A caminho da Eurovisão: roteiro de 48 horas em Jerusalém e Tel Aviv /premium

03 Março 2019

Em dois dias fomos convidados a conhecer duas cidades israelitas. Jerusalém e Tel Aviv são opostos quase perfeitos, mas só uma acolhe a final da Eurovisão. Este é o roteiro possível em 48 horas.

Quando aceitámos o convite para conhecer Israel em cerca de 48 horas (das 06h de segunda às 14h de quarta-feira) já sabíamos que este era o destino da Eurovisão 2019. A final do festival está marcada para Tel Aviv desde que Netta Barzilai venceu a edição em Portugal com a canção “Toy”. A realização da cerimónia em Israel não está isenta de polémicas — em maio vários artistas de todo o mundo apelavam ao boicote da Eurovisão naquele país. Política à parte, traçámos o roteiro possível, dadas as 48 horas de viagem, para conhecer Jerusalém e Tel Aviv, duas faces opostas da mesma moeda. Se uma é histórica e centro de culturas e religiões, a outra mostra-se moderna ao mundo e faz-se de edifícios altos a arranhar os céus. Estes são alguns dos seus pontos de paragem obrigatórios.

Jerusalém

À medida que percorremos a estrada número 1, que liga o aeroporto a Jerusalém, avistamos árvores em colinas plantadas à beira do alcatrão. Há 50 anos não existiam, hoje são reflexo do investimento “em material orgânico” que o país está a fazer a pensar nas futuras gerações, diz a guia que nos acompanha nesta viagem. “Enquanto outros países perdem dimensão florestal, Israel ganha”, continua Vivian Rochancki. A pele enrugada sugere-lhe mais anos do que os reais, mas se há coisa que não falta à guia do Turismo de Israel é energia — em diversos momentos da viagem vamos dar por ela um ou vários passos mais à frente, num registo falante sem sofrer interrupções pelo cansaço. Discursa num português do Brasil quase perfeito, isto num país pequeno onde a língua nacional é o hebraico moderno e os idiomas oficiais são o hebraico e o árabe (o inglês continua a ser a principal língua de comunicação com quem vem de fora). À medida que a carrinha percorre a estrada, os apontamentos verdes cedem lugar ao casario à entrada da cidade, todo ele tingido em tons bege, a paleta cromática exigida. De outra forma não podia ser: manda a lei municipal que todas as casas estejam revestidas pela pedra de Jerusalém, sejam elas mais ou menos recentes.

Estamos em meados de novembro. Por esta altura já os termómetros deveriam apontar para temperaturas mais baixas mas, apesar do sol tímido, estamos com sorte. Nesta segunda-feira de manhã, depois de um voo direto à saída de Lisboa, sente-se a chuva miudinha e vê-se o céu encoberto. A neblina que engole a cidade vai, aos poucos, desembrulhando Jerusalém como se de um presente se tratasse. São 07h25. Em tão pouco tempo de viagem não há minutos a perder, nem para tomar o pequeno-almoço e fazer o check-in no hotel. O primeiro ponto de paragem é o Mount Scopus, do qual conseguimos alcançar uma panorâmica de Jerusalém e, em particular, da Cidade Velha, onde cabem quatro bairros distintos (o muçulmano, o cristão, o judaico e o arménio). Este ponto está sobranceiro ao mais antigo cemitério da cidade, aquele que Vivian assegura ser “o maior cemitério judaico do mundo” e que está envolvo numa profecia: “Quando Messias chegar, todos os mortos vão ressuscitar, mas os primeiros serão os que estão aqui sepultados. Há tumbas com três mil anos. Os lugares vagos, poucos, para sepultar são muito caros”, diz. Nas campas não há flores, antes pedras. As campas sem pedras significam que há muito não recebem uma visita. Ali perto fica o Monte das Oliveiras, mais precisamente a Igreja da Ascensão — local, acreditam os cristãos, de onde Jesus terá subido aos céus.

Independentemente da fé, junto ao Muro das Lamentações sente-se uma energia quase transcendente. © lucky-photographer/iStockphoto

Em Jerusalém, milhares de anos de história entrelaçam-se com a vida moderna —  são 2.000 os locais arqueológicos e mais de 60 museus. A linha do horizonte da cidade é marcada por dezenas de campanários de igrejas e minaretes de mesquitas construídos aos longo dos séculos, lê-se no guia de bolso cedido pelo Ministério do Turismo, confirma-se à vista desarmada. Todos os anos, a cidade que é local de culto para as três principais religiões monoteístas do mundo — islamismo, judaísmo e cristianismo — recebe milhões de fiéis. Mas não é apenas a fé que serve de motivo para visitar Jerusalém. A vontade de mergulhar numa realidade paralela, diferente da europeia, é mais do que suficiente.

