O presidente do Irão recusou esta terça-feira dar uma entrevista à jornalista da CNN Christiane Amanpour por esta não usar véu, considerando uma falta de respeito aos meses sagrados do Muharram e Safar. Esta a primeira entrevista do presidente Ebrahim Raisi em solo americano, numa altura em que se registam já 31 mortos no seu país na sequência dos protestos contra a morte de Mahsa Amini. Mas acabou por não acontecer.

Christiane Amanpour, jornalista britânica de origem iraniana da CNN, preparava-se para questionar o presidente do Irão Ebrahim Raisi, nos Estados Unidos, acerca dos protestos e da morte de Amini, naquela que seria a primeira entrevista dada por este chefe de Estado em solo americano. Foram, escreveu a jornalista no Instagram, “semanas de planeamento e oito horas a montar equipamentos de tradução, luzes e câmaras”. Mas Raisi nunca chegou a aparecer. “40 minutos após o início da entrevista, um assessor aproximou-se. O presidente, disse ele, sugeriu que eu usasse um lenço na cabeça, porque são os meses sagrados de Muharram e Safar”, escreveu nesta rede social.

A jornalista recusou: “Estamos em Nova Iorque, onde não há lei ou tradição sobre lenços de cabeça. Salientei que nenhum presidente iraniano anterior exigiu isso quando os entrevistei fora do Irão.”

Imagem que a jornalista publicou na sua conta da rede social Instagram

Depois disto, o assessor deixou claro que a entrevista não aconteceria sem que a jornalista usasse o véu, dando como argumento uma “questão de respeito” — referindo-se, inclusivamente, à situação vivida no Irão. Amanpour voltou a negar e a entrevista não aconteceu: “E assim fomos embora”, escreveu. “À medida que os protestos continuam no Irão e as pessoas estão a ser mortas, teria sido um momento importante para falar com o presidente Raisi.”

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No mesmo dia, quando discursava na 77.ª Assembleia Geral das ONU, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, Raisi acusou o Ocidente de ter “padrões diferentes” em matéria de direitos das mulheres — rejeitando os “duplos padrões de alguns governos relativamente a direitos das mulheres e direitos humanos.” À margem, e em conferência de imprensa, acabou por dizer que a morte de Mahsa Amini tem que ser investigada. E que foi isso mesmo que disse à família de Mahsa quando a contactou.”A nossa procupação é salvaguardar os direitos de cada cidadão”.

Mahsa Amini foi detida a 13 de setembro pela “polícia de moralidade”, quando se encontrava de visita a familiares no Teerão,  por alegadamente trazer o véu de forma incorreta. Foi transferida para uma esquadra, com o objetivo de assistir a “uma hora de reeducação”. Chegou ao hospital três dias depois em coma, após sofrer um alegado ataque cardíaco, atribuído, pela autoridades, a problemas de saúde. Família rejeitou esta versão