Enviado especial do Observador, em Tóquio

No início eram oito: basebol/softbol, bowling, karaté, “desportos em patins”, escalada, squash, surf e wushu (uma arte marcial ligada à China com traços de full contact). Três meses depois passaram apenas a cinco, ficando de fora o bowling, o squash e o wushu. Quase um ano depois, todas foram aprovadas. Os Jogos de Tóquio vão funcionar como um ponto de viragem entre aqueles olímpicos mais nobres e ligados a uma história antiga que teve início em Atenas e as novas tendências para atrair as gerações que entretanto foram aparecendo, sendo que já antes outras variantes como o basquetebol 3×3 tinham sido introduzidos. No entanto, e a grande distância, há uma que se destaca das demais dentro dos “desportos em patins”: o skate. E com um português nos estreantes.

Ora então vejamos num rápido instante as atenções que tem conseguido reunir. Alguns exemplos: Nyjah Huston é um verdadeiro fenómeno nos EUA, como explicam os trabalhos da Forbes ou do LA Times (entre muitos outros que foram saindo); Kelvin Hoefler tem sido destaque no Brasil e não só, como conta a Folha de São Paulo; Shane O’Neill é apenas um dos representantes australianos que tiveram de partir literalmente muita coisa para terem um lugar na elite olímpica, como explica o The Australian. E no quadro feminino são ainda mais as histórias que se vão multiplicando, entre as três brasileiras Pamela Rosa, Letícia Bufoni e a caçula de 13 anos Rayssa Leal e a britânica Sky Brown (na versão park e não street, neste caso). Mas como se explica tanto sucesso antecipado?

“Não sei explicar, acho que não existe propriamente um segredo. Foi tudo muito de repente, pessoas importantes começaram a querer saber mais sobre o skate, que era uma modalidade que antes ninguém ligava nem queria saber. É bom, claro”, explicou Gustavo Ribeiro, de 20 anos, numa conferência na Aldeia Olímpica com vários atletas nacionais de diferentes modalidades. Gustavo era o mais novo. E Gustavo é diferente. E Gustavo poderá ser aquele que poucos ainda conhecem mas que, num dia de excelência, arrisca mesmo fazer história.

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Gustavo queria ser apenas como Tony Hawks, o mítico skater que dominou por completo a modalidade nos anos 80 e 90. E começou bem, primeiro quase por carolice, depois mais a sério após ganhar há quatro anos o Tampa AM, o mais antigo campeonato de skaters amadores. E os estudos? Com 17 anos, pediu aos pais para deixar um pouco e concentrar-se na modalidade. Condição do outro lado? Ser campeão do mundo. Cumpriu. E a entrada no projeto Red Bull tratou do resto, com o português a chegar mesmo ao terceiro lugar do ranking mundial antes de uma lesão no ombro que o afastou algumas provas, incluindo o Mundial, e provocou uma descida à quinta posição. Mas continua tudo lá. O talento, a vontade, a rebeldia de brilhar no seu ambiente natural com uma postura de completa tranquilidade que transparece no discurso, na aparência e na própria postura.

De chapéu, a mostrar as várias tatuagens e com algumas unhas pintadas de preto, Gustavo Ribeiro teve de pedir para a primeira pergunta ser repetida quando estava na conferência com Catarina Costa, Rui Bragança, Fábio Magalhães e José Paulo Lopes. “Desculpe… Pode ser?”, atirou a sorrir. “Não pensei que o skate pudesse entrar tão cedo nos Jogos Olímpicos, nunca pensei. Antigamente os parques de skate estavam vazios, agora é impossível ir para lá e depois deste campeonato vai crescer ainda mais, cada vez mais. Pelo menos espero que seja assim”, explicou numa primeira referência à prova, antes de falar dos primeiros treinos e dos objetivos.

“Tive o meu primeiro dia de treinos, de manhã e à tarde. É incrível mesmo, uma coisa gigante e com imensos obstáculos. Ainda vou ter mais três treinos para me adaptar melhor mas é incrível. O que quero? Que corra tudo bem e que traga um medalha para casa. Ansiedade? Se calhar na noite anterior da competição posso ter alguma coisa mas gosto de lidar com a pressão, por isso para mim é tudo tranquilo”, acrescentou depois. Poucas frases, duas ideias, um estado de espírito que se pode revelar fundamental. Gustavo Ribeiro adora o que faz, vive para o que faz e encara o que faz como uma vivência que realmente adora. É com esse espírito cool também que fica mais perto de chegar às medalhas. E, quem sabe, no melhor de todos os cenários, tornar-se o primeiro campeão olímpico português fora do atletismo depois de Carlos Lopes, Rosa Mota, Fernanda Ribeiro e Nelson Évora.