A Comunidade Vida e Paz (CVP) apresenta esta quinta-feira uma nova campanha para chamar a atenção para o problema de falta de habitação e de aumento do número de pessoas em situação de sem-abrigo, que são agora jovens, imigrantes e idosos.

A apresentação da campanha decorre em Lisboa na avenida da Liberdade, junto ao Monumento aos Mortos da Grande Guerra, com a transformação do passeio na planta de uma casa e com mensagens como “Apartamento Modelo” ou “Nunca houve tantas pessoas a viver na rua”, apelando aos cidadãos para que doem os 0,5% de consignação de IRS à instituição.

O “apartamento” que vai ser montado no passeio tem o nome de “No olho da Rua” e pretende chamar a atenção para as “pessoas que não têm acesso a uma habitação condigna”.

Em declarações à agência Lusa, a diretora-geral da Comunidade Vida e Paz, uma instituição particular de solidariedade social que trabalha com pessoas em situação de sem-abrigo e de vulnerabilidade social, adiantou que a campanha, que conta com o apoio dos humoristas Nuno Markl e Eduardo Madeira, tem como objetivo esclarecer alguns mitos em relação à situação de sem-abrigo.

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“Queremos romper com a ideia de que as pessoas estão na rua porque querem ou porque apenas têm problemas relacionados com o consumo”, adiantou Renata Alves.

Acrescentou que a campanha pretende mostrar que a falta de habitação ou as dificuldades no acesso a uma habitação, e “a situação económica que as pessoas e o país atravessam contribuem para que as pessoas não consigam, de facto, ter uma habitação condigna”.

A diretora-geral da CVP adiantou que o número de pessoas em situação de sem-abrigo apoiadas pela instituição aumentou 25% nos primeiros dois meses de 2024 em relação ao período homólogo do ano passado e tem mudado também o perfil, havendo agora famílias jovens, pessoas idosas e imigrantes.

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Acrescentou que distribuem diariamente perto de 600 refeições, apoiando cerca de 530 pessoas.

“Queremos dar a entender às pessoas que não é com humor que resolvemos o problema, mas sim com a possibilidade das pessoas consignarem 0,5% do seu IRS”, explicou, sublinhando que esta é a ideia que resume a campanha e que com esta ajuda é possível contribuir para diminuir o número de pessoas sem-abrigo.

De acordo com Renata Alves, a CVP tem vindo a registar um aumento no número de pessoas sem-abrigo apoiadas desde final de 2023, apontando que o número de pessoas que foi à festa de Natal da organização foi 30% superior ao de 2022.

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Nesse sentido, sublinhou que as verbas que venham a receber via consignação de IRS servirá “para fazer face ao aumento [de pessoas sem-abrigo]” e para que a organização possa garantir que tem condições de ir ao encontro de todas as pessoas, inclusivamente em situação de vulnerabilidade social.

“Nós temos famílias que não estão neste momento a viver na rua, mas que estão em risco, podem vir a encontrar-se também nessa situação e que se dirigem muitas vezes às nossas respostas e às nossas equipas de voluntários, às viaturas com que fazemos todos os dias a distribuição das refeições”, frisou Renata Alves.

A responsável defendeu, por isso, que é preciso fazer trabalho de prevenção, com mais mecanismos de intervenção e reforço de respostas de apoio às famílias.

Questionada sobre a nova Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo e se inclui todas as medidas necessárias para a redução do número de pessoas em situação de sem-abrigo, a diretora-geral da CVP disse que “é uma estratégia pouco robusta no que diz respeito aos apoios que podem ser dados não só às pessoas, mas também às próprias instituições que atuam nesta área”.

Disse entender que é “muito genérica” e que “não apresenta medidas muito específicas”.

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