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Surge de moto de água, no meio de uma imensidão de mar, como se fosse uma rock star. No fundo, é isso mesmo que Gordon Ramsay é no mundo da gastronomia. Irreverente, irascível, inesperado mas igualmente brilhante e generoso. Os elementos continuam a ser os mesmos na terceira temporada de “Gordon Ramsay: Uncharted”, que começa com um episódio em Portugal.

O roteiro tem como ponto de partida a Praia do Norte, onde à espera da estrela inglesa está Kiko Martins. O chef português é uma espécie de anfitrião da aventura de cinco dias que começa e acaba na Nazaré. É aí que Ramsay aceita o desafio de ir apanhar percebes, pescar sardinhas e descobrir as uvas que em Colares crescem debaixo da areia — tudo o que precisa para, no final, fazer um frente a frente com o homónimo português. O episódio é para ver esta sexta-feira, 15 de outubro, às 22h10 em simultâneo no National Geographic e no 24Kitchen. No entanto, as gravações aconteceram em julho.

Nessa altura, Kiko Martins e Gordon Ramsay estiveram juntos durante dois dias. “Fiquei encantado porque ele fez questão de estar comigo antes de gravarmos”, conta o chef português ao Observador. “Temos muita coisa em comum. Ambos gostamos de comida, ambos corremos e andamos de bicicleta. Ele tem cinco filhos, eu quatro. Chegámos à conclusão de que podíamos fazer uma equipa de futebol juntos.”

O roteiro luso tem como ponto de partida a Praia do Norte, onde à espera da estrela inglesa está Kiko Martins

Quando o convite do National Geographic chegou, o responsável por O Talho e A Cevicheria, restaurantes em Lisboa, foi pesquisar o que tinha de especial o programa que começou em 2019. Rapidamente percebeu que esta seria uma forma de publicidade importante. “Não podemos esperar que ele ande por Portugal inteiro mas depois da visita de Gordon Ramsay os lugares tornam-se mecas gastronómicas. Isso é fantástico.”

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Esta temporada passa por Croácia, Islândia, Porto Rico ou EUA. A premissa é sempre a mesma: descobrir alimentos e receitas locais, pondo literalmente mãos à obra — no Alentejo fez sopa para alimentar porcos pretos.

Gordon Ramsay só tinha estado em Portugal uma vez numa visita relâmpago. Ainda assim, já tinha provado percebes. “Ele é muito amigo do David Beckham e ia várias vezes vê-lo jogar ao Real Madrid [onde o futebolista inglês esteve entre 2003 e 2007]. Depois dos jogos iam petiscar percebes e muitos chegavam de Portugal”, explica Kiko Martins.

Ramsay aceitou o desafio de ir apanhar percebes e pescar sardinhas. O resultado está na mesa

Esse é um dos petiscos que ambos cozinham, cada um à sua maneira, no episódio de “Uncharted”. A refeição, que tem como cenário a Praia do Norte, é servida ao presidente da Câmara Municipal da Nazaré, Walter Chicharro, e à família. Mas, mais do que cozinhar, Gordon Ramsay mostra de onde vem o que se prepara no programa.

“De todos os sítios a que ia, saía maravilhado. É muito giro ver. Além disso, destaca a qualidade da nossa carne de porco, dignifica a nossa gastronomia e a simplicidade da nossa cozinha”, diz Kiko Martins.

À caça das uvas nas vinhas de Colares

Ao lado dos pratos finais — depois do “pequeno-almoço português perfeito” que fez com ovos e porco preto, que gerou muitas críticas —, estão vinhos saídos diretamente da areia de Colares. Sim, da areia. Foi esse processo invulgar que o chef britânico descobriu ao lado do enólogo Hélder Cunha.

“A viticultura nesta zona é muito específica. As videiras não estão na vertical. Estão no chão, junto à areia. Aquilo que fizemos com o Gordon Ramsay chama-se ‘levantar dos pontões’. Com a ajuda de umas canas, levantamos o tronco da videira do chão. Fica pendurado, a 20 ou 30 centímetros, a arejar”, explica ao Observador Hélder Cunha.

O enólogo, à direita, com o chef Ramsay

No dia em que se encontrou com Gordon Ramsay para gravar “entre 40 minutos e uma hora”, estava nervoso. “Quando chegou, tinha uma aura de estrela de cinema. Saiu da carrinha com passadas largas, dirigiu-se a mim e disse: ‘So, you’re the master around here (então, você é que é o mestre por aqui)’. Quebrou logo todo o gelo. Agradeceu-me por estar ali e foi muito fácil, parecia uma conversa de amigos.”

Para tudo fluir naturalmente, a preparação começou cerca de dois meses antes. “A parte norte-americana da produção ligou-me dos EUA e depois falámos também por WhatsApp. Queriam saber se eu falava fluentemente inglês, se sabia comunicar à frente da câmara, etc. Explicaram-me o programa e fui enquadrado.”

Já Gordon Ramsay, não teve um briefing sobre aquilo que ia encontrar na areia de Colares. “Ele nunca tinha visto nada assim e ficou igualmente surpreendido pelo estilo de vinhos e pela qualidade.”

Hélder Cunha deu a provar ao chef os primeiros vinhos que produziu na região, através da Casca Wines, que criou em 2008, e os mais recentes. A particularidade da marca inspira-se num conceito que o enólogo viu numa vindima em Napa Valley, EUA, em 2000.

“Fui parar a uma pequena adega onde ninguém tinha a própria vinha. As uvas chegavam de vários produtores e, cada um com a sua marca, fazia o seu vinho. Ninguém tinha uvas nem adega, mas toda a gente fazia vinho”, recorda.

É isso que acontece em Portugal com a Casca Wines e essa especificidade valeu a inclusão em “Gordon Ramsay: Uncharted”. “Compro uvas, alugo uma adega. Não tive a felicidade de herdar nada disso, por isso tenho de criar o meu património.”

O que Hélder Cunha vai herdar agora é o nome da sua marca e a referência a Colares, onde se habituou a ir desde miúdo, difundido pelo mundo. “Gordon Ramsay: Uncharted” é para ver no National Geographic ou no 24Kitchen às 22h10.