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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Carrilho da Graça: "Não acho que Lisboa esteja a sofrer uma transformação dramática" /premium

O acervo de Carrilho da Graça passa a fazer parte da Casa da Arquitetura. Em entrevista, fala das mudanças na capital, da necessidade de transformações na Ordem e dos problemas dos concursos públicos.

Apanhámos Carrilho da Graça quase de malas aviadas para outro atelier. É uma despedida da casa onde esteve mais de trinta anos, onde nasceram projetos como o Pavilhão do Conhecimento, a Escola Superior de Comunicação Social, o núcleo arqueológico do Castelo de São Jorge ou o mais recente Terminal dos Cruzeiros de Lisboa. O espaço que até agora era o atelier do arquiteto ficará para outro inquilino, porque o prédio tem um novo dono. Apesar de ser “vítima” da procura incessante e desenfreada por imóveis em Lisboa, João Luís Carrilho da Graça, 67 anos, encara todo o processo com naturalidade. Pelo menos com uma calma contrária à de muitos lisboetas. Tal como o facto de ver o seu acervo com mais de 40 anos de atividade profissional ser incorporado no Arquivo da Casa da Arquitetura, este sábado, 15 de fevereiro.

Carrilho da Graça continua “muito ocupado com uma vida frenética”, mas falou com o Observador sobre tudo: projetos que ficaram na gaveta, a Lisboa de Medina — que vê com muito bons olhos, não tivesse sido também ele seu apoiante — e até a relação entre engenheiros e arquitetos, que “é razoável”. A única coisa menos positiva é a falta de comunicação do próprio meio para o exterior, culpa da Ordem dos Arquitetos, diz, e dos próprios profissionais da área. “As pessoas pensam que isto é uma vida glamourosa, mas não é”, afirma. Fez carreira na obra pública, onde se pode dizer que o edifício ajuda à construção de uma memória coletiva. Mas não descarta vir a construir cenários “efémeros e rápidos” em cinema ou teatro. Se o convidarem, claro.

Um arquiteto depositar o acervo é como um cozinheiro revelar os segredos das suas receitas?
Não. Vou depositar o acervo porque continuo hiperativo e vou muitas vezes precisar das coisas que estão lá. A vantagem é que os papéis, as fotografias, as maquetes vão ser muito bem guardadas, fotografadas e conservadas. Isso vai permitir que os investigadores vão ver esse material, quer presencialmente ou digitalmente, coisa que não acontece em quase mais lado nenhum do mundo.

É como aceder digitalmente a uma tese de mestrado ou doutoramento.
Exatamente. Quanto à pergunta… não há assim muitos segredos em arquitetura porque, no fundo, entregamos o projeto ao dono da obra, os desenhos que entregamos podem ser divulgados, portanto não há assim grandes segredos. Até porque as obras, quando chega a esta altura, já estão bastante divulgadas.

Esta pergunta já foi feita a outros arquitetos: preferia que este trabalho de arquivo estivesse distribuído pelo país ou está bem como está, numa única instituição?
A tendência será para que a maior parte das coisas sejam ali conservadas. Depois temos um arquivo, mais ou menos estatal, que é o Forte de Sacavém, mas onde não acontece grande coisa. Não promove exposições, não há tanta consequência como na Casa da Arquitetura. E há a Gulbenkian, que é muito aberta e interessada. Mas tendencialmente parece-me que a Casa da Arquitetura vai conseguir confluir todos esses acervos.

O terminal de cruzeiros de Lisboa, projetado por Carrilho da Graça (foto: ©fg+sg)

Disse que não tem por hábito olhar para o trabalho que já fez, mas que tem tido surpresas.
Nunca olhei muito para trás, nunca fiz um balanço do que tenho feito nestes anos. Tinha um sistema de arquivo, que agora vai desaparecer, uns tubos onde o pó não entra, em que os desenhos estão lá fechados, num arquivo aqui no atelier. Só que não é muito prático nem muito normal. E durante trinta ou mais anos não olhei para aqueles desenhos, fotografias ou maquetes. E tenho muitas fotografias analógicas, às quais nunca mais voltei, e agora que estou a voltar a vê-las apercebi-me que, por exemplo, o tipo de desenhos que fazia não é muito diferente dos de hoje. As técnicas, os materiais, continuam a ser os mesmos. E estão em relativo bom estado.

