”A ambição é gigante”, afirmou. Mas só se concretizará no terreno e, até lá, há contas para apresentar aos investidores.