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“Estou eternamente grata por ter nascido de pais que me amaram e me apoiaram, num país que me proporcionou todas as oportunidades e facilidades possíveis – fatores que não dependiam de mim e que condicionaram a vida que tive, os meus valores e a minha fé.”
(Hillary Clinton, in ‘A Minha História’)

Hillary não nasceu Clinton, mas foi esse o nome que a lançou para o primeiro plano da política americana. Mulher do político mais carismático do último meio século americano (Bill Clinton surge, em alguns estudos, acima de Barack Obama nesse ranking), Hillary provou, há muito, que nunca teve como plano de vida viver à sombra da luz brilhante do marido.

Hillary Rodham nasceu no Edgewater Hospital, em Chicago, Illinois, a 26 de outubro de 1947. Filha de Dorothy Howell, dona de casa, e Hugh Rodham, pequeno empresário da área têxtil, que esteve na Marinha, viria a ter dois irmãos mais novos: Hugh e Tony.

Os anos de infância são passados em Park Ridge, subúrbio confortável de Chicago. Os Rodham são frequentadores da United Methodist Church e vivem em ambiente republicano. Hillary escreve no seu primeiro livro de memórias, “Living History” (A Minha História): “Não nasci democrata”.

Depois de infância tranquila, em família conservadora, desde cedo se destaca como aluna aplicada e brilhante na Maine East High School, quase sempre no quadro de honra.

https://youtube.com/watch?v=FVq7XXLe8yk

Gosta de desporto, especialmente natação e beisebol. Nas férias escolares, faz “babysitting” com filhos de mexicanos que trabalhavam na zona de Chicago, começando aí a ter a verdadeira noção da importância da integração das minorias, nomeadamente latinas, na sociedade americana.

Com 13 anos, escreve uma carta à NASA, mostrando interesse em colaborar para a agência espacial americana e recebe como resposta: “We don’t take girls” (Não aceitamos raparigas). Uma resposta que, décadas depois, na sua primeira campanha presidencial, em 2008, Hillary viria a admitir ainda não ter digerido.

O longo percurso público de Hillary decorre de uma tensão construtiva, que vem das suas origens. “Cresci entre o impulso e o conflito dos valores dos meus pais e as minhas próprias convicções políticas refletem ambas as coisas. O fosso entre géneros começou em famílias como a minha. A minha mãe era basicamente uma democrata, embora não se manifestasse no republicano Park Ridge. O meu pai era um republicano conservador dos quatro costados e tinha orgulho nisso. Também era um unhas-de-fome com o dinheiro. Não acreditava no crédito e dirigia a sua empresa segundo uma política de pagar à medida que se avança. A sua ideologia baseava-se na auto-suficiência e na iniciativa pessoal, mas, ao contrário de muitas pessoas que hoje se dizem conservadoras, entendia a importância da responsabilidade fiscal e apoiava os investimentos dos contribuintes em estradas, escolas, jardins e outros importantes bens públicos”, conta a própria no livro ‘Living History’ (nda: A Minha História, na tradução portuguesa, publicado pela Dom Quixote).

Esses valores de base levaram-na a inclinar-se, nos primeiros anos da sua vida, para os republicanos: “Fui educada para amar o meu Deus e o meu país, para ajudar os outros, para proteger e defender os ideais democráticos que inspiraram e guiaram pessoas livres durante mais de 200 anos. Esses ideais foram incutidos em mim desde que tenho memória. Em 1959, queria ser professora ou física nuclear. Os professores eram necessários para ‘formar jovens cidadãos’ e sem eles não teríamos ‘grande país’. A América precisava de cientistas porque os ‘Russos têm cerca de cinco cientistas para cada um dos nossos’. Mesma nessa altura, eu era totalmente um produto do meu país e dos seus tempos, absorvendo as lições da minha família e as necessidades da América enquanto pensava no meu próprio futuro”.

Aos 21 anos, Hillary Rodham termina o curso de Ciências Políticas em Wellesley. É escolhida para proferir o Commencement Speech de 1969 e termina a intervenção citando este poema de Nancy Schreibner, que exaltava a “arte de tornar as coisas possíveis”:

My entrance into the world of so-called “social problems”
Must be with quiet laughter, or not at all.

