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[texto originalmente publicado a 6 de julho de 2019, atualizado a propósito da morte de Carlos do Carmo, a 1 de janeiro de 2021]

Se bem conheço Carlos do Carmo, quando fez 80 anos ficou feliz – não pelo aniversário, não por editar Oitenta, a compilação de quatro discos com que assinalou o aniversário, mas porque, com o disco editado, não teve reouvir os discos antigos. Parece um fait-divers, uma trivia inofensiva, mas é mais que isso: um traço de personalidade, uma recusa em ficar preso ao passado.

Há 12 anos, quando lançou aquele que era oficialmente o primeiro best of da carreira, ele dizia-me exatamente isso, que não apreciava reouvir-se:

“Mal acabo de gravar, sinto vontade de regressar ao estúdio e emendar tudo”.

Cinco anos depois, aquando de uma monumental reedição de 16 dos seus discos de estúdio (quase uma integral), ele repetia o seu desagrado com nostalgias, mas admitia que há coisas que só nos apercebemos que fizemos quando olhamos para trás. E de que é que ele então se apercebia? Que a sua “discografia é uma exploração do caminho errado que um fadista pode levar”.

A capa de “Oitenta”, de Carlos do Carmo (Universal)

Oitenta surgiu, com inteligência, dividido em quatro partes: o primeiro disco chama-se As Canções e inclui as incursões do fadista pelo registo-canção (ou fado-canção); no segundo, Os Fados, está o Carlos do Carmo vintage, popular, que foi amado; o terceiro disco, Os Autores, homenageia os poetas, os letristas, que mais que escreverem para ele foram amigos, cúmplices e faziam parte da sua pandilha, noite fora, no seu apartamento à avenida de Roma; o quarto e último, denominado Os Compositores, reflete, sobretudo, sobre quem compunha para ele.

Quando um homem tem uma carreira tão grande, escolher um best of torna-se simultaneamente um exercício de tortura e um prazer: tortura porque se deixa muita coisa de fora; prazer porque, bom, alguma vez houve alguém com uma voz como a de Carlos do Carmo? Amália não entra para estas contas – era um fenómeno natural aproximado de tsunami; Carmo é outra coisa: uma espécie de seda, uma forma alienígena de doce – falar em charme, no seu caso, é quase ofensivo: não é Carlos do Carmo que será para sempre charmoso, o charme é que gostaria de ser Carlos do Carmo.

As Canções e Os Compositores

Olhem bem para o alinhamento do primeiro disco: abre com “Lisboa, Menina e Moça”, segue com “Bairro Alto” e “Estrela da Tarde”, à quarta canção chega a “Os Putos”, vai a “Nasceu Assim, Cresceu Assim” e de seguida estamos em “Cacilheiro” – e ainda só passaram seis canções. Duvido que haja mais alguém capaz de abrir um best of com seis temas assim, quanto mais preencher quatro discos.

[“Estrela da Tarde”:]

As Canções centra-se, sobretudo, na década de 70, embora ocasionalmente inclua temas mais recentes; e deixa de fora temas que poderiam – e, arrisco, deveriam – estar aqui, como “Gaivota”, que acaba por abrir o quarto disco (Os Compositores), ficando como exemplo do talento de Alain Oulman.

É impressionante o crooner que ali está, dançando por entre as cordas: está ali o cuidado de dicção que veio do fado, bem como as subidas e acentuações desse género, mas depois há um enlevo que arredonda cada vocábulo e que não parece possível ao comum dos humanos. Ao ponto de Marceneiro, ao ouvir pela primeira vez “Gaivota”, ter ido ter com Carlos do Carmo para lhe dizer “Olha, rapaz, gostei e se calhar gravo um dia destes com uma cortina de violinos”. Isto não surpreendeu Carmo: “Os genuínos, os melhores, não tinham a mania de ser puristas, não tinham problemas com novidades”.

A recusa do purismo está bem patente tanto no primeiro como no quarto disco, que (no fundo) andam na fronteira do fado e da canção. Mas sempre foi assim: quando Carlos do Carmo surgiu, no final da década de 1960, os seus primeiros singles já refletiam o seu amor tanto pelo fado como pela canção e mesmo esse híbrido chamado fado-canção. E assim continuou: o “Fado Moliceiro”, de 1983, escrito pelo genial Carlos Paredes, é um fado? Na guitarra de Paredes até sim – mas os arranjos de oboé e de cordas de José Mário Branco dizem que não. Pequena trivia: quando Carmo foi ter com Paredes para lhe pedir um fado, Paredes quis recusar, dizendo:

“Mas eu não quero estragar-lhe a carreira”.

Carmo lá o convenceu, Paredes escreveu um tema (espantoso) e, no fim, pediu desculpa, deixando Carmo atónito. (Era um poço de humildade, Paredes.)

É pena que histórias como esta (e outras) não estejam incluídas no libreto, que ao menos recupera as fichas técnicas; é que quando se cria um disco como Os Compositores está-se a fazer duas coisas: primeiro a percorrer a história da composição em Portugal na segunda metade do século XX; mas também se está a recuperar as amizades de Carlos do Carmo, as pessoas que fizeram parte do seu círculo – e este é um homem que além da sua parceria e amizade com Ary foi muito amigo de Adriano Correia de Oliveira, foi arranjado por Zé Mário Branco, era amigo do Zeca, dava-se com Sérgio Godinho e gravou temas dele, cantou poemas de Vasco Graça Moura.

Por exemplo: o primeiro disco, As Canções, centra-se sobretudo na década de 1970, que foi uma década extraordinária para Carlos do Carmo. Mas não temos uma linha que seja a lembrar-nos que é filho de Lucília do Carmo, extraordinária fadista, que cresceu no Faia, a casa de fados que os pais ergueram e onde começou a atuar, até que, em 1964, resolveu dedicar-se à carreira de fadista.

Um traço fundamental de Carlos do Carmo: a sua diversidade. Ele vai ao tango, à canção de charme, ao fado-canção e procura unir, por todos os meios, a guitarra portuguesa e a orquestra de violinos

Lucília era “severa” com o talento do filho, obrigava-o a reconhecer os erros, a polir a voz; Lucília era toda víscera – Carlos é um dançarino, subtil, técnico e delicado, que fugiu ao fado rasca, que cultivou as palavras e a inovação. Quando chegamos a “Canoas do Tejo”, nono tema do primeiro disco, estamos a ouvir uma canção extraordinária orquestrada por Dennis Farnon, irmão de Robert Farnon, diretor musical de Tony Bennett. Não há guitarra portuguesa, nem viola, nem baixo. Com isso, Carmo trouxe imensa gente para o fado, que na altura ainda era visto como baixa cultura, música de gente rasca.

As Canções e Os Compositores acabam por funcionar como espelho um do outro, no sentido em que revelam um traço fundamental de Carlos do Carmo: a sua diversidade. Ele vai ao tango, à canção de charme, ao fado-canção e procura unir, por todos os meios, a guitarra portuguesa e a orquestra de violinos. É espantoso ouvir hoje uma canção como “Retalhos” (no disco 4), escrita por Tozé Brito, para a série “Retalhos da Vida de Um Médico”, que soa muito melhor do que a minha memória da canção; ou encontrar, no mesmo disco, essa maravilha que é “Três Sílabas de Sal”, composta por Ivan Lins, e pensar o quão diferentes estas canções são entre si.

[“Três Sílabas de Sal”:]

Os Fados

Sendo Carlos do Carmo um fadista, seria de esperar que o disco 3, Os Fados, fosse o disco mais “óbvio”; mas num homem tão dado a experimentar, uma boa parte dos seus êxitos acabaram por ser colocados em outros discos.

Mas “Fados”, aqui, não se refere a temas de fado que se tornaram êxitos, antes a fados específicos, que acabaram a fazer parte do cânone: o fado Loucura (em “Loucura”, uma das sua primeiras gravações, de 1964), o fado das Horas (em “Menor-Maior”), o fado CUF (em “Memória de Anarda”), por aí fora. O que significa que não encontramos aqui só fados puros – antes que os temas se baseiam em fados clássicos. Por resta altura, já deve ser claro: não há nada puro na carreira de Carlos do Carmo.

Os mais antigos fados foram gravados em 1967, os mais recentes em 2007 – temos à disposição 40 anos de Carlos do Carmo a sapatear por entre fados clássicos e é aqui que se nota que ele cresceu numa casa de fados: interessa menos a colocação de voz mas antes o sainete com que ele brinca com as palavras, como um ginasta que possui músculos que os outros humanos desconhecem.