Ruas e ruelas compõem a Cidade Velha, que se estende ao longo de um quilómetro quadrado, onde a fusão de culturas, idiomas e fés é uma realidade. É possível acedê-la por oito portas com três metros de espessura e entre 5 a 15 metros de altura — a nona porta, conhecida como a da Misericórdia, permanece encerrada, aguardando pacientemente a chegada do Messias. Orientados por Vivivan, que nos aconselha a não fazer visitas sem a companhia de um guia certificado, entramos pela Porta de Jaffa.

No bairro cristão a igreja do Santo Sepulcro está entre os locais mais sagrados do cristianismo, uma vez que foi construída no sítio onde os cristãos acreditam que Jesus foi crucificado e enterrado, e onde terá ressuscitado após a sua morte. O importante destino de peregrinação é, por isso, um dos mais visitados da Terra Santa. Circular no seu interior consegue ser um desafio, mas a igreja merece distinção pelo ambiente rico e mesclado. “Quem abre e fecha a igreja são duas famílias muçulmanas”, diz-nos Vivian. “Uma de manhã, outra de noite. Essa chave passa de geração em geração”, continua. Outro ponto de referência, o qual alcançamos depois de um almoço rápido à base de húmus e faláfel, é a Via Dolorosa, acedida pela Porta do Leão. Este é o caminho (e suas estações) que se acredita que Jesus terá feito com a cruz às costas. Parte do percurso atravessa souks estreitos e congestionados.

O Muro das Lamentações, talvez a imagem-postal mais simbólica de toda a Cidade Velha, representa o único vestígio do chamado Segundo Templo de Jerusalém. Separado por géneros — homens de um lado, mulheres do outro –, junto a este existe uma energia diferente, quase transcendente. Lado a lado, de mãos encostas às pedras de calcário gastas e de cabeças debruçadas sobre as mesmas, estão homens (e mulheres) de religiões e de raças diferentes, unidos em rezas mudas ou sonoras. Há choros copiosos, concentração, cantigas e murmúrios que enchem o ambiente. Nas fissuras entre os blocos de pedras estão papéis enrolados e dobrados sobre si mesmos. Carregam pedidos, desejos…lamentações.

Cúpula da Rocha. O santuário é o monumento islâmico mais antigo atualmente em pé; a entrada só é permitida a muçulmanos. ©BargotiPhotography/iStockphoto

Aceder à zona da Esplanada das Mesquitas, ainda na Cidade Velha, implica esperar numa longa fila e ser-se revistado por forças de segurança. Aquele que também é conhecido como o Monte do Templo é acedido por um passadiço elevado de madeira que, espreitando para baixo, permite ter outra panorâmica sobre o Muro das Lamentações. Neste complexo encontramos a mesquita Al-Aqsa, o terceiro lugar sagrado do Islão — Al Aqsa significa, literalmente, a mesquita “mais distante” e pode receber até 5.000 pessoas de cada vez, no entanto, não é permitida a entrada a não muçulmanos — e a Cúpula da Rocha, edificação construída sobre uma rocha que os muçulmanos acreditam ser o local da ascensão de Maomé aos céus (segundo o guia de bolso já citado, o santuário é o monumento islâmico mais antigo atualmente em pé; também a entrada só é permitida a muçulmanos).

Para lá das muralhas, Jerusalém mostra-se urbana. Nas suas ruas proliferam restaurantes, lojas e hotéis. É fácil encontrar turismo no exterior e animação mal cai a noite. Findo o jantar à base de cozinha internacional, e já no regresso ao hotel, encontramos um grupo de jovens animados na esplanada de um bar. Chegados ao quarto, o smartphone apanha finalmente rede de internet e as notificações de jornais portugueses começam a cair no ecrã: há instantes, um ataque aéreo israelita destruiu a estação televisiva do Hamas na Faixa de Gaza. Lá fora, o grupo continua a cantarolar, talvez habituado ao que pode ser descrito como o “conflito mais antigo do mundo”.

Tel Aviv, onde a final da Eurovisão se vai realizar, já é considerada não oficialmente como a "Nova Iorque de Israel". (©WangAnQi/Istock)

Tel Aviv

O The New York Times chamou-lhe “a capital cool do mediterrâneo” e a publicação Lonely Planet encaixou-a entre as “10 cidades mais agitadas do mundo”. Mas antes dos arranha-céus polidos e brilhantes, Tel Aviv era só areia — a cidade que hoje tem como uma das bandeiras o facto de ser “gay friendly” nasceu e cresceu a partir de Jaffa, antiga cidade portuária, tão antiga que é das mais velhas do mundo (hoje, Jaffa faz parte do município de Tel Aviv). Entre as duas vizinhas, tão diferentes entre si, está um passeio marítimo de 14 quilómetros que pode ser percorrido junto à costa mediterrânica. Fazemos parte do trilho já o sol começa a descer no horizonte. A temperatura amena e a luz alaranjada que bate contra os prédios altos, de um lado, e contra as estruturas de pedra gasta de Jaffa, lá ao fundo, colocam-nos num tempo e lugar difíceis de decifrar.