The hollow men of anger and bitterness
The bountiful ladies of righteous degradation
All must be left to a bygone age.

And the purpose of history is to provide a receptacle
For all those myths and oddments
Which oddly we have acquired
And from which we would become unburdened
To create a newer world
To transform the future into the present.

We have no need of false revolutions
In a world where categories tend to tyrannize our minds
And hang our wills up on narrow pegs.

It is well at every given moment to seek the limits in our lives.

And once those limits are understood
To understand that limitations no longer exist.

Earth could be fair. And you and I must be free
Not to save the world in a glorious crusade
Not to kill ourselves with a nameless gnawing pain
But to practice with all the skill of our being
The art of making possible.

A entrada em Yale e o encontro com Bill

“Cruzávamo-nos no campus, mas nunca nos encontrámos mesmo, até uma noite na biblioteca de Direito de Yale, na primavera seguinte. Eu estava a estudar na Biblioteca e Bill estava no átrio a conversar com outro estudante, Jeff Gleckel, que tentava convencer Bill a escrever para o Yale Law Journal. Reparei que olhava para mim. Olhava muito. Por isso, levantei-me da mesa, fui ter com ele e disse: ‘Se vai ficar a olhar para mim e eu a olhar para si, também podemos apresentar-nos. Eu sou a Hillary Rodham’. Assim foi. Segundo a maneira como ele conta a história, Bill nem conseguia lembrar-se do seu próprio nome”, conta ela.

Hillary Clinton as a teenager, ca. 1960s

Em 1969 é admitida em Yale, nata das “Ivy League”, para estudar Direito, por indicação da antiga aluna Marian Wright Edelman, advogada especialista em Direito da Família e defensora dos direitos das crianças, dois temas prioritários para Hillary, durante todo o seu percurso. A 20 de junho desse ano, escolhem-na, a par de outros quatro alunos de outras quatro escolas, como exemplo na revista Life, para o artigo “Class of ‘69” (uma delas era Ira Magaziner, ativista que viria a ser conselheira sénior na Administração Clinton e trabalha hoje na Clinton Foundation).

“A única coisa que sabia dele era que era do Arkansas e que estava sempre a dizer que lá produziam as maiores melancias do mundo”, conta Hillary no vídeo de introdução exibido na Convenção de Filadélfia.

Começaram a namorar ainda durante o curso de Direito e a insistência de Bill fez com que Hillary, depois de alguns ‘nãos’, tenha acedido ao pedido de casamento: “Bill já tinha comprado uma velha cama de ferro forjado na loja de antiguidades local e tinha ido ao WalMart arranjar lençóis e toalhas. Dessa vez eu disse ‘sim’. Casámos na sala de estar a 11 de outubro de 1975, pelo reverendo Vic Nixon”.

“Depois de tudo o que aconteceu desde então, perguntam-me frequentemente por que razão Bill e eu ficámos juntos. Não é uma pergunta que me agrade, mas dada a natureza pública da nossa vida, é uma pergunta que sei que me vai ser feita repetidamente. Que posso dizer para explicar um amor que persistiu ao longo de décadas e cresceu com a nossa experiência partilhada de sermos pais de uma filha, de enterrarmos os nossos pais e de cuidarmos das nossas famílias extensas, de amigos que valem uma vida, de uma fé comum e de um compromisso permanente com o nosso país? Tudo o que sei é que ninguém me entende melhor nem ninguém me faz rir como Bill. Mesmo depois de todos estes anos, ele ainda é a mais interessante, mais estimulante e mais sensível pessoa que conheci. Bill Clinton e eu iniciámos uma conversa na primavera de 1971 e mais de trinta anos depois ainda estamos a conversar”, reflete Hillary na sua autobiografia.

