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Engenheiro civil e com seis netos. Provavelmente esta pequena definição não remete para um jogador de futebol, principalmente a parte de ser tão avô, mas são mesmo estas algumas das características de Ezzeldin Bahader, que com 74 anos e 125 dias de idade é o jogador mais velho de sempre a participar num jogo oficial de futebol, no Cairo, para a 3.ª Divisão egípcia, a 7 de março de 2020.

Ao serviço da equipa October 6, Ezzeldin fez o jogo que lhe valeu a entrada no Livro do Guinness e, imagine-se, até apontou um golo. Depois da estreia o campeonato parou devido à Covid-19 mas viria a retomar-se cerca de seis meses mais tarde, com o experiente egípcio a fazer novamente o gosto ao pé, já sem os responsáveis do Guinness presentes. Depois desse segundo encontro, falou aos jornalistas: “Não limitem as vossas ambições. Se houver algo que não consigam em jovens, com força de vontade pode ser atingido em qualquer altura, independentemente da idade e do tempo que passou”.

“Nada é fácil, mas nada é impossível”, referiu depois do feito numa entrevista à FIFA sobre o seu sonho, o seu feito e como lá chegou já bem depois dos 70 anos. Ezzeldin disse que “sempre quis jogar num grande clube mas foi apenas um sonho”. No entanto, quando viu que o japonês Kazuyoshi Miura ainda jogava aos 53 anos profissionalmente, o egípcio decidiu “dar uma chance”. “Ao início não disse nada a ninguém sobre o meu objetivo, mas estava a tentar motivar-me. Quando a minha família soube, encorajaram-me muito”, frisou, dizendo ainda que acredita ter conseguido algo que outra pessoa com “força de vontade e determinação” também pode conseguir. Mas referiu que é efetivamente “difícil” manter a forma física na sua idade. “Mas vou continuar a jogar e treinar porque gosto imenso de jogador futebol e ninguém sabe o futuro”, rematou.

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Contudo, na altura em que começou o sonho, por volta do início de 2020, foi quando a Covid-19 afetou de sobremaneira a vida do planeta e todas as suas atividades, com Ezzeldin Bahader a admitir que a pandemia “teve um impacto negativo, até porque o campeonato foi suspenso apenas dois dias antes do segundo jogo [que ia jogar]”. “Foi como um choque, mas pratiquei muito com o meu filho e vi muitos exercícios online para replicar em casa. Foi um período que afetou a minha preparação, porque treinar com um clube é muito diferente de treinar em casa”, garantiu então.

Jogar aos 74 anos e 125 dias numa equipa de futebol levanta muitas questões, sendo uma das quais, como é que os colegas de equipa, obviamente (muito) mais jovens, o receberam. Disse que a receção foi “calorosa”, que “falaram e riram muito”. “Mas depois disseram-me que esperavam que uma pessoa velha como eu os tratasse como crianças”, frisou, contando que foi logo colocado “em teste”, ao pedirem-lhe para demonstrar qualidades e fazer uns remates à baliza, que acabaram por ser “bons” e “agradar” aos novos colegas no October 6.

Admitindo muito nervosismo no jogo em que fixou o recorde, a situação ficou ainda mais complicada na altura devido a algumas queixas físicas no joelho e na coxa, que estavam “inchados”. Mas os colegas de equipas não o deixaram para trás e “encorajaram”. “Quando o jogo começou, deixei-me levar pela atmosfera e os nervos desapareceram”. E a ansiedade foi-se embora de tal modo que ainda deu para marcar um golo, beneficiando talvez dos tais remates que fez nos treinos, apesar de o jogo ter sido contra uma “equipa complicada”. “Não foi fácil. Mas tivemos um penálti nos últimos minutos e fiz golo”, explicou, falando ainda sobre o regresso do campeonato, já em outubro de 2020, onde fez os 90 minutos frente ao El Ayat, também da terceira divisão.

Mais uma vez, o corpo não ajudou. Mais uma vez, fez golo.

“Foi complicado porque tive uma infeção no ouvido duas semanas antes do jogo. Perdi algum equilíbrio e os movimentos ficaram afetados, pelo que não consegui terminar um treino e tive medo de falhar o jogo, durante o qual me senti um pouco tonto. Há a acrescentar ainda o facto de as duas equipas usarem camisolas parecidas e tornar as coisas ainda mais difíceis. No entanto, todos os meus colegas e equipa técnica insistiram que eu jogasse todo o encontro e marquei o segundo golo da equipa numa bola parada que tínhamos treinado”, explicou.

Outra das questões levantadas pelo facto de se jogar com uma idade tão avançada é como é que os adversários vão lidar com o indivíduo. Ezzeldin disse que os jogadores do El Ayat ficaram “surpresos e um pouco desconfortáveis antes do jogo”, mas que ele quebrou o gelo ao apertar-lhes as mãos. “Até tiraram fotografias comigo antes do jogo e eu pedi-lhes para não me fazerem entradas duras e não me lesionarem”, admitiu, deixando ainda no ar não só a ideia de que o seu exemplo pode “incentivar” outros atletas que “se retiram muito cedo”, como propõe ainda torneios de futebol para “jogador acima dos 40 anos”. “Daria uma oportunidade a muitos jogadores que estamos acostumados a ver a manterem a forma e mostrar os seus dotes. E daria continuidade, provando que a idade é só um número”, frisou. Entre muitos risos, disse ao entrevistados da FIFA que seria “muito difícil” chegar à seleção egípcia, até porque o jogador mais velho de sempre a jogar num Mundial é o egípcio Essam El Hadary (45 anos e 5 meses), mas que ia continuar a “treinar bem e manter a condição física para o caso da oportunidade surgir”.

Mas este não é obviamente o único recorde do Guinness associado ao futebol, nem ao desporto e alguns são até de portugueses, com destaque, claro, para Cristiano Ronaldo, que tem o maior número de golos da Liga dos Campeões, 134 em 176 jogos, e o maior número de hat tricks, oito, os mesmos que um tal de Leo Messi. Sem muitas surpresas, são estes dois homens que dominaram o futebol mundial nos últimios 15 anos a deterem este recorde. Outro português a ter um recorde no futebol é o jogador do AC Milan Rafael Leão. O jovem português, a 20 de dezembro de 2020, marcou o golo mais rápido da Série A, aos 6,76 segundos, num jogo da sua equipa frente ao Sassuolo. Ainda dentro do chamado “desporto rei”, destaque para Stéphanie Frappart, árbitra francesa que foi a primeira mulher a dirigir um jogo masculino da Liga dos Campeões da UEFA. Foi em novembro de 2020, num Juventus-Dínamo Kiev.

Fora do futebol, há a destacar o domínio (palavra certa) da Rússia na natação artística nos Jogos Olímpicos. A equipa russa estreou-se na competição em 1984 e, a partir daí, conseguiu 10 das 17 medalhas de ouro possíveis, todas consecutivas, dado o país ter vencido todos os eventos entre 2000 e 2016.

Nas mais recentes entradas nos recordes do Livro do Guinness, destaque para o sueco Armand Duplantis, que se tornou aos 21 anos o mais jovem Atleta Mundial do Ano. O atleta do salto com vara, medalha de ouro em Tóquio 2020, venceu todas as 16 competições em que se inscreveu em 2020, e o segundo atleta a fazer 10 saltos de seis metros numa só temporada.