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Um golito com o Tondela chegou. Um golito com o V. Guimarães também funcionou. Um golito com o Moreirense já ficou curto. Um golito com o Famalicão também não deu. Um golito com o Farense voltou a ser suficiente. Ao longo de 27 jornadas na Primeira Liga, o Sporting nunca tinha perdido. Mas tinha um problema: andava menos próximo da vitória do que nas rondas anteriores pela questão da eficácia ou falta dela. Aquilo que poderia ser uma exceção tornou-se uma regra. Mais do que isso, e pela coincidência temporal, surgia a inevitável dúvida se a chegada de Paulinho tinha sido melhor ou pior para o coletivo verde e branco, apesar do rendimento e potencial individual que poderia trazer à equipa. “Se for 1-0 lá terá de ser mas vamos tentar fazer mais golos”, comentara Rúben Amorim a esse propósito, assumindo que a equipa “tem falhado muito nos últimos encontros”.

A culpa é de Paulinho? Os números dizem que não. Antes da vitória em Faro, na sequência da primeira série de dois empates consecutivos dos leões na Liga, o GoalPoint fez uma análise estatística ao rendimento dos verde e brancos e o avançado estava em destaque em vários: era o terceiro com melhor rendimento individual atrás de Daniel Bragança e Coates, o terceiro com mais ações para golo, o terceiro com mais remates enquadrados, o quarto com mais passes para finalização e tinha o dobro das ações defensivas por média de Tiago Tomás. Teve então influência nas dinâmicas da equipa? Também não: com o avançado a equipa cresce em vários parâmetros como os remates ou as ações com bola na área. Na eficácia, aí sim, houve um decréscimo de produtividade. E foi também à luz destes dados que Rúben Amorim voltou a defender um jogador que tanto quis em Alvalade.

“Já tivemos fases em que tínhamos poucas oportunidades e agora acho que até estamos a ter mais mas não temos conseguido marcar. A primeira oportunidade do Paulinho no último jogo foi o cabeceamento para trás para João Mário e foi muito bem jogado. Na segunda vez tentou mais uma vez dar ao João Mário e poderia ter rematado. São pormenores do jogo. Um avançado gosta de marcar golos. Vejo o Paulinho com muita confiança, é um jogador maduro. É óbvia a confiança que o treinador e os colegas têm nele. Ele vai crescer juntamente com a equipa. Acredito muito nele e na minha equipa. Podemos sempre melhorar e começar uma nova série com mais golos mas nesta fase o que interessa é ganhar”, salientara na antecâmara do encontro com o Belenenses SAD.

“Temos falhado muitos golos. [Em Faro] o Adán fez uma grande exibição mas acho que vocês são injustos com o Beto, se bem o conheço ele deve estar chateado, pois salvou mais golos que o Adán… Não se falou disso mas nós vemos o jogo. Da mesma forma que em Guimarães ganhámos por 4-0, tivemos muitas ocasiões mas o resultado foi enganador, a escassez de golos tem sido algo enganadora. Vamos tentar fazer mais golos mas se tiver de ser 1-0, lá será”, reforçara, sempre apontando para uma ideia mantida nas últimas três partidas: a equipa tem estado a crescer e com um rendimento melhor com o passar das jornadas, mesmo que isso não tenha efeitos práticos.

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Globalmente, o que Rúben Amorim diz faz algum sentido. E mesmo sem fazer uma grande primeira parte, longe disso, o Sporting rematou como nunca tinha feito em 45 minutos. Mais tarde, a perder por dois golos, foi rodando a bola, foi tentando furar a sempre bem organizada defesa do Belenenses SAD, foi continuando a rematar, tentou a meia distância, forçou os cruzamentos, arriscou nas bolas paradas. De forma cruel para o conjunto de Petit, o empate que manteve a invencibilidade chegou de penálti no sexto minuto de descontos. Mas, para isso, voltou o verdadeiro plano B do Sporting – mandar Coates para a área. E mais uma vez foi essa opção que mudou o jogo, com o capitão a mostrar como se faz aquilo que a equipa não sabe fazer: a estatura conta, claro, mas o uruguaio marcou porque percebeu onde a bola ia cair e antecipou-se, deixando de tal forma a defesa dos azuis às aranhas com essas movimentações e essa alma que contagia que foi esse o momento que evitou um desaire anunciado. A seis jornadas do final, os leões são fortes nos corredores laterais mas continuam sem saber o que fazer com esse caudal, qualquer que seja o avançado. Coates explicou. Outra vez. Mas assim pode não chegar.