De republicana a democrata, sem rutura

Hillary foi republicana durante quase toda a década de 60. Chegou mesmo a ser uma ‘Goldwater Girl’, tendo feito campanha por Barry Goldwater, candidato republicano às eleições presidenciais de 1964 – mas o ano de 1968 foi suficientemente tumultuoso para que começasse a pôr em causa o seu posicionamento partidário.

“Em retrospetiva, 1968 foi um ano crítico para o país e para a minha própria evolução pessoal e política. Os acontecimentos nacionais e internacionais desenrolaram-se em rápida sucessão: a ofensiva do Tet, a retirada de Lyndon Johnson da corrida presidencial, o assassinato de Martin Luther King Jr, o assassinato de Robert Kennedy e a escalada implacável da Guerra do Vietname”, explica, em “Living History”.

A mudança definitiva para os democratas far-se-ia já nos anos 70, com Bill Clinton.

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O primeiro “impeachment”

A palavra “impeachment” marca diferentes fases da carreira de Hillary Clinton. Donald Trump e os republicanos acenaram com esse fantasma durante esta campanha de 2016. Dezoito anos antes, Hillary era uma das protagonistas do processo de destituição de que foi alvo o marido-Presidente.

Mas duas décadas e meia antes dessa tentativa de “impeachment” a Bill Clinton, quem foi mesmo removido da Casa Branca foi o republicano Richard Nixon.

Aplicada, estudiosa, Hillary Rodham era, no início da década de 70, uma jovem advogada com um futuro promissor. Hillary participou nesse processo, em 1974, em Washington DC como consultora do Comité de Justiça, na comissão de inquérito ao possível “impeachment” do Presidente Nixon.

Sob o comando do Juiz Conselheiro John Doar e pelo advogado democrata Bernard Nussbaum (que mais tarde viria a ser conselheiro jurídico da Casa Branca durante a Administração Bill Clinton), Hillary teve um papel importante na definição dos procedimentos de um “impeachment”. É uma das poucas mulheres entre os diversos membros a participarem nos trabalhos, que redundariam, em agosto de 1974, na resignação de Nixon.

Primeira Dama do Arkansas

Esposa do mais jovem governador de estado da América (1978, tinha Bill 32 anos), Hillary passaria a ser uma precoce… ex-Primeira Dama do Arkansas, quando o marido perdeu a reeleição, em 1980.

E foi aí que, pela primeira de várias vezes, Hillary interveio na carreira política de Bill. No olhar de muitos eleitores de um dos estados mais rurais e conservadores da América, o facto de a mulher do governador não usar o nome de família do marido podia ser um problema.

“No inverno após a derrota de Bill, alguns dos nossos amigos e apoiantes vieram falar comigo acerca do uso de ‘Clinton’ como meu último nome”, relata Hillary na sua autobiografia.

“Ann Henry disse-me que algumas pessoas ficavam zangadas quando recebiam convites para acontecimentos na mansão do governador do ‘governador Bill Clinton e Hillary Rodham’. (…) As pessoas do Arkansas reagiram em grande medida como a minha sogra tinha reagido quando me conheceu: eu era uma coisa estranha por causa do meu vestido, dos meus modos de nortenha e do uso do meu nome de solteira. (…) A única pessoa que não me pediu nem sequer me falou acerca do meu nome foi o meu marido. Disse que o meu nome era um problema meu e não pensava que o seu futuro político dependesse dele fosse de que maneira fosse. Decidi que era mais importante para Bill voltar a ser governador do que para mim manter o nome de solteira. Por isso, quando Bill anunciou a sua candidatura a outro mandato no segundo aniversário de Chelsea, comecei a chamar-me Hillary Rodham Clinton”.

Com Bill, rumo à vitória

Em 1992, na caminhada para a Casa Branca, Hillary voltou a ser decisiva para o sucesso de Bill. Muito importante, mesmo.

Conta-se a história de que, nos primeiros dias na Casa Branca, Hillary terá dito a Bill que reencontrara, em Washington DC, um taxista chamado John, com quem tinha namorado quando ainda vivia no Illinois. “Já viste, querida… Podias ter casado com um taxista”. “Não, Bill”, corrigiu Hillary, “o John é que poderia ter sido Presidente dos EUA”.

