Primeiro a apresentação oficial da candidatura, depois a inauguração da sede, de seguida o anúncio dos dois cabeças de lista às eleições para a Mesa da Assembleia Geral e do Conselho Fiscal e Disciplinar, agora a nova revelação de quem será o CFO do FC Porto em caso de vitória nas próximas eleições. Nem sempre os nomes que avançam ao sufrágio de um grande clube são apresentados à exceção de todos aqueles que integram as listagens a votos, como se viu no caso das eleições do Sporting em 2018 onde alguns dos seis candidatos não revelaram quem seria o nome forte das finanças por estarem no ativo em grandes empresas e haver esse compromisso de confidencialidade. Neste caso, André Villas-Boas não teve dúvidas em apresentar também numa cerimónia para o efeito o responsável dessa vertente: José Pedro Pereira da Costa.

António Tavares e Angelino Ferreira na Mesa da Assembleia-Geral e no Conselho Fiscal da lista de Villas-Boas

Antigo administrador executivo da NOS na última década com a área financeira (deixou a empresa no mês de novembro), Pereira da Costa já tinha estado como CFO da PT durante quatro anos, passando de seguida para a ZON. Em paralelo, o CFO apresentado por Villas-Boas teve funções de administrador não executivo da SportTV, o que lhe conferiu com o tempo o know how em relação a um dos pontos fundamentais a nível de receitas no universo azul e branco a médio prazo: os direitos de transmissão televisiva, numa altura em que a Liga Portugal está a caminhar para um modelo de centralização que irá vigorar nos próximos anos.

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“Tem sido muito encorajador assistir à crescente onda de apoio e vontade de mudança por parte dos sócios. Em abril, é fundamental exercerem o direito de voto. As eleições devem ser marcadas por serem as mais votadas de sempre. Com força e vosso voto, conseguiremos a mudança que pretendemos. O FC Porto surgiu da vontade de alguns homens que através do desporto, da voz da região e das gentes sairiam mais fortes. Um clube sediado no Porto, com presença e visão além-fronteiras, onde deve imperar o conceito de união e senso comum, de gente séria, honesta e esforçada. Dos sócios e para os sócios. A maioria dos portistas sente que o respeito pela história e tradição está a perder-se. Nem todos são tratados equitativamente”, começou por referir Villas-Boas, fazendo alusão depois (sem referências diretas) ao quotidiano do clube.

“O clube aparenta ser um quintal, com galinha dos ovos de ouro que serve alguns, enquanto o futuro está cada vez mais hipotecado. O degradar da situação financeira é o resultado de gestão gasta, de comunicação ligada ao passado, vivendo de guerrilhas que afetam o crescimento. 85% dos associados do FC Porto estão em três distritos: Porto, Braga e Aveiro. No centro e no sul resistem só os bravos. Estamos parados no tempo e ao sabor do vento. Hoje fala-se em dívidas, passivo, processos, saídas a custo zero e de terceiros a lucrarem indevidamente com o clube, sempre a coberto de uma ausência de transparência cada vez mais evidente”, criticou o ex-treinador, numa das intervenções mais críticas à direção de Pinto da Costa.

“Não andamos aqui a tentar recolher figuras ilustres. A casa está aberta, é dos sócios”, destaca André Villas-Boas

“Pelo meio, anunciam-se capitais próprios positivos. Em novembro, depois em dezembro, se calhar em janeiro, agora em fevereiro… talvez em março… Mas em abril é que dava jeito. Da neblina ténue estamos a ser tomados por nevoeiro denso. Da dúvida nasce a esperança e o conforto de que o potencial do FC Porto é enorme. A vontade é que haja um clube mais aberto, com uma comunicação transparente, com uma Direção que serve só e apenas o clube e os seus associados, com um clube mais vencedor dentro e fora de campo. Serei implacável com cumprir desta responsabilidade”, reforçou o candidato, numa espécie de contraponto a tudo aquilo que tinha criticado na intervenção inicial antes de apresentar Pereira da Costa.

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“O caminho para a realidade financeira do FC Porto passa pela implementação de um modelo operacional mais rigoroso, assente numa administração executiva e não executiva que integra profissionais credíveis, reconhecidos no mercado pelo seu sucesso e competência. Urge dinâmica, vontade, excelência, frescura, novas ideias e uma rápida desconstrução de velhos hábitos e favores que habitualmente imperam. A pessoa que identificámos como fulcral, onde a área financeira é de enorme importância. Tem credibilidade, currículo vasto, colocou o FC Porto acima dos seus interesses pessoais e profissionais para esta missão. Acredita no potencial de crescimento sustentado, traz-nos soluções novas e quer colocar o FC Porto na vanguarda da gestão financeira. Estou orgulhoso em anunciar José Pedro Pereira da Costa”, salientou.