Uma das mais valias de Os Fados é a inclusão de temas da década de 1980, época complicada para Carlos do Carmo, em que se sentiu “discriminado por razões políticas”. Na prática, e a título de exemplo, esteve sem cantar na RTP de 1977 a 1982 – isto numa época em que a televisão fazia toda a diferença.

Há fados espantosos da época imediatamente a seguir: “Menor-Maior”, mais uma colaboração com Ary, é um achado (e tem um lindo bordão de viola baixo); “À Memória de Anarda” é outro exemplo da imensa pinta deste homem – e o mesmo se podia dizer de “A Maria”; “Aquela Praia Ignorada” é uma pérola.

[“Aquela Praia Ignorada”:]

Os Autores

Uma figura é quase omnipresente ao longo dos quatro discos (isto é: com a exceção de Carlos do Carmo) e essa figura é a de Ary. E para tal não era preciso mais nada, bastava o trabalho que os dois levaram a cabo em Um Homem na Cidade, a obra-prima absoluta de Carlos do Carmo, de 1977. Faz todo o sentido que Os Autores, o terceiro disco, comece com “Um Homem na Cidade”, a canção que abria o disco homónimo.

O tempo muda tudo: em 1977, Um Homem Na Cidade foi mal visto, como mais uma incursão de Carlos do Carmo pelo universo não-fadista. Hoje é claramente uma obra-maior, de um humanismo tremendo, um raro documento da viragem para a liberdade – um documento que se transformou num monumento.

Se há coisa que esta quádrupla compilação de aniversário demonstra é que Carlos do Carmo nunca teve medo de se inventar de novo

Mas podia não ter sido assim – podia ter sido um panfleto. Ary estava mais próximo do canto de intervenção que Carlos do Carmo, que nunca deixou de se ver, antes de mais, como um fadista. Anos mais tarde, o fadista contou-me que se Um Homem na Cidade “fosse escrito como o Ary queria escrever muitos dos versos, você hoje não o suportava. O Ary, muito inteligente, percebeu como é que eu queria cantar o fado. Um Homem na Cidade é o símbolo do fado em liberdade, mas não é o símbolo do fado panfletário”.

Devido à curiosa divisão temática da compilação os temas de Um Homem na Cidade estão espalhados: “O Cacilheiro”, o “Fado do Campo Grande” e o “Amarelo da Carris” estão no disco 1, “O Homem das Castanhas” está no disco 4. De Ary, no disco 3, e apesar de ter sido o mais emblemático letrista de Carlos do Carmo, está apenas “Um Homem na Cidade” (a canção), o que acaba por ser pena, mas deve ter sido a única forma de incluir o maior número de colaboradores possível. (Cada disco tem 20 faixas, para um total de 80 temas, coincidindo assim com o aniversário.)

[“Um Homem na Cidade”:]

E se calhar muita gente não sabia que Saramago escreveu para Carlos do Carmo – embora eu espere que toda a gente conheça outras colaboraçãos de Carmo, como a que assinou com Manuel Alegre para “Flor de Verde Pinho”, um tema tremendo, em que Carmo está à altura do épico que o poema de Alegre pede.

Não tenho o mesmo apreço por “Ferro Velho”, de 1973, tema com letra de Alexandre O’Neill e em que o ataque de Carlos do Carmo às palavras lembra Jacques Brel – uma canção que está a milhas de distância da “Júlia Florista”, de 1970, escrita por Joaquim Pimentel. E nenhuma delas tem qualquer similaridade com “Aprendamos o Rito”, escrita por José Saramago, e datada de 1970 (um ótimo fado).

À décima faixa surge um pequeno prodígio, “Teu Nome Lisboa”, de 1990, escrita por Manuel de Freitas e composta por esse gigante que é José Mário Branco. O fado, referindo-se a Lisboa, termina assim:

“Engrandecem-te o passado
Fazem trovas ao teu povo
Vão repetindo o teu fado
Mas não te inventam de novo”

Se há coisa que esta quádrupla compilação de aniversário demonstra é que Carlos do Carmo nunca teve medo de se inventar de novo.