Então não é daquelas pessoas que se assusta quando lê “mais de 40 anos de trabalhos”, quase como uma espécie de homenagem?
Sim, assusto-me. Mas não há nada a fazer. Só que nunca pensei que estaria a construir uma espécie de museu.

Há algum projeto que se arrependa de ter deixado na gaveta?
Arrepender não posso, porque quando não vai para a frente não é culpa minha. Mas de ter assim pena acho que não tenho de muitos. Lembro-me de um que gostava imenso, que é o Museu Ibérico de Arte e Arqueologia em Abrantes. Acabou por não avançar porque não havia dinheiro e existia uma certa apreensão das pessoas que moravam naquela zona, por acharem que o projeto era demasiado arrojado. Fiquei com pena, mas está feito, publicado, pode-se sempre imaginar como poderia ser. Tenho outro, que espero que se venha a fazer: um anfiteatro exterior no Castelo de São Jorge, em madeira reversível e não intrusivo, ao pé da intervenção que fiz na Praça Nova. Acho que vai ser muito interessante e tenho esperança que se construa. Tem uma vista maravilhosa. Até porque esse espaço não está suficientemente aproveitado.

"A autonomia que a Administração Pública tem em contratar um consultor é altíssima, para contratar um arquiteto, e a respetiva equipa, só pode ir até aos vinte mil euros. E raramente acontece. Depois se o contratar não o pode voltar a contratar. Com vinte mil euros é muito difícil fazer o que quer que seja. É uma loucura."

O que me está a dizer vai em conta um pouco com o que Manuel Aires Mateus diz: “A arquitetura é uma arte inacabada”.
Acho interessante essa frase, não sei se concordo completamente… Não costumo dizer que a arquitetura é uma arte, os arquitetos dizem isso para enaltecer a sua atividade. Tive um debate com um amigo, o Delfim Sardo, que também não concorda com isso. Diz que a arte é uma atividade codificada que tem todo um aparato crítico, de validação, de reflexões, que é próprio da arte. A arquitetura é paralela. Não quer dizer que seja uma atividade menos interessante, mas não tem de se estar a validar como referência à hipótese de ser arte. Se se dissesse que a arquitetura é uma prática inacabada, aí já concordava. Mas por exemplo, na arquitetura paisagística, aí é que se pode dizer mesmo que é uma atividade inacabada, no sentido em que há jardins que têm séculos, pensados por um arquiteto de uma certa maneira, e passados 200 anos o jardim está completamente diferente e o arquiteto nunca chegou a vê-lo. E às vezes há segundas intervenções. O que torna a arquitetura inacabada é o facto de ela estar completa só com a vida, com as pessoas que lhe vão dar sentido. E vão alterar permanentemente a equação entre o estável e rígido e a vida e a maneira como os edifícios são ocupados.

Como é que um arquiteto olha para a ideia da passagem fugaz do público pelas obras? Por exemplo, o Terminal dos Cruzeiros, feito por si. Vemos ali milhares de turistas que provavelmente nem vão parar para olhar para o edifício que ajudou a construir. E que exigiu um estudo aprofundado da história, da arqueologia da cidade e até de uma preocupação social com o espaço.
Eu acho que é sempre notado mesmo que não seja muito consciente. Há uma presença na memória que pode vir antes da experiência. Quando vamos a Nova Iorque, na Quinta Avenida, já “a vimos” em filmes. Parece que já não a estamos a ver pela primeira vez. Na arquitetura também é um pouco assim. Imagine que a maioria dos turistas que chega dos cruzeiros nem sabe o que os espera, mas ficam com uma sensação qualquer que pode, eventualmente, ser reavivada por uma fotografia, que os faça tentar perceber que raio de edifício era aquele por onde passaram. Normalmente, os arquitetos olham para os edifícios de várias maneiras durante o projeto e a obra. Não é só do ponto de vista do utilizador. Tenho de ter uma consciência difusa, mas atenta, a tudo o que é possível ver, sentir, cheirar, tatear, em todos os aspetos.

