Sergei Torop, que se auto-proclamava a reencarnação de Jesus Cristo, foi condenado a 12 anos de prisão na Rússia por manter uma organização religiosa que praticava “violência contra os cidadãos e outros danos para a sua saúde”. O líder, conhecido por “Vissarion”, é um antigo polícia de trânsito de 59 anos que liderava a Igreja do Último Testamento, um culto formado por várias comunidades isoladas na região da Sibéria, onde milhares de seguidores viviam.
Segundo a procuradoria da região, ficou provado no processo que o líder do culto usou “violência psicológica” para “obter rendimentos de atividades religiosas retirando dinheiro dos cidadãos e usando o seu trabalho gratuito“, assim como para “outros interesses pessoais expressos no desejo de subordinar outras pessoas à sua autoridade“.
Ao todo, de acordo com a procuradoria, 16 pessoas terão sofrido “danos morais” causados pelo culto, outras seis sofreram “danos graves” à saúde e uma outra sofreu “danos moderados”.
O “Vissairon” tinha sido detido pelas autoridades russas em 2020, depois de uma intervenção da polícia russa a uma comunidade. Juntamente com o líder, dois assessores próximos, Vadim Redkin e Vladimir Vedernikov, foram igualmente detidos. Estes dois acusados também foram condenados pela justiça a 11 e 12 anos de prisão, respetivamente. Os três foram ainda condenados a pagar uma indemnização de cerca de 480 mil euros pelos danos causados.
A Igreja do Último Testamento foi fundada em 1991, ano da queda da URSS e dois anos depois de Torop ter perdido o seu antigo emprego nas autoridades policiais soviéticas, em 1989, conta a CBS News. O credo da seita misturava crenças retiradas da Igreja Ortodoxa com ideias de proteção do ambiente e regras tal como uma dieta vegan, a proibição de beber álcool ou fumar, um vestuário modesto e a proibição de usar dinheiro.
Em 2020, a televisão norte-americana CBS News contou que, entre os que aderiram à seita, estavam “médicos, professores, coronéis do Exército Vermelho, um antigo ministro da Bielorrússia e peregrinos de Cuba, da Bulgária, da Bélgica, da Austrália e da Alemanha”.
Segundo o The Guardian, “Vissarion” era o centro do culto. Os seguidores dele recomeçaram o calendário a partir do ano de nascimento de Torop, em 1961, e, no dia dos anos do líder, a 14 de janeiro, celebrava-se um festim que substituía o Natal.
Em 2002, o jornal britânico entrevistou aquele a que chamaram de “Jesus da Sibéria”, que lhes explicou a base das crenças do culto que dizia ser “muito complicado”.
“Mas, para simplificar, sim, eu sou Jesus Cristo. O que foi prometido tem de acontecer. E foi prometido em Israel há 2.000 anos que eu voltaria, que eu voltaria para terminar o que foi começado. Eu não sou Deus. E é um erro ver Jesus como Deus. Mas eu sou a palavra viva de Deus Pai. Tudo o que Deus quer dizer, di-lo através de mim”, declarou então Torop.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 6.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto aqui]