Quando, no início do século XX,  Georg Simmel, filósofo alemão, escreveu o visionário ensaio A Tragédia da Cultura, chamando a atenção para a crescente produção de objetos que não são Cultura, são apenas mercadorias, ele não fazia ideia o quão profético estava a ser, pois, com  a evolução da tecnologia, não se criariam apenas simulacros de Cultura, como ela também fomentaria nos sujeitos a dependência desses simulacros, tornando a verdadeira Cultura uma coisa despicienda. Pior: a Cultura passou a ser vista totalmente  dentro do paradigma do consumo. Hoje em dia temos até coisas chamadas “industrias culturais”, para justificar financeiramente um dos mais essenciais gestos da ação humana: a criação de arte.

Já em 1911, na escrita deste ensaio, Simmel dá como exemplo da produção de mercadorias disfarçadas de cultura, os livros. E nota como muito do que se publica não acrescenta nada à alma dos sujeitos e dos povos. Ora a tragédia dos livros parece ter chegado a um estado de paroxismo com a evolução tecnológica aliada à fábula de que todos podem ser escritores, poetas, cientistas. Todos os anos se publicam dezenas de milhares de livros e entre esses, poucos ou nenhuns vão sobreviver como objeto cultural, não obstante as poderosas estratégias de marketing executadas para que eles vendam muitos exemplares.

Com o apelo dos ecrãs, das séries às redes sociais, o tempo físico e mental disponível para a leitura é cada vez menor e as editoras lutam ferozmente para captar esse ser em vias de extinção: o leitor desconectado do mundo e devoto à página em papel. Dessa luta duas coisas sobressaem: o sobre-investimento no género romance e a sub-determinação das editoras às modas, aos livros escritos por celebridades, ou aos temas polémicos. Nesta arena a poesia vai ficando, cada vez mais, entregue à pequenas editoras independentes, com as suas edições esforçadas, tiragens reduzidas e o drama de não terem onde colocar os livros à venda.

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