A ponte pedestre sobre a ribeira da Carpinteira, na Covilhã (foto: ©fg+sg)

Já falou várias vezes da falta de comunicação entre os arquitetos, de falarem uns com os outros. Volto a pegar numa frase de outro arquiteto, Gonçalo Byrne, que numa entrevista recente disse: “Os arquitetos em Portugal são, oficialmente, tratados como uma classe de que é preciso desconfiar”. O que pensa disto, enquanto arquiteto que trabalha muito com o Estado?
Acho que há uma certa desconfiança, mas não sei bem o que é que o meu colega queria dizer. Tenho um sentimento parecido neste sentido: para conseguirmos fazer um edifício interessante precisamos de meios e, portanto, têm de estar presentes e disponíveis para atingirmos o melhor resultado. Nas obras públicas, grande parte daquilo que fiz passou por um concurso público, um sistema onde raramente há convites ou pré-seleção. Há um júri, onde já participei muitas vezes. E gosto mais de participar em concursos do que ser júri. Há uma coisa que a maioria das pessoas pode não saber, mas que acho interessante: normalmente o júri, que é maioritariamente constituído por arquitetos, decide em consenso. Nos que participei, sempre foi assim. E o júri tem a preocupação de escolher a obra mais interessante para o cliente, mesmo que ache que o projeto que fica em segundo lugar é mais interessante do ponto de vista arquitetónico. E já fiquei muitas vezes em segundo, o que me consola.

Mas então dentro do meio interno da arquitetura há confiança. Para fora é que não.
Há uma cultura comum aos arquitetos que, às vezes, não é fácil de comunicar. Por exemplo, da mesma maneira que há artistas que gostam de outros artistas e que os valorizam, apesar de não haver tanta proximidade com o público, também há arquitetos que gostam dos seus pares. E isso ajuda. Para mim é sempre uma surpresa quando vejo o tal consenso nos júris.

Ainda outra citação de Gonçalo Byrne: “O termo ‘qualidade’ foi posto no lixo pelo Estado”. Concorda?
Infelizmente não é só pelo Estado. É algo difícil de compreender, mas acho que tem uma certa razão. A sociedade tem cada vez mais fascínio pela arquitetura, há cada vez mais arquitetos a trabalhar, no entanto, a questão da qualidade da arquitetura não é muito apreciada. Vou dar-lhe um exemplo: sabe como é que o Estado ou uma câmara pode contratar um arquiteto? Há duas hipóteses.

Há um concurso por preços, que é o desprezo absoluto pela qualidade. Ou seja, contrata-se o arquiteto mais barato, que pode ser recém formado, incompetente, ou o Siza Vieira que é aclamado por todo o mundo. E isto é uma coisa degradante. Felizmente fiz poucos. Depois há concursos públicos onde podem estar a concorrer inúmeros arquitetos. São pedidas maquetes, imagens a computador, uma produção que custa imenso dinheiro. Hoje entrego um concurso em França e a “indemnização” desse concurso são 250 mil euros. Mas, por exemplo, estou a fazer um concurso em Portugal, totalmente aberto, em que não recebemos nada. E mesmo assim o dono da obra e o júri qualificado olha para este manancial de trabalho com uma certa indiferença. Olhe para o Campo das Cebolas que eu fiz, gostei e resultou. Só que na altura, o colega que ficou em segundo lugar disse-me que ficou muito contente por eu ter ganho, porque não conseguia fazer aquele trabalho com aqueles honorários. Por isso é que o Gonçalo diz que os arquitetos não são muito acarinhados, porque há quem ache que somos uns privilegiados. Pensam que é uma vida glamourosa. E o que ele diz é que não há esse acarinhar por parte do Estado em criar condições  para que as obras tenham qualidade. Porque os arquitetos não conseguem fazer as obras sozinhos.

"Há um concurso por preços, que é o desprezo absoluto pela qualidade. Ou seja, contrata-se o arquiteto mais barato, que pode ser recém formado, incompetente, ou o Siza Vieira que é aclamado por todo o mundo. E isto é uma coisa degradante."

É porque o Estado tem muita pressa em fazer obra?
Não. É porque há uma falha cultural enorme da qual os principais culpados são os arquitetos e a Ordem dos Arquitetos, que não consegue passar esta mensagem. Outra questão: como é que o governo contrata consultores? São contratados diretamente porque sim. Não há concurso. Com o arquiteto? Nunca. É um sistema quase persecutório neste sentido: a autonomia que a Administração Pública tem em contratar um consultor é altíssima, para contratar um arquiteto, e a respetiva equipa, só pode ir até aos vinte mil euros. E raramente acontece. Depois se o contratar não o pode voltar a contratar. Com vinte mil euros é muito difícil fazer o que quer que seja. É uma loucura.