Bill foi sempre o primeiro a reforçar essa importância. “Hillary é incrivelmente preparada, inteligente, perspicaz e determinada. Ao tê-la comigo na Casa Branca, os americanos compraram dois presidentes pelo preço de um”.

Hillary Clinton (6)

O arranque das primárias democratas no Iowa tinha sido fraco e novo insucesso no New Hampshire poderia significar o fim do sonho presidencial para os Clinton. Rebenta nos jornais uma história cabeluda com tudo para ditar a machadada fatal: a modelo e atriz Gennifer Flowers garante ter tido um relacionamento extraconjugal com Bill Clinton durante 12 anos.

Nos dias anteriores à votação no New Hampshire, Bill e Hillary dão uma entrevista conjunta ao 60 Minutes: “Sabe, eu não estou aqui sentada como uma mulherzinha qualquer ao lado do seu homem, como uma Tammy Wynette. Estou aqui sentada porque o amo e respeito o que ele tem passado e o que nós passámos juntos. E sabe que mais? Se isso não for suficiente para as pessoas, olhe, que não votem nele”.

A intervenção de Hillary voltou a ser fundamental. Bill ficou em segundo lugar no New Hampshire e relançou nesse dia o caminho para a nomeação: “Aparentemente, a maioria dos americanos concordava com a nossa posição básica: que as eleições tinham a ver com eles e não com o nosso casamento. Vinte e três dias mais tarde, Bill tornou-se o “Rapaz das Recuperações” (Comeback Kid) pelo seu forte segundo lugar nas primárias do New Hampshire.

Em novembro de 1992, Bill Clinton batia o então Presidente Bush pai e tornava-se o terceiro presidente mais jovem da história dos EUA.

Washington DC mais conservador que o Arkansas?

O salto do Arkansas para a Casa Branca, mesmo para quem cumpriu quatro mandatos no governo do pequeno estado sulista, foi demasiado grande para se fazer sem dificuldades. Era o início dos anos 90 e os EUA estavam a reaprender a olhar para um Presidente democrata, depois de 12 anos de Reagan e Bush pai.

Hillary admite, em ‘Living History’: “Eu ainda estava a aprender e a descobrir o que significava ser primeira-dama da América. A diferença entre ser mulher de um governador e de um presidente é incomensurável. De repente, as pessoas que estão à nossa volta passam uma quantidade de tempo a antecipar o que nos fará felizes. Por vezes, essas pessoas não nos conhecem bem ou interpretam-nos mal. Tudo que dizemos é amplificado. E temos que ter muito cuidado com o que desejamos, ou recebemos tudo num contentor (…) Estava a navegar em terreno desconhecido – e com a minha própria inexperiência, contribuía para algumas das perceções contraditórias a meu respeito. Demorei algum tempo a perceber que o que talvez não fosse importante para mim podia ser muito importante para muitos homens e mulheres de toda a América. Vivíamos numa era em que algumas pessoas ainda sentiam uma profunda ambivalência em relação a mulheres em lugares de liderança pública e de poder. Nesta era de mudança dos papéis de cada género, eu era a Prova A da América”.

Os receios aumentaram quando surgiram as primeiras resistências ao papel ativo que Hillary sempre quis assumir na Casa Branca: “No que dizia respeito a esposas políticas, certamente não esperávamos que a capital da nação fosse mais conservadora do que o Arkansas”.

It Takes a Vilage

Em janeiro de 1996, Hillary Clinton publica o livro “It Takes a Village: And Other Lessons Children Teach Us” (nda: a expressão ‘it takes a village’ aponta para um provérbio que nos diz que para criar e educar uma criança não bastam os pais e o contexto familiar, mas toda uma comunidade envolvente).

Viria, um ano depois, a receber um grammy pela versão áudio-livro da obra e foi best seller do New York Times. O livro vende mais de um milhão de cópias e Hillary doa a totalidade das receitas a obras de assistência às crianças.

