Pois bem, meus caros leitores, esta série de dez objetos invísiveis do dia-a-dia, contada pela mão da Materialista, chega ao fim com este artigo. Por aqui passaram o copo de galão, a cadeira monobloco, o elástico, o esfregão da loiça, a bolacha maria, o tupperware, a escova de dentes, a palhinha e a mola da roupa. Chegou a vez de falar daquele que provavelmente é, destes dez objetos, o mais invisível de todos: o saco de plástico. Sim, aquele saco fininho do supermercado, normalmente branco, de duas pegas, com publicidade impressa. Aquele saco que ninguém vê (ou via), que toda a gente usa (ou usava) e deita fora (ou deitava). O tempo verbal varia entre o presente e o passado dependendo de quem lê, pois hoje em dia usar sacos de plástico comuns não é visto com muito bons olhos (“não quer antes um saco de papel?”, pergunta a senhora da caixa do supermercado levantando um sobrolho, enquanