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Neymar voltou a ser protagonista pelos piores motivos no último fim de semana, ao ser de novo expulso na Ligue 1 na derrota frente ao Lille após uma discussão com o internacional Sub-21 Tiago Djaló que por pouco não escalou para agressões físicas no túnel de acesso aos balneários, e as críticas não demoraram a chegar. “Assim que as coisas deixam de estar a favor dele, que alguém se defende ou é um pouco mais agressivo, enlouquece. E desta vez equivocou-se, quando está a voltar depois de dois meses lesionado e se prepara um jogo de Champions daqui a poucos dias. É um jogador fantástico mas o momento exige serenidade e ele perde-a completamente. Não respeita os seus adversários nem os colegas de equipa, não tem disciplina”, atirou Lizarazu, antigo campeão mundial e europeu por França que jogou sete temporadas no Bayern, próximo adversário do PSG.

Neymar e Tiago Djaló foram expulsos, chegaram a estar abraçados mas só os seguranças evitaram as agressões no túnel

Se na última temporada as contas do conjunto gaulês no Campeonato estavam arrumadas, agora a equipa ocupa a segunda posição numa prova que deverá ser decidida apenas nas últimas rondas. No entanto, e em paralelo, o PSG conseguiu quebrar a maldição das eliminatórias com o Barcelona na Champions, segurando a vantagem trazida da Catalunha para afastar Messi e companhia. E era neste ponto que chegava Neymar, que tinha mais golos do que encontros em 2020/21 na Liga dos Campeões (seis em cinco) mas que falhou o confronto com os catalães, podendo agora reencontrar o adversário que acabou com o sonho de ser campeão europeu em 2020 pela equipa parisiense e que por três ocasiões distintas esteve perto de representar, como explicava a ESPN.

Hipótese 1, em 2010. Quando o avançado brasileiro tinha feito o primeiro ano nos seniores do Santos, o croata Predrag Racki chegou a encontrar-se com Christian Nerlinger, que era o diretor de futebol dos bávaros, depois de duas chamadas telefónicas mas os alemães, assumindo o potencial do brasileiro, explicaram que não estariam na disposição de pagar quase 25 milhões de euros por um jogador com menos de 18 anos. Hipótese 2, em 2013. Com Pep Guardiola a chegar ao clube depois do sucesso europeu com Heynckes, o espanhol pediu Neymar, o dianteiro chegou a assumir o interesse na Bundesliga mas houve dúvidas sobre a capacidade de adaptação de um jovem brasileiro ao país (assumidas pelo presidente Uli Höeness) e acabou por chegar Götze – e o avançado rumou ao Barcelona. Hipótese 3, em 2017. Já depois de ter manifestado vontade de sair, o Bayern terá estudado a hipótese de contratar o jogador mais a sério mas os valores em causa colocaram de parte essa possibilidade: Rummenigge assumiu que preferia pagar o estádio, Höeness confidenciou que nem para Mbappé havia dinheiro.

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Agora, os dois avançados sob comando de um técnico que chegou também a ser apontado à equipa da Baviera, Mauricio Pochettino, eram de novo as principais ameaças a um Bayern marcado sobretudo pelos problemas no setor ofensivo que tinham começado na lesão de Lewandowski no joelho e que se prolongaram com a ausência de Gnabry por ter acusado de novo positivo à Covid-19 com Douglas Costa também de fora há mais tempo – sendo que, em paralelo com isso, Munique tinha sido palco de um forte nevão que iria também mudar o contexto do próprio jogo, mais baseado no pragmatismo como aconteceu no último triunfo frente ao RB Leipzig.

“A final de 2020 já não interessa nada, o PSG tem uma nova equipa, um novo treinador. Têm uma defesa sólida, um excelente guarda-redes e uma enorme qualidade na frente. Temos de estar bem colocados e reagir de forma muito rápida quando perdemos a bola mas não podemos estar preocupados em perder a bola e precisamos de ter confiança no nosso ataque”, tinha destacado Hansi Flick no lançamento da partida. “A final de 2020 não será um jogo referência para nós, fui apenas espectador. E agora a decisão será em dois jogos, é um contexto diferente. Há sempre um ideia de vingança desportiva mas é mais um desafio bater uma equipa tão forte. Ausências? Também não temos Verrati ou Icardi [e Florenzi]. Todas as equipas têm ausentes nestas altura, o que mais importa é que a equipa se adapte”, salientara Pochettino também partindo desse jogo de Lisboa, em agosto.

O jogo foi de facto diferente em tudo: nos golos, nos marcadores, na evolução dos acontecimentos, no resultado. E se Neymar voltou da melhor forma à Liga dos Campeões com duas assistências, Kylian Mbappé mostrou que é muito mais do que um wonderkid e voltou a mostrar que irá agarrar o legado de Ronaldo e Messi como grande figura da prova na próxima década, marcando mais um bis depois do hat-trick em Barcelona.

O encontro começou a um ritmo alucinante, com Choupo-Moting, que defrontava a antiga equipa, a desviar de cabeça à trave de Navas logo no segundo minuto e o PSG a inaugurar o marcador logo no minuto seguinte, numa grande jogada que começou num passe que deixou a defesa bávara fora de pé, Neymar a encontrar espaço entre linhas para ganhar metros com bola controlada e a assistir Mbappé para o remate que contou ainda com a “ajuda” de Manuel Neuer, mal batido no lance. Mais uma volta, mais uma oportunidade para cada: Müller ficou muito perto do empate (10′), Draxler marcou mesmo após passe de Mbappé mas o lance acabou por ser anulado por posição irregular do francês no início da jogada que contou também com Neymar (12′).

A partir desse momento, o Bayern conseguiu agarrar mais no encontro, criou muitas dificuldades à defesa dos gauleses, viu Navas evitar o empate com uma grande intervenção a cabeceamento de Goretzka após livre na direita de Kimmich (19′) e foi mesmo o PSG a aumentar a vantagem, em mais um passe de Neymar para as costas da defesa germânica que encontrou Marquinhos sozinho mas em posição irregular para fazer o 2-0 (28′) antes de sair pouco depois com um problema muscular. O cenário começava a complicar-se em demasia para os bávaros, que além da desvantagem de dois golos não podiam dar espaços perante a noite inspirada de Neymar, Mbappé e Di María, mas Choupo-Motin conseguiu reduzir de cabeça após cruzamento de Pavard antes do intervalo (37′).

O segundo tempo reforçou ainda mais o domínio territorial do Bayern, o PSG atuou com linhas mais baixas tentando procurar as transições, conseguiu criar uma boa oportunidade por Neymar travada por Neuer (51′) mas os bávaros chegaram mesmo ao empate a meia hora do final já depois de uma boa chance de Pavard, com Müller a surgir melhor entre os defesas parisienses após livre lateral de Kimmich na direita. Ficava tudo em aberto, com uma aparente vantagem teórica do conjunto de Munique por estar a jogar no meio-campo do adversário e por estar melhor no plano anímico pela recuperação. E foi aí que mais uma vez apareceu o brilhantismo de Di María a assistir e o instinto de Mbappé a marcar, ganhando em velocidade e rematando para o ângulo morto com Neuer a ficar pregado ao relvado para o 3-2 final (68′) apesar do último forcing entre defesas decisivas de Navas e uma boa exibição de Danilo como central depois da saída de Marquinhos.