A Avenida Rothschild, conta-nos Vivian, foi a primeira rua da cidade. É difícil imaginar a avenida larga marcada pelo comércio e pela restauração como uma zona árida e sem vida. O quiosque de 1906, data da fundação de Tel Aviv, permanece no lugar, impávido e sereno à passagem do tempo. É uma das casas de comércio que polvilham o separador pedonal da avenida, onde jovens passeiam cães, carrinhos de bebés ou queimam calorias em maratonas improvisadas. O ambiente “cool” contrasta com marcos históricos. No número 16 fica aquele que provavelmente é um dos edifícios mais importante na história do país. Nessa casa-museu, David Ben-Gurion, então presidente do Conselho nacional judaico, proclamou a independência do estado de Israel a 14 de maio de 1948, na sequência do fim do mandato britânico na Palestina.

O primeiro quiosque construído na Avenida Rotshchild. (© EnginKorkmaz/Istock)

O complexo de Sarona, no centro da cidade, abriu em 2014. Mas a sua história é muito anterior, já que foi uma antiga colónia templária estabelecida por famílias alemãs. Há poucos anos esta zona sofreu uma transformação significativa e, atualmente, acolhe lojas, restaurantes e cafés. Os velhos negócios de Sarona fizeram-se novos e exemplo disso é o antigo lagar — The Historic Olive Mill and PR SS House — hoje transformado num café moderno com esplanada coberta virada para o sol. As casas que ainda permanecem de pé têm cerca de 150 anos. São de construção baixa e apresentam um ar colonial que contrasta fortemente com os arranha-céus que as rodeiam. Mas o maior contraste é mesmo com o único ministério existente em Tel Aviv, o da Defesa: a sua torre de controlo cresce sem vergonha em direção aos céus. Nas redondezas estão diversas embaixadas, excluindo a dos EUA.

A cidade está cheia de vida e de trotinetas elétricas — perdemos a conta à quantidade de lojas dedicadas ao velocípede que encontramos enquanto contornamos as curvas do trânsito. Ao contrário de Jerusalém, onde facilmente nos habituamos a ser esmagados por grupos de turistas que seguem religiosamente os seus guias, em Tel Aviv a juventude sai à rua e circula sem pressa. Este não só é o centro financeiro do país, como alberga um importante número de startups. De carro pomos ainda o olho na praça da Câmara Municipal, onde em 1995, perante cerca de 4.000 pessoas, o ex-primeiro-ministro de Israel e Nobel da Paz Yitzhak Rabin foi assassinado enquanto discursava, mas também em Kikar Hamedina, zona onde se concentraram as grandes marcas internacionais, como Escada ou Gucci, e onde se fazem, por isso, as compras mais caras da cidade.

O antigo porto de Jaffa e a cidade de Tel Aviv lá ao fundo. (©Xantana/iStockphoto)

Em Tel Aviv a aposta cultural é evidente. São vários os edifícios que falam por si: desde o Teatro Nacional à Orquestra Sinfónica, sem esquecer a Ópera. É também aqui que encontramos uma impressionante coleção de edifícios exemplificativos da corrente Bauhaus. São mais de 5.000 e foram desenhados por arquitetos fugidos da Segunda Guerra Mundial. As feiras de rua ajudam a acrescentar dinâmica à cidade, seja a feira de artesanato na rua Nahalat Benjamim, às terças e às sextas, seja o mercado Carmel, aberto todos os dias, à exceção de sábado — percorrer as suas bancas ao ar livre é esbarrar num sem-fim de propostas alimentares, da fruta colorida aos vegetais frescos, os sumos naturais espremidos na hora e as especiarias que emprestam aromas ao ar, os quais levamos connosco à sua passagem.

Num roteiro contra o tempo e esticado ao máximo troca-se a hora do descanso pelas ruas carismáticas do bairro Neve Tzedek e pelos bares da noite agitada de Tel Aviv, que só sabe acabar quando o sono derrota o homem. Na manhã seguinte é dia de voltar a Portugal. Para trás, algures entre a costa fervilhante de Tel Aviv e o embalo da fé em Jerusalém, fica a vontade de voltar.

O Observador viajou a Israel em novembro de 2018 a convite do Ministério do Turismo de Israel e da companhia aérea israelita El AL

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