Na Convenção Democrata de julho passado, Hillary recuperou a expressão que dá título ao livro para concluir que a ideia “It Takes a Village” mostra como Donald Trump estava enganado ao prometer: “I alone can fix it” (eu consigo resolver isso sozinho).

Hillary, a senadora

As primeiras semanas de 2001 foram de sentimentos contraditórios para Hillary Clinton. Ainda festejava a vitória para o Senado, preparava-se para tomar posse, mas estava também a dizer adeus a oito anos na Casa Branca como Primeira Dama – que, para mais, passava a estar sob domínio dos republicanos.

“Numa tarde chuvosa de sábado, demos uma festa de despedida debaixo de uma grande tenda no Relvado Sul, para toda a gente que tinha trabalhado ou que se tinha voluntariado para a Casa Branca ao longo dos últimos anos (…) Buddy Carter, o mordomo veterano da Casa Branca, recebeu o meu último abraço de adeus e transformou-o numa dança alegre. Deslizámos e rodopiámos pelo chão de mármore. O meu marido entrou na dança, tomando-me nos braços, enquanto valsávamos juntos pelo longo átrio. Então disse adeus à casa onde tinha passado oito anos a viver a história”.

Hillary foi uma senadora com um registo vasto e trabalho profundo em várias comissões de relevo. Mas ficará sempre ligada ao voto favorável que deu à invasão do Iraque.

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A campanha para o lugar de Senadora pelo estado de Nova Iorque

“A minha falta de confiança na Administração Bush datava do outono de 2002, quando afirmou que os seus serviços de informações tinham provas irrefutáveis de que Saddam Hussein tinha armas de destruição maciças. Depois de ponderar as provas e procurar ouvir tantas opiniões quanto possível dentro e fora do governo, quer de democratas, quer de republicanos, votei a favor de uma intervenção militar no Iraque se os esforços diplomáticos, isto é, as inspeções de armamento da ONU, falhassem. (…) Ao longo dos anos que se seguiram, muitos senadores acabaram por desejar ter votado contra a resolução. Eu estive entre eles. À medida que a guerra se arrastava, com cada carta que enviei a uma família em Nova Iorque que tinha perdido um filho ou uma filha, um pai ou uma mãe, o meu voto tornou-se mais doloroso”, admite Hillary na sua autobiografia.

“Cinco anos mais tarde, o presidente Bush pediu-nos para confiar nele de novo, desta vez em relação à proposta das forças no terreno, e eu não fui na conversa. Não acreditei que o simples envio de mais militares fosse resolver o sarilho em que nos encontrávamos.”

Como senadora por Nova Iorque, Hillary serviu em cinco comités (Orçamento entre 2001 e 2003; Forças Armadas entre 2003 e 2009; Ambiente e Serviços Públicos entre 2001 e 2009; Saúde, Educação, Trabalho e Pensões entre 2001 e 2009 e ainda o Comité Especial sobre o Envelhecimento). No âmbito do trabalho desenvolvido nesses cinco comités, participou em nove subcomités, tendo presidido ao subcomité de Saúde Ambiental, entre 2007 e 2009. Ainda na qualidade de senadora, liderou a Comissão para a Segurança e Cooperação na Europa, entre 2001 e 2009.

Hillary, a Secretária de Estado

“Estes anos representaram para mim um percurso pessoal, tanto no sentido literal (acabei por visitar 112 países e viajei cerca de um milhão e seiscentos mil quilómetros) como no sentido figurado, desde o doloroso final da campanha de 2008 até uma parceria inesperada e uma amizade com o meu antigo rival Barack Obama. (…) A diplomacia seria mais fácil se tivéssemos que falar só com os nossos amigos. Não é assim que se faz a Paz. Uma política externa efetiva e bem sucedida envolveu sempre o uso simultâneo de chicotes e cenouras e de encontrar o equilíbrio ideal entre os dois é mais do que uma ciência”, escreveu Hillary sobre os quatro anos em que chefiou a diplomacia americana

Hillary Clinton levou para Foggy Bottom (bairro de Washington DC onde se situa o Harry Truman Building, sede do Departamento de Estado) o paradigma do ‘poder inteligente’. O conceito foi apresentado por Hillary no início do seu mandato e foi sendo desenvolvido nos quatro anos seguintes.