“Levo 23 anos como CFO de grandes empresas, pelo que me sinto capacitado e motivado para estas funções no FC Porto. Sou portuense, sócio do FC Porto desde 1971. Tive a felicidade de ser inscrito pelo meu avô, foi com ele que frequentei as Antas. As minhas primeiras recordações de infância estão ligadas ao FC Porto. Na infância o momento alto da semana era ir com o meu avô ver os jogos. Lembro-me de ter chorado a morte de um dos grandes mitos do FC Porto [Pavão], do perfume de Cubillas e dos meus tios me contarem as maravilhas do Dayle Dover no basquetebol. Mais tarde, por força do meu pai, seis vezes campeão em andebol, fui viver para Lisboa e acompanhei sempre os jogos lá. Eram tempos em que era difícil ser portista. Dificilmente ganhávamos jogos, mesmo contra Atlético, Estoril ou V. Setúbal. Vivi com intensidade o primeiro título após 19 anos”, referiu depois Pereira da Costa na sua apresentação pública como CFO.

“Subscrevo a 100% todas as razões apresentadas pelo André por considerar urgente a mudança no FC Porto. Considero que o FC Porto precisa de renovar-se e entrar numa nova fase de gestão financeira. Estou convencido que o André é o candidato ideal para presidente do FC Porto.  Em termos de motivação, energia, portismo, capacidade de comunicação, seriedade e, sobretudo, capacidade de liderança e competência. Acrescento ainda que conhece como poucos a indústria do futebol e o FC Porto por dentro e por fora. As ideias para gestão desportiva estão alinhadas com as melhores práticas. Vai dar o máximo para continuar a trajetória de sucesso desportivo mas juntando a isso os valores como a ética e a sustentabilidade financeira, essenciais para manter o FC Porto com a matriz associativa que hoje tem”, apontou o CFO.

“Em primeiro lugar, é essencial fazer uma análise rigorosa das razões que levaram ao atual estado financeiro que podemos classificar de muito preocupante, com resultados líquidos acumulados de 250 milhões de euros negativos em dez anos. São 25 milhões negativos por ano em média, que levaram a um passivo de 530 milhões e a uma dívida financeira de 310 milhões. Antes de avançar com qualquer processo de reestruturação é preciso ter resposta a várias questões, levantadas apenas e só com base nos relatórios e contas da SAD e dos rivais”, prosseguiu Pereira da Costa, deixando as tais questões sobre a parte financeira.

“Porque é que fizemos vendas de passes de 430 milhões em seis anos mas só foram registados resultados dessas vendas de cerca de 30 milhões, ou seja 7% do valor depois de abatidos os custos associados, as amortizações e as imparidades? Porque é que no no ultimo exercício a venda de bilhetes jogo a jogo e lugares anuais, e excluo aqui o corporate hospitality, camarotes e business seats, foram de apenas 10,8 milhões? Porque é que o FC Porto, com receitas de merchandising que correspondem, basicamente, aos equipamentos, com receitas de oito a nove milhões por ano, tem dois milhões de custos das mercadorias vendidas a mais do que os rivais? Porque é que nossa margem nessa atividade é de 35% quando nesse rival é  perto de 60%? Em que consistem as despesas de representação de mais de 1,4 milhões por ano, 5,4 milhões nos últimos quatro exercícios? O que são três milhões de outros fornecimentos externos que nunca são descriminados?”, lançou o financeiro, entre várias comparações com as situações de Benfica e Sporting.

“É importante conhecer esta realidade e esclarecer algumas das questões antes de avançar com um plano concreto de reestruturação. Numa primeira avaliação parece que existem muitas oportunidades de melhoraria de rentabilidade sem comprometer em nada a qualidade e o investimento da equipa.  Como tal as linhas estratégicas do programa vão passar por um modelo operacional muito mais rigoroso, mais leve, com forte disciplina financeira e orçamental. Terá de passar pelo controlo e racionalização de custos, identificando com os principais parceiros e fornecedores todas as oportunidades de renegociação de contratos das dívidas. Passará também por uma transformação digital do clube que permita uma interação mais simples com os sócios e também dos processos. Sabemos que é possível fazer melhor na bilhética, no merchandising, no sponsorship e na rentabilização do estádio. Queremos implementar um governance reforçado com transparência, compliance e ética como pilares, e com uma administração mais ligeira em custos. Trata-se de um plano que, na vertente financeira, a,ambiciona que o FC Porto continue a vencer mas com a sustentabilidade  financeira que permita que o clube se mantenha de todos os sócios”, concluiu.