Com Tiago Tomás no lugar de Daniel Bragança, recuperando o modelo tático mais tradicional da equipa, os leões tiveram uma entrada a tentar empurrar o adversário para o seu reduto, com muita agressividade na reação à perda (tanta que o avançado viu um amarelo logo no terceiro minuto…) e com uma combinação interessante de enevolvimento ofensivo entre dois canhotos, com Nuno Mendes a subir pela esquerda, a ver bem a diagonal de rutura feita por Paulinho e a assistir para o remate ao lado do minhoto (9′). No entanto, e logo no primeiro tiro enquadrado com a baliza, o Belenenses SAD conseguiu inaugurar o marcador em Alvalade: grande trabalho de Miguel Cardoso na esquerda com Gonçalo Inácio pela frente, passe para a entrada de Varela que ganhou a frente a Palhinha e cruzamento rasteiro tenso para Cassierra desviar de primeira na pequena área (13′).

Rúben Amorim tinha mostrado grande confiança para este jogo, admitindo que na primeira volta Petit tinha feito uma preparação melhor e mais adequada da equipa ao encontro e ao estado do relvado mas que agora ia apresentar uma formação preparada e ciente do que era preciso para ganhar. Com bola, isso via-se pouco; sem bola, passando a primeira fase de pressão, não se via. E mesmo sem a profundidade que permitisse criar mais perigo junto de Adán, o Belenenses SAD conseguia ter saídas de qualidade perante um Sporting muito abaixo do normal nas transições defensivas e demasiado lento para criar desequilíbrios na bem organizada defesa dos azuis. A bola parada era a única alternativa encontrada, com João Palhinha a cabecear ao lado (21′).

Tiago Tomás, no seguimento de uma interceção em zona adiantada do Sporting após canto, conseguiu fazer o primeiro remate enquadrado dos leões mas para defesa fácil de Kritciuk (23′). Apenas cinco minutos depois, numa recuperação de João Palhinha a meio-campo após escorregadela de Sithole que permitiu que o médio fosse conduzindo a jogada pelo corredor central antes da assistência, o mesmo Tiago Tomás teve outra boa chance para visar a baliza contrária mas saiu ao lado (28′). E ainda houve um cabeceamento ao lado de Palhinha depois de um livre lateral na direita batido por Pedro Gonçalves (37′) e um remate de Paulinho à entrada da área onde o avançado pegou mal na bola e saiu fraco (39′). Mesmo sem a velocidade necessária, mesmo sem a criatividade que se pedia em zonas ofensivas, mesmo sem a presença em zonas de finalização necessária, o Sporting ia somando tentativas mas nada corrida bem e João Mário falhou mesmo uma grande penalidade quase em cima do intervalo, com Kritciuk a provar o porquê de ser o guarda-redes mais eficaz do Campeonato (42′).

Mais uma vez, a eficácia fazia diferença. O Belenenses SAD fez apenas um remate, tocou três vezes na bola na área verde e branca (duas no lance do golo, uma em cima do intervalo) mas não precisou de mais para marcar; já o Sporting, com um total de cinco remates enquadrados em 15 tentativas, nem de penálti conseguiu derrubar a oposição de Kritciuk. E assim continuou no arranque do segundo tempo, já com Nuno Santos no lugar de Tiago Tomás, tendo mais uma boa oportunidade na sequência de um livre lateral na esquerda com Palhinha a surgir mais uma vez sozinho na área, a cabecear com força mas novamente à figura do guarda-redes russo (47′). Até nas bolas paradas os leões conseguiam mais vezes do é habitual ganhar lances aéreos. Não era suficiente. E como vários males não vieram mesmo sós, o Sporting ofereceu o segundo golo num lance em que Gonçalo Inácio atrasou para Adán, o guarda-redes espanhol hesitou, escorregou e Cassierra só teve de encostar para o 2-0 (54′).

Com dois golos de desvantagem, os leões entravam pela primeira vez numa zona verdadeiramente perigosa em relação ao registo sem derrotas na Liga. E pior ficou quando Pedro Porro, após combinação com Gonçalo Inácio, cruzou para a zona entre guarda-redes e defesa mas o desvio de cabeça de Paulinho saiu ao lado (59′). Amorim trocou depois o lateral espanhol por Bruno Tabata, explorando um efeito surpresa que já tinha experimentado noutros jogos em que precisava marcar, e abdicou depois dos dois médios (Palhinha e João Mário) para lançar Daniel Bragança e Jovane Cabral, recuando Pedro Gonçalves à procura de mais critério e meia distância. Em termos de oportunidades criadas e perigo das mesmas, não ganhou nada – antes pelo contrário. E a 13 minutos do final entrou Matheus Nunes para o lugar de Matheus Reis, preparando já a habitual subida de Coates.

Mais uma vez, foi isso que mudou o jogo. Mais uma vez, a coisa mais paradoxal e a evitar do futebol, que é uma subida do central para a área a fazer aquilo que deve ser feito pelos avançados talhados para isso, resultou: na sequência de uma segunda bola vinda de um canto na direita, Nuno Santos trabalhou bem na esquerda, cruzou e Coates desviou de cabeça para o golo (84′), antes de mais uma grande penalidade por corte com o braço de Tiago Esgaio que desta vez não foi desperdiçada por Jovane Cabral e evitou a primeira derrota na Liga (90+6′).