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É um veterano diplomata e político na Rússia. Sergey Lavrov lidera o Ministério dos Negócios Estrangeiros há mais de 20 anos. Sempre foi leal ao Presidente, Vladimir Putin, e coloca em prática a visão do mundo do Kremlin. Mas o chefe da diplomacia — conhecido pela sua arrogância e sarcasmo — terá perdido em parte a confiança do líder russo. Esteve alguns dias sem falar à imprensa, mas quebrou o silêncio este domingo, numa entrevista escrita, com um mea culpa dirigido ao seu homólogo norte-americano, Marco Rubio. Esta terça-feira apareceu em público para dar uma entrevista com vários meios de comunicação social.
Após uma chamada longa entre Vladimir Putin e o Presidente norte-americano Donald Trump em meados de outubro, ficou acordada a realização de uma cimeira em Budapeste. Ficou também definido que, antes do encontro, haveria contactos mais informais entre uma delegação russa (chefiada por Sergey Lavrov) e outra dos Estados Unidos (liderada por Marco Rubio). No entanto, as conversas entre os chefes da diplomacia não correram nada bem. A ofensiva de charme do chefe de Estado russo não foi além de impedir que a Casa Branca fornecesse mísseis Tomahawk à Ucrânia — e não houve mais desenvolvimentos.
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Em público, a Casa Branca sinalizou que a cimeira estaria mesmo cancelada no final de outubro. Ambicionando discutir apenas um acordo de paz com Donald Trump (sem a participação da Ucrânia ou da Europa), Vladimir Putin viu as relações com o homólogo norte-americano deteriorarem-se e Kiev ganhar novamente um ascendente na relação com os Estados Unidos. Além disso, três dias depois da conversa entre Marco Rubio e Sergey Lavrov, a administração Trump decidiu aplicar o primeiro pacote de sanções à Rússia neste segundo mandato.
▲ Marco Rubio e Sergey Lavrov desentenderam-se durante a chamada telefónica
FAZRY ISMAIL/EPA
Vladimir Putin ainda enviou o enviado especial económico, Kirill Dmitriev, aos Estados Unidos para tentar fazer as pazes com a Casa Branca. Mas não teve grande êxito; prova disso é que o secretário do Tesouro, Scott Bessent, adjetivou-o como um “propagandista russo” numa entrevista televisiva. Perante este fracasso, procuraram-se culpados no Kremlin: e Sergey Lavrov terá sido o responsabilizado pela perda de confiança entre os Estados Unidos e a Rússia.
Lavrov. O “Mr. Nyet” leal que tem “a tarefa aborrecida” de justificar ao mundo o que Putin faz
Desde o início da guerra da Ucrânia, Sergey Lavrov tem sido uma das vozes mais críticas da Ucrânia e da presidência do país invadido. As declarações são muitas vezes exageradas, insultuosas e roçam até o bullying; o governante chegou a insinuar que Adolf Hitler “tinha origens judaicas” para justificar a necessidade de “desnazificação” da Ucrânia liderada por Volodymyr Zelensky — que é judeu. Em resposta a estas declarações, Israel até exigiu um pedido de desculpas, que terá sido feito numa conversa entre Vladimir Putin e o primeiro-ministro israelita de então, Naftali Bennett.
O estilo predileto de Lavrov é o do confronto e do sarcasmo. Aliás, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Maria Zakharova, ainda adota um estilo mais confrontacional, não medindo muitas vezes as palavras para criticar a Ucrânia ou o Ocidente. Como escreve o Telegraph, o ministro “representa o melhor da tradição diplomática soviética”, sabendo em “detalhe os assuntos melhor do que todos os homólogos”. Ao mesmo tempo, simboliza “o lado mais negro da herança soviética”: “O bullying, o gozo, a mentira e a intimidação”.
▲ Sergey Lavrov e Maria Zakharova, os rostos da diplomacia russa
AFP via Getty Images
“Mr. Nyet” — “senhor não”. Este foi a alcunha que ficou colada a Sergey Lavrov por manter uma postura diplomática muitas vezes intransigente, que recorda a do antigo chefe da diplomacia soviética durante a Guerra Fria, Andrei Gromyko. O seu estilo tem representado uma linha mais dura do Kremlin, em que não há espaços para cedências ou concessões. Foi também assim durante o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, em que o atual ministro usou o poder de veto da Rússia por várias vezes, nos dez anos em que foi o embaixador extraordinário e plenipotenciário e representante permanente da Federação Russa na ONU.
