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Luís Filipe Martins Gobern Lopes, conhecido nos seus anos de fundador, dirigente e operacional do grupo terrorista Forças Populares 25 de Abril como “Anarquinho”, é o sétimo nome das listas do Bloco de Esquerda à junta de freguesia de Santo António da Charneca, no Barreiro.

A candidatura surgiu justamente num ano em que o tema das FP-25 — fundadas em abril de 1980 e ativas até 1987, intervalo de tempo em que foram responsáveis por largas dezenas de assaltos a bancos e atentados, que fizeram inúmeros feridos e provocaram a morte de 13 pessoas— regressou à agenda mediática, não apenas após a morte de Otelo Saraiva de Carvalho, condenado por ser fundador e líder da organização, mas também graças à publicação de livros, ensaios e reportagens sobre o assunto.

Questionado sobre esta coincidência temporal e sobre a escolha para candidato autárquico de alguém com o perfil de Gobern Lopes, que, apesar de ter sido o primeiro operacional do grupo terrorista a assumir-se como tal no Tribunal de Monsanto, em 1985, nunca se mostrou arrependido dos atentados que preparou e cometeu enquanto membro dirigente e operacional das FP-25, o Bloco de Esquerda respondeu sem particularizar o caso.

A ação das FP-25 foi condenável a todos os títulos e nenhuma das correntes fundadoras do Bloco cultivou qualquer ambiguidade sobre isso. Na continuidade dessas posições, o Bloco sempre condenou a violência política em democracia”, disse ao Observador, em resposta enviada por escrito, o Bloco de Esquerda através do seu assessor de imprensa.

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“A adesão ou desfiliação do Bloco de pessoas que cumpriram pena e estão há quase trinta anos reintegradas na vida coletiva é um facto muito posterior a todo esse processo”, acrescentou ainda, declinando responder às questões sobre outros ex-membros das FP-25, que também fazem ou fizeram parte do partido.

Nas anteriores eleições autárquicas, em 2017, houve pelo menos mais três antigos membros das FP-25 a integrarem as listas do Bloco de Esquerda: José Ramos dos Santos, condenado a 12 anos de prisão por organização terrorista, foi o número um à Câmara Municipal de Grândola, mas acabou por só colher 91 votos; Teodósio Alcobia, condenado a 15 anos e meio pelo Supremo Tribunal, e a companheira, Helena Carmo, condenada a 12 anos de prisão, fizeram ambos parte das listas do partido em Sintra — ele foi eleito vogal na Junta de Freguesia de Agualva Mira Sintra, ela foi eleita deputada municipal.

Já Luís Filipe Gobern Lopes, que há quatro anos, em vez de surgir a meio da lista dos bloquistas à freguesia barreirense de Santo António da Charneca, era o seu número um, ficou em quarto lugar, depois de PS, PCP-PEV e PSD, com 8% dos votos.

Em 2010, numa entrevista à agência Lusa, para assinalar os 30 anos da organização terrorista, Gobern Lopes, apesar de reconhecer que o objetivo inicial não seria exatamente o que acabou depois por acontecer, garantiu que não se arrependia das FP-25.

Situando-me na altura em que as coisas ocorreram, considerando a forma como eu pensava, como eu sentia, como eu via, não posso dizer que me arrependa de nada. Não tenho de que me arrepender. Talvez o trajeto que depois as coisas levaram se tenha desvirtuado.”

Ao longo dos anos que passaram entretanto, o “Anarquinho”, agora reformado mas durante mais de uma década jornalista na TVI, chegou a dar a cara como organizador do almoço de confraternização anual dos antigos FP-25 e das respetivas famílias. “Somos todos sexagenários, septuagenários e octogenários. Só nos encontrávamos nos funerais. Decidimos que era preferível de vez em quando fazer um almoço apenas para confraternização. Ninguém fala de política e não há pretensão política”, chegou a dizer em 2018 ao Correio da Manhã.

Condenado por organização terrorista a uma pena de 17 anos de prisão, Gobern Lopes, agora com 66 anos, acabou por ser libertado, como os demais réus do processo das FP-25 por excesso de prisão preventiva, quatro anos depois, em 1989. Mais tarde foi amnistiado e depois absolvido, no processo que, já no ano 2000, julgou os crimes de sangue da organização e só condenou os antigos operacionais que tinham confessado e colaborado com as autoridades.