WASHINGTON, DC - MAY 1: (EDITORS NOTE: Please be advised that a classified document visible in this photo was obscured by The White House) In this handout image provided by The White House, President Barack Obama, Vice President Joe Biden, Secretary of State Hillary Clinton and members of the national security team receive an update on the mission against Osama bin Laden in the Situation Room of the White House May 1, 2011 in Washington, DC. Obama later announced that the United States had killed Bin Laden in an operation led by U.S. Special Forces at a compound in Abbottabad, Pakistan. (Photo by Pete Souza/The White House via Getty Images)

Hillary quando era secretária de Estado dos EUA @Pete Souza/The White House via Getty Images

Em ‘Hard Choices’ (traduzido em Portugal pela Dom Quixote, ‘Escolhas Difíceis), a candidata enuncia: “Como secretária de Estado, abordei as nossas escolhas e os nossos desafios em três categorias: os problemas que herdámos, incluindo duas guerras e uma crise financeira de dimensão global; os novos e muitas vezes inesperados eventos e ameaças emergentes, desde as mudanças no Médio Oriente até às águas turbulentas do Pacífico até aos terrenos inexplorados do ciberespaço; e ainda as oportunidades de um mundo crescentemente interligado que podem ajudar a construir as fundações para uma prosperidade Americana e de uma liderança renovada no século XXI. (…) Trabalhei para reorientar a política externa americana em torno daquilo a que chamo ‘poder inteligente’ (smart power). Para vencer no século XXI, precisamos de integrar diferentes instrumentos de politica externa – diplomacia, assistência ao desenvolvimento e força militar – enquanto aproveitamos a energia e as ideias do setor privado e criamos condições para dar poder aos cidadãos, especialmente os ativistas, organizadores e geradores de soluções naquilo a que chamamos ‘sociedade civil’, para enfrentar os seus próprios desafios e moldar o seu futuro. Temos que usar todas as forças e capacidades da América para construir um mundo com mais parceiros e menos adversários, mais responsabilidades partilhadas e menos conflitos, mais empregos sólidos e menos pobreza, mais prosperidade alargada e menos danos criados ao nosso ambiente”.

Hillary chefiou a diplomacia americana conjugando a sua vasta experiência política e de relações externas com uma visão inovadora: “Sabia que em questões de política externa, os mais tradicionalistas no ‘establishment’ questionariam se valeria a pena a secretária de Estado perder tempo a ponderar os impactos do Twitter, a criar programas para mulheres empresárias ou a defender os negócios americanos nos outros países. Mas quanto a mim não tinha dúvidas, tudo isto faz atualmente parte do trabalho do diplomata do século XXI”.

Bateu recordes de países visitados (112) e viagens feitas (“nenhuma experiência me poderia preparar para passar mais de 2000 horas no ar ao longo de quatro anos, percorrendo quase 1.600.000 quilómetros. Isso representa 87 dias de ar reciclado e de vibrações constantes do dois motores ‘turbofan’ que nos transportam a mais de 800 quilómetros por hora”). E abandonou, em janeiro de 2013, o Departamento de Estado com uma convicção: “Como acontece quase sempre, gostava de poder voltar atrás e reavaliar certas decisões. Mas estou orgulhosa do que conquistámos. Este século começou de forma traumática para o nosso país, com os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, as longas guerras que se seguiram e a Grande Recessão. Tínhamos que fazer melhor – e acredito que conseguimos.”

O fim da ‘Comeback Girl’

Em diversos momentos da sua longa carreira política e cívica, Hillary Rodham Clinton parecia ter estado destinada a perder. Mas conseguiu sempre tirar o melhor da adversidade e soube, quase sempre, dar a volta por cima.

Hillary, a ‘Comeback Girl’. Até agora.

* Germano Almeida é autor de “HILLARY CLINTON – Nunca é Tarde para Ganhar”; algumas das histórias contadas neste texto estão desenvolvidas no livro publicado no início de novembro de 2016