De “Mr. Nyet” a “saco de pancada” do mundo. A vida e as polémicas de Sergey Lavrov
Ganhando o estatuto de difícil negociador para os países rivais da Rússia, Lavrov parece não dar grande valor a isso. Para o exercício do seu cargo, uma das missões mais importantes não é propriamente manter boas relações com outros Estados; é manter a lealdade a Vladimir Putin. Como descreveu em 2017 Rex Tillerson, secretário de Estado na primeira administração Trump, “não é permitido” a Lavrov “dançar o tango”. “Não é ele quem dança”, afirmou o líder diplomático norte-americano numa cimeira da NATO, numa alusão ao facto de o ministro dos Negócios Estrangeiros apenas estar a cumprir ordens emanadas diretamente pela presidência.
Para muitos analistas, Sergey Lavrov serve apenas como o rosto visível que serve de correia de transmissão entre Vladimir Putin e o mundo. Não há uma doutrina Lavrov nas relações internacionais, como o ministro chegou a admitir numa entrevista. “Não acredito na ideologia nas relações internacionais. Comecei a trabalhar como diplomata durante os tempos da União Soviética e, apesar de a ideologia estar muito no topo da agenda do Partido Comunista, posso assegurar-vos que, em termos práticos, sempre tentámos ser pragmáticos.”
Nos seus mais de 20 anos de mandato, como refere o jornal Telegraph, Vladimir Putin “concentrou o poder de decisão na política externa” e preferiu contar mais “com soldados e com espiões” e não tanto com diplomatas para concretizar a sua visão do mundo. Neste contexto e com pouca margem de manobra, Sergey Lavrov tem a “tarefa aborrecida de justificar retroativamente tudo o que seu chefe se lembra”.
Foi, aliás, o que aconteceu no início da invasão. Ao que tudo indica, o ministro dos Negócios Estrangeiros não terá sido informado de antemão, rejeitando inicialmente a ideia (apesar de a ter vindo a defender acerrimamente no futuro) de um confronto com a Ucrânia. Vladimir Putin terá delineado os planos do início da guerra com o amigo (e ex-ministro da Defesa), Sergey Shoigu, o atual conselheiro da presidência e antigo líder do ramo das secretas FSB, Nikolai Patrushev, e o antigo chefe de gabinete da presidência, Dmitry Kozak.
“Putin sente-se à vontade em trabalhar com Lavrov, porque durante estes anos todos foi sempre um burocrata experiente. [O ministro] sabe perfeitamente que não deve dizer nada que não coincida 100% com a posição do Presidente. Se há algo em que existe uma pequena chance de Putin não gostar, ele simplesmente não o diz“, disse, ao Guardian, Boris Bondarev, um antigo diplomata russo que abandonou o cargo após o início da guerra.
▲ Vladimir Putin pretende que Sergey Lavrov coloque em prática a sua visão do mundo
ALEXANDER KAZAKOV / SPUTNIK / KREMLIN POOL/EPA
A tensão Rubio-Lavrov que terá irritado Putin
O comunicado dos dois lados foi bastante parco. Após a chamada a 20 de outubro, o secretário de Estado dos Estados Unidos apenas assinalava que foi discutida a “importância das oportunidades entre Moscovo e Washington de colaboração para avançar com uma resolução duradoura para a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, em linha com a visão do Presidente Trump”. A nota da diplomacia russa apenas referia que a conversa serviu para “reforçar as condições emergentes necessárias para começar as negociações destinadas a estabelecer uma estrutura fiável para a paz sustentável e a longo prazo”.
Se diplomaticamente a nota foi bastante formal e sem grande substância, publicamente Lavrov fez algo que terá sido imperdoável para a Casa Branca: disse que a guerra não ia parar num futuro próximo. Numa conferência de imprensa, o ministro afirmou que se a Rússia simplesmente cessasse as hostilidades, “isso significará esquecer as causas originais do conflito”. “Agora ouvimos de Washington que devemos parar imediatamente [a guerra] e que não devemos discutir mais nada. Parem e deixem a História julgar”, acrescentou o chefe da diplomacia, num desafio a Donald Trump — que quer um fim rápido para o conflito na Ucrânia.