Falta mais força à Ordem?
Não é tanto força. Falta explicar e divulgar esta incoerência.

Falta uma comunicação global da própria profissão.
Acho que sim. A Ordem não consegue comunicar este tipo de coisas.

E em relação ao reconhecimento dos arquitetos. Vivem um pouco como os realizadores portugueses? Lá fora são estrelas, cá dentro nem por isso? Se perguntar a um português se conhece um arquiteto, talvez diga Souto de Moura ou Siza Vieira…
Não, só acho que há uma certa falta de atenção em relação ao trabalho do arquiteto. Quando se ouve dizer que um arquiteto português ganhou um prémio num país respeitado, as pessoas dizem: “Deve ser bom”. E isso tem uma certa influência na tal confiança que as pessoas têm pela arquitetura. Já ganhei muitos concursos internacionais, vários prémios, mas quer eu, quer a maioria dos colegas com quem estou em contacto, preferimos trabalhar em Portugal. Há uma relação mais direta, das pessoas, com a legislação, os materiais e os métodos de trabalho. É muito mais fácil atingir bons resultados aqui. Embora tenhamos necessidade de fazer concursos lá fora, mas na realidade o que gostávamos era de ter trabalho cá. Normalmente, quando entrevistam um arquiteto mais velho, na casa dos 70  e tal [Carrilho da Graça tem 65], costumam perguntar-lhe o que é ele gostaria de fazer agora. E eu já li uma resposta do tipo: “Fazer uma casa pequena para um amigo, perto do meu atelier”. Porquê? Porque esta ideia de fazer uma casa para nós ou outra pessoa, é onde se consegue revelar  a arquitetura de uma forma mais direta.

"Estou aqui como inquilino, a renda é bastante baixa, agradeço a sorte que tive. E agora tenho de me ir embora. Isto é mais de ser humano do que de ser arquiteto"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O próprio Carrilho da Graça estaria a construir uma casa sua, aqui perto.
Estou, está agora em obras. É a primeira vez que faço. Reconstruí uma casa de férias em Tavira, mas assim é a primeira vez.

E é-se mais exigente quando a obra é para o autor?
Sim, talvez. Tenho uma cliente difícil que é a minha mulher. Mas é exigente e não é. Divido-me em dois papéis: o de arquiteto e de dono da obra. E essa conciliação é dura. Parece que facilita mas não facilita assim tanto.

Falemos de Lisboa, que não é a sua terra de nascença, mas já é praticamente alfacinha…
Pois, já estou há 50 anos em Lisboa. Vim de Portalegre para estudar arquitetura com 17 anos.

Disse algumas vezes que não gosta de mandar edifícios abaixo e trabalhar só as fachadas. Fiquei a saber pela sua assistente que vai ter de sair deste atelier, porque o prédio foi comprado. Como é que um arquiteto que trabalha a obra pública, para “ajudar a cidade”, agora está a sofrer as consequências do que se está a passar na própria cidade?
Estou aqui há 30 e tal anos. Até há pouco tempo tinha vista para o jardim de Santos e o rio, era idílico. Depois um prédio foi construído e isso deixou-me triste. Estou aqui como inquilino, a renda é bastante baixa, agradeço a sorte que tive, com estes espaços maravilhosos, gosto imenso deste andar. E agora tenho de me ir embora. Isto é mais de ser humano do que de ser arquiteto. Tenho de ir para outro sítio, inventar outra solução.

"Estou aqui há 30 e tal anos. Até há pouco tempo tinha vista para o jardim de Santos e o rio, era idílico. Depois um prédio foi construído e isso deixou-me triste. Estou aqui como inquilino, a renda é bastante baixa, agradeço a sorte que tive, com estes espaços maravilhosos, gosto imenso deste andar. E agora tenho de me ir embora. Isto é mais de ser humano do que de ser arquiteto. Tenho de ir para outro sítio, inventar outra solução".

O que eu queria perceber é mais esta ideia de haver muita compra de edifícios por parte de clientes estrangeiros, que depois resolvem demolir o edifício, perdendo-se assim, se quiser, uma parte do património da cidade.
São os refugiados fiscais, não sei se sabia.

Sim, um termo original. No texto “Revelação em sentido fotográfico” da exposição que fez em 2015 no CCB sobre Lisboa, disse que “é através do conhecimento que a arquitetura se constrói”.
Disse assim mesmo?

Sim.
Acho que é um processo de conhecimento.

Mas não acha que se está a perder uma identidade e que daqui a uns anos os arquitetos não vão “conhecer” a própria cidade?
Não, não acho. Há uma planta de Lisboa de princípios do século XIX de que gosto imenso, que tem uma topografia muito pronunciada. E como era de 1811, e o terramoto foi sessenta anos antes, a sensação que se tem é que a cidade ainda estava sob a influência daquela catástrofe. Depois a cidade alterou-se completamente, primeiro ruiu com o terramoto, depois ardeu, depois o maremoto e, a seguir, sofreu uma maravilhosa reconstrução do Marquês de Pombal. O centro da cidade mudou completamente. Vemos a cidade como algo efémero, mas a topografia mantém-se sempre. E gosto muito como a cidade de Lisboa tem uma topografia quase barroca, muito ondulada, mas que influencia muito a forma da cidade. Vamos numa rua mais antiga ou moderna e de repente vemos o rio. Parece encenado. A forma deste território, o que está construído em geral, das ruas às árvores, é muito permanente. Até mais do que aqueles desgostos circunstanciais que temos. Lembro-me de uma vez descer a rua que vem do Rato até ao Cais do Sodré, e nessa altura tinham começado a aparecer lojas bastante banais para turistas e outras mais locais a fechar, como a Casa Varela. E depois chegava ao Terreiro do Paço e via coisas piores e fiquei desgostoso. Mas acho que é uma coisa relativamente circunstancial. Pode ser lido naquele momento mas depois a vida continua. Reconstrói-se a cidade de uma forma que não conseguimos dizer que é mais negativa do que era há dez, quinze anos.

A intervenção no Castelo de São Jorge, em Lisboa (foto: ©fg+sg)

Então consegue sempre ver a cidade mais à frente, de forma bastante mais positiva do que muitos lisboetas.
Sim, do lisboeta que fica agarrado a coisas mais pequenas como a sardinha que “já não é o que era”. Tento ultrapassar esse tipo de reflexões mais românticas. A visão de quem está num avião a chegar a Lisboa é que a cidade é completamente maravilhosa e que é quase impossível destruí-la. E não têm acontecido muitos acidentes. Em linhas gerais, a cidade conseguiu renovar-se e tem tido alguma aceitação.

Não fica com pena que alguns edifícios, da Câmara Municipal de Lisboa ou do Estado, sejam mandados abaixo? Não se perde ali parte da memória?
Não acho que isso esteja a acontecer. Acho que se os edifícios são bons, devem ser restaurados para que continuem com as características que tinham, com pequenas alterações. Há edifícios abandonados, apodrecem e só se consegue demolir. Nessa altura, tenta-se manter a memória através das fachadas, às vezes resulta, mas acho delicado. Como receita acho muito chato. Há muitos anos fez-se isso na Avenida da Liberdade, deixou-se só a fachada e depois lá dentro está assim uma coisa meio fantasmagórica. O edifício é todo novo por dentro mas depois tem ali uma máscara de antiguidade que não tem interesse nenhum porque se não está lá o edifício de antigamente,  mais valia que quem fizesse o edifício “inventasse” uma nova presença, se for possível.

"Quando se começou a limitar a circulação na 24 de Julho, estava sempre cheia, agora tem menos faixas e não há problemas. As pessoas criticam, procuram alternativas e depois adaptam-se."

No livro Deixem Passar o Homem Invisível, de Rui Cardoso Martins, um cego e uma criança acabam na parte subterrânea de uma Lisboa imunda e complexa, que está escondida por debaixo de uma Lisboa muito melhor. Não acha que por Lisboa estar na moda, esconde alguns problemas?
As cidades estão sempre em transformação. E às vezes são dramáticas, temos exemplos disso no mundo. Em Lisboa não tenho essa sensação e olhe que sou muito direto. Não acho que Lisboa esteja a sofrer uma transformação dramática.

O tráfego automóvel também será interessante discutir com um arquiteto. Até por causa desta questão da limitação de automóveis proposta por Fernando Medina [que Carrilho da Graça apoiou em 2017] numa cidade com uma rede de transportes algo deficitária. O arquiteto dá sempre o exemplo da Avenida 24 de Julho, que antes tinha muito tráfego e agora está muito melhor.
Eu acho que é bom proibir, mas nada deve ser feito de uma forma brusca, sem encontrar alternativas. Por exemplo, o que acontece hoje na zona do Terreiro do Paço, com a limitação dos automóveis aos domingos.

Isso é algo que desilude um lisboeta como eu, principalmente se utilizar o automóvel nessa zona.
Mas não pode. Quando se começou a limitar a circulação na 24 de Julho, estava sempre cheia, agora tem menos faixas e não há problemas. As pessoas criticam, procuram alternativas e depois adaptam-se. Uma vez, durante o funeral do ex-Presidente da República Mário Soares, fui a pé até à obra do Terminal dos Cruzeiros praticamente em 20 minutos. O que é muito bom. A cidade é muito acessível e foi sempre criada para se poder andar a pé.

Vejo-o então como um lisboeta contra-corrente.
Acha? Eu acho que os lisboetas estão a aceitar estas mudanças. Posso estar enganado, nem sequer sou político. Como também não ando muito nem de carro nem de transportes públicos… sim, houve uma reação negativa e agora há uma aceitação. Aceitam a lógica das bicicletas, a das trotinetes é mais difícil. As pessoas vão-se habituando. Qualquer dia nem sequer andamos sob rodas no chão.

O projeto que venceu o concurso para a Doca da Marinha, em Lisboa (imagem: atelier Carrilho da Graça)

Falta ainda discutir o tema da habitação nesta entrevista, algo que o arquiteto também diz faltar, até dentro do próprio meio arquitetónico.
Tenho pena que esteja a ser lenta esta ideia da promoção pública de habitação. Há muitos concursos mas não estão a avançar muito. Mas é fundamental, independentemente dos efeitos sociais positivos, pode ser um bom negócio para o Estado e para a Câmara. No Poço dos Negros, há uns anos, era mais ou menos desastroso. Hoje está cheio de pequenos cafés, lojas e barbeiros. Era coisa que não se podia imaginar. Há vinte anos achava-se que o centro de Lisboa ia ficar ao abandono, uma zona esterilizada. De repente, redescobriu-se que a cidade é lindíssima e que tudo pode ser utilizado de forma intensa e interessante. Há sinais positivos e não vejo assim tanta oposição.

Nova provocação: os engenheiros e os arquitetos dão-se bem?
Razovelmente [ri-se]. Tenho imensos amigos engenheiros e trabalho com muitos. Não há oposição. Tenho pena que se tenham separado tanto as profissões. Há um século havia engenheiros, arquitetos e construtores, mas havia um conhecimento comum. Hoje em dia, um engenheiro de estruturas faz uma em betão, constrói-se, acabou o seu trabalho. Depois metem-se as instalações elétricas, água e esgotos, por aí fora. Fazem-se acabamentos. Nessa fase é só quase o arquiteto que intervém. Esta lógica de se separar em várias especialidades faz com que não haja um domínio completo a partir de um conceito de tudo o que se vai fazer no edifício. Os engenheiros têm uma relação menos intrínseca com o edifício.

"Há uns dias houve inundações no Mondego e parecia que tudo estava correr mal. E a notícia era: 'A arquitetura da solução...'. E aquilo nitidamente era um problema de engenharia. Quando a coisa corre mal, a culpa é da arquitetura, se correr bem é da grande qualidade da engenharia portuguesa que dá cartas lá fora."

O Estado dá mais importância ao papel do engenheiro?
Não. Por exemplo, o engenheiro Duarte Pacheco foi uma figura muito importante, com um impacto enorme no meio, e que ainda hoje se sente. Tenho ideia que os engenheiros são mais respeitados aqui do que por exemplo em França, Inglaterra ou Espanha. Há uns dias houve inundações no Mondego e parecia que tudo estava correr mal. E a notícia era: “A arquitetura da solução…”. E aquilo nitidamente era um problema de engenharia. Quando a coisa corre mal, a culpa é da arquitetura, se correr bem é da grande qualidade da engenharia portuguesa que dá cartas lá fora.

E o papel do arquiteto é um pouco tentar embelezar um mundo sempre em mutação constante. Ou em obras constantes, no caso de Portugal, mais especificamente de Lisboa.
Os arquitetos quando vão estudar é porque gostam da área, e depois sentem uma certa frustração porque quanto mais se gosta de uma coisa e não se consegue atingir, mais desagradável é. Depois as obras levam muito tempo e nem sempre são como queremos.

As obras não o incomodam?
Não, não acho muito grave, desde que esteja tudo acautelado. Incomoda-me outra coisa. Uma vez fui ao teatro Romano em Lisboa há vinte anos, quando estava a ser explorado e agora li uns artigos no jornal em que houve uma alteração qualquer. Disse à minha mulher que nunca tinha visto bem o teatro Romano. Como não vi bem outras obras. Porque a vida é tão frenética que, muitas vezes, não temos tempo. Costumo dizer, na brincadeira, que um amigo meu estrangeiro me disse que a cidade era estrangeira, porque mal consigo vê-la. Olhe, por exemplo, nunca fui ao Oceanário.

O Pavilhão do Conhecimento, no Parque das Nações (foto: ©fg+sg)

E está tão próximo de outra obra sua, o Pavilhão do Conhecimento.
Pois, mas o que quer que lhe diga? Nunca lá entrei.

Talvez quando se reformar.
Não está nos meus planos para já, mas é possível que lá entre nessa altura, sim. Tenho imensas coisas que adorava ver, em Portugal e noutras partes do mundo. Ser arquiteto é tão absorvente, uma coisa terrível.

As suas netas é que querem ser suas sócias.
Há uma particularmente que quer ser. No outro dia a minha mulher perguntou-lhe quando é que ela ia trabalhar comigo. Disse que só ia quando não tivesse mais nada para fazer. Já os meus filhos nunca quiseram, porque me viam a trabalhar imenso e não achavam a profissão muito charmosa.

E começou logo a trabalhar mal entrou no curso de Belas Artes.
Precisava de ganhar dinheiro. Fui eu que decidi, não os meus pais. E a escola não era muito interessante, sobretudo até ao 25 de Abril, depois mudou um pouco. E grande parte dos meus colegas foram para outras áreas culturais, havia assim um pouco de desinteresse pela arquitetura. Depois veio a revolução e isso alterou-se. Só tive pena de não estudar no estrangeiro ou até trabalhar.

Se está sempre a trabalhar, tem pouco tempo para ver filmes. Viu algum dos Óscares?
Tenho tempo, tenho. Vi alguns, sim.

"Gosto muito de coisas efémeras e rápidas. Fiz uma vez um cenário para uma peça de teatro e gostei imenso. Às vezes falam-me disso e fico muito entusiasmado"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O “Parasitas”, viu? A equipa do filme construiu uma casa de raiz, gostava de saber a sua opinião.
Não, ainda não, tenho de ver. O meu filho já me disse que é maravilhoso. Mas vi o “Dor e Glória” e gostei imenso. Fiquei com a sensação de que a casa onde se passa o filme é mesmo a casa do Pedro Almodóvar. Foi construída com um sentido relativamente divertido, com marcas clássicas, que me fez lembrar até colegas meus, como o Manuel Graça Dias [morreu o ano passado] que podiam ter feito aquilo. Tanto a poética do Manuel podia ter a ver com a do Pedro Almodóvar, como a própria casa.

Gostaria de construir o cenário de um filme?
Sim, gosto muito de coisas efémeras e rápidas. Fiz uma vez um cenário para uma peça de teatro e gostei imenso. Às vezes falam-me disso e fico muito entusiasmado. Gosto de pensar num cenário para uma festa por exemplo, que nunca fiz. Assim com meios baratos e práticos. Mas desde que me convidem, aceito. Normalmente, só temos tempo para o que queremos.

Mas depois as suas obras são tudo menos efémeras.
“São muito menos efémeras do que os seus autores”, já dizia o Gonçalo Ribeiro Telles.

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