Sergey Lavrov ainda foi mais longe. Desvalorizando a cimeira do Alasca, o ministro salientou que seria uma “contradição” a cessação das hostilidades e salientou ainda que “um cessar-fogo agora significaria apenas uma coisa: grande parte da Ucrânia permaneceria sob o regime nazi de Kiev”. Para além disso, o ministro terá deixado bem claro a ambição de conquistar toda a região do Donbass, discordando do plano de parar a guerra na atual linha da frente.
▲ Vladimir Putin pretende que Sergey Lavrov coloque em prática a sua visão do mundo
ALEXANDER KAZAKOV / SPUTNIK / KREMLIN POOL/EPA
Os norte-americanos disseram que foi uma “conversa produtiva”. Foi um eufemismo para uma conversa que terá corrido, segundo o Telegraph, muito mal. E isso gerou várias consequências. Uma fonte da Casa Branca adiantou à Reuters que, após a tal “conversa produtiva”, não seria necessário uma “reunião presencial adicional” que estaria inicialmente prevista. Horas depois, foi a vez de Donald Trump ter dito que as conversas com Vladimir Putin até eram “boas”, mas não “levavam a lado nenhum”.
Em resultado deste falhanço diplomático, os Estados Unidos aplicaram sanções que Donald Trump classificou como “tremendas” a duas petrolíferas russas: a Lukoil e a Rosneft. A Rússia desvalorizou a ação norte-americana, garantindo que não ia ter impacto na economia russa. Mas é certo que a venda de petróleo é um dos sustentáculos da máquina de guerra do Kremlin na Ucrânia e Vladimir Putin apressou-se a enviar para os Estados Unidos o seu enviado especial económico, Kirill Dmitriev.
Durante a conversa, o ministro dos Negócios Estrangeiros terá mantido o seu estilo direto, duro e provocador, o que terá caído mal junto de Marco Rubio. Ao contrário de outros rostos da administração Trump, o secretário de Estado já deixou várias críticas à Rússia no passado. Desta chamada depreende-se que o líder da diplomacia norte-americana, que também é Conselheiro de Segurança Nacional, não terá ficado nada satisfeito com as propostas maximalistas russas, tendo influenciado Donald Trump a agir contra o Kremlin.
▲ Na conversa, Lavrov manteve uma postura intransigente com Marco Rubio
POOL/AFP via Getty Images
Ainda assim, Sergey Lavrov veio esta terça-feira realçar que teve uma “conversa boa, educada e sem interrupções” com o secretário de Estado: “O próximo passo deveria ser uma reunião de representantes da política externa, das forças armadas, e pelo que entendi, dos serviços secretos”. O ministro responsabilizou depois os norte-americanos por “não ter tomado mais nenhuma ação adicional”, não desmentindo também as exigências que fez a Marco Rubio.
Apesar das justificações do ministro, para concretizar o objetivo de Vladimir Putin de negociar um acordo de paz apenas com os Estados Unidos, do qual a Ucrânia ficaria excluída, esta conversa foi um balde de água fria. No entanto, tendo em conta a dependência de Sergey Lavrov de Vladimir Putin, não terá sido uma escolha deliberada da presidência a adoção de um estilo duro com Marco Rubio?
Ao Guardian, fonte do Kremlin que trabalhou na presidência russa sinalizou que Lavrov “geriu mal” a conversa com o homólogo norte-americano e isso transformou-se numa “trapalhada diplomática”. As exigências intransigentes expostas pelo ministro dos Negócios Estrangeiros — como a Rússia querer conquistar o Donbass na íntegra e não aceitar parar as hostilidades na linha da frente — foram contraproducentes para as relações entre Moscovo e Washington, que Vladimir Putin deseja que melhorem.
Certo é que Sergey Lavrov não fugiu do seu estilo. Estilo esse que, segundo conta a mesma fonte, está a começar a irritar Putin, uma vez que as circunstâncias se alteraram. Antes, com o antigo Presidente Joe Biden, a animosidade entre a Rússia e os Estados Unidos era bem vista — e o ministro dos Negócios Estrangeiros cumpria perfeitamente a função de provocar a antiga administração. Com Donald Trump, essa abordagem não resulta tão bem. “Putin queria a reunião em Budapeste e não cabia a Lavrov interferir”, declarou a mesma fonte.
▲ Reunião em Budapeste entre Vladimir Putin e Donald Trump foi cancelada
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Ao Guardian, Boris Bondarev apresenta outro prisma. O tom duro foi ensaiado e combinado de antemão com Vladimir Putin: “A ideia de que Lavrov demonstrou falta de vontade em negociar e que isso, de qualquer forma, cancelou a reunião [presencial] é improvável. Não há uma ideologia de Lavrov; apenas a de Putin“. Contudo, o chefe de Estado russo terá decidido culpar o seu ministro dos Negócios Estrangeiros pela falha estratégica e diplomática da conversa com Marco Rubio. “No sistema russo, o chefe nunca pode estar errado”, assinalou o ex-diplomata.
Lavrov reapareceu após duas semanas. E ganhou “inimigos no Kremlin”
Este domingo, Lavrov deu uma entrevista à agência de notícias russa RIA. Quebrou o silêncio, algo que voltou a fazer esta terça-feira. Nas duas ocasiões, o ministro abriu a possibilidade de se encontrar com o secretário de Estado, tentando uma reconciliação após a chamada telefónica. “Marco Rubio e eu entendemos a necessidade de comunicarmos regularmente. É importante para discutir a questão ucraniana e avançar na agenda bilateral. É por isso que conversamos por telefone e também estamos preparados para realizar reuniões presenciais quando necessário”, frisou.
Ainda assim, o governante reiterou que a ideia de que as “causas profundas” do conflito — nomeadamente a possibilidade de a Ucrânia integrar a NATO — têm de ser “resolvidas” antes de se chegar a um acordo. Na mesma entrevista, Sergey Lavrov não referiu o Donbass, mas enfatizou que a “questão da soberania” da Crimeia “está encerrada”: a península é russa e é uma linha vermelha para Moscovo. Contudo, neste ponto, os Estados Unidos já demonstraram alguma flexibilidade em que o território fique nas mãos dos russos.
Em eventos públicos, o ministro já não é visto há cerca de duas semanas, embora tenha dado uma entrevista esta terça-feira. Não participou na reunião do Conselho de Segurança (órgão de que faz parte) em que Vladimir Putin ordenou novos testes nucleares. Além disso, na cimeira do G20 na África do Sul, que vai ocorrer no final de novembro, o Presidente russo delegou a responsabilidade no vice-chefe de gabinete, Maxim Oreshkin, sendo que o expectável era que Lavrov viajasse a Joanesburgo e liderasse a delegação da Federação Russa.
A ausência da reunião do Conselho de Segurança de Sergey Lavrov foi, de acordo com o jornal Kommersant, “acordada”. Porém, o desaparecimento do ministro nunca foi verdadeiramente explicado. Ao Financial Times, uma fonte familiarizada com as negociações entre os Estados Unidos e a Rússia confidenciou que “Lavrov está claramente cansado e parece que tem melhores coisas para fazer que se encontrar ou dialogar com os Estados Unidos, independentemente do que o Presidente Putin possa querer”.
Outras fontes ouvidas pelo portal Nezygar — citadas pelo jornal Moscow Times — não confirmaram totalmente as informações avançadas pelo Financial Times. Mas destacaram que Lavrov “está, de facto, cansado” e tem ganhado “vários adversários dentro do Kremlin”: “É evidente que caiu em desgraça para Putin e aparenta ser o elo mais fraco”.
▲ Lavrov terá "caído em desgraça" para Vladimir Putin
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De acordo com o Guardian, há anos que o ministro dos Negócios Estrangeiros tem sido constantemente excluído de decisões importantes tomadas por Vladimir Putin. Mas agora também tem sido desafiado por Kirill Dmitriev, o enviado especial económico do Kremlin — que o Presidente russo enviou para os Estados Unidos recentemente para se reaproximar da administração Trump. “A relação cada vez mais tensa entre os dois homens deixou de ser já um segredo em Moscovo”, lê-se no jornal britânico.
Kirill Dmitriev defende uma corrente totalmente oposta à de Sergey Lavrov: o enviado especial pretende uma aproximação entre Moscovo e Washington — e tem trabalhado precisamente para alcançar esse objetivo. Isso tem irritado o chefe da diplomacia russa, que vê alguém a interferir diretamente nas suas funções. “Aqueles dois homens não se suportam”, relata uma fonte do Kremlin que trabalhou na presidência russa.
Surgiu ainda outro rumor avançado por Abbas Gallyamov — o antigo escritor de discursos de Vladimir Putin que se tornou um opositor ao regime —, de que a segunda filha do Presidente russo, Katerina Tikhonova, teria feito pressão para que o pai demitisse o chefe da diplomacia. Com uma presença mediática crescente, a mulher de 39 anos considera que Lavrov teria de sair do cargo porque era “demasiado agressivo” e o estilo “assertivo prevenia que acordos fossem alcançados”.
▲ Katerina Tikhonova, a segunda filha de Vladimir Putin
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Vai Lavrov ser demitido? É provável que não. Afinal, continua a ser “leal”
Sob fogo e com inimigos poderosos, estará o cargo de Sergey Lavrov em risco? O Kremlin tem negado quaisquer rumores de que será demitido. Na sexta-feira, o porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, sublinhou que nenhum dos relatos feitos na imprensa “corresponde à realidade”: “Claro que Lavrov está a trabalhar no Ministério dos Negócios Estrangeiros.”
Esta segunda-feira, Dmitry Peskov voltou a afastar uma alegada tensão entre Vladimir Putin e Sergey Lavrov. “Está tudo bem”, assegurou, descrevendo novamente como “absolutamente falsas” as especulações de alguns meios de comunicação social sobre uma eventual queda em desgraça de Lavrov. “Quando houver eventos públicos, irão ver o ministro”, prometeu.
Para já, nada parece indicar que Lavrov será dispensado do cargo. Uma antiga fonte próxima do Kremlin comentou ao Guardian que Vladimir Putin não deverá demitir um diplomata que lhe foi leal durante décadas. O chefe da diplomacia é um burocrata e não se importa de dar a cara pelo que fica decidido pelo Presidente russo, mesmo que depois até tenha de alterar o discurso. Seria arriscado substitui-lo — e o ministro continua a ser confiável.
▲ Sergey Lavrov continua a ser leal — a condição essencial para Vladimir Putin o manter no cargo
MAXIM SHIPENKOV/EPA
“Lavrov sobreviveu muito tempo [a ser um diplomata] deste nível. A chave é colar-se ao patrão — e Lavrov não tem sido mais nada além de leal a Putin“, lê-se no Telegraph. O Presidente russo até pode exclui-lo do seu núcleo duro e preferir delinear o rumo da política externa da Rússia com outros dirigentes. Mas desde que cumpra com o que o líder do Kremlin deseja, nada deverá mudar.
Porém, Sergey Lavrov já tem 75 anos. E poderá estar doente. No final de 2022, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo teria sido hospitalizado por causa de um “problema de saúde” na Indonésia, onde estava para assistir à cimeira dos G20. A Rússia sempre negou a veracidade desta informação — e até foi publicado um vídeo no hotel do chefe da diplomacia que alegadamente desmentiu esta informação.
Hier sehen Sie Sergej Lavrov mit Herzproblemen im Krankenhaus auf Bali.
Spaß beiseite. Sergej Lavrov sagt, dass die Berichte über ihn nur ein politisches Spiel seien und dass es ihm gut gehe.
Einige werden nach ihrer perversen Freude sicher enttäuscht sein. pic.twitter.com/k8dPoV7tyr
— Manaf Hassan (@manaf12hassan) November 14, 2022
Fumador há décadas e com um gosto por whisky, a saúde do ministro pode estar a ficar debilitada. “O nível de exaustão física é muito visível”, comentou ao Telegraph Alexander Gabuev, membro do think tank Carnegie Russia Eurasia Center. A possibilidade de se reformar pode estar próxima — e Vladimir Putin poderá não ter de tomar a iniciativa de o substituir.
▲ Kirill Dmitriev, o enviado especial que é o novo inimigo de Sergei Lavrov e que o pode vir a substituir
POOL/AFP via Getty Images
No horizonte, se Sergey Lavrov sair do cargo, já há vários nomes em cima da mesa para lhe suceder: Sergey Ryabkov, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Dmitry Peskov, o porta-voz do Kremlin, ou então, Kirill Dmitriev, o enviado especial com quem o chefe da diplomacia russo se tem incompatibilizado. Por agora, nada faz prever a saída do experiente diplomata pragmático que defende a Rússia de Vladimir Putin acima de tudo. Num regime que privilegia a lealdade, o chefe de Estado prefere manter alguém que até o pode irritar de vez em quando — mas que sabe que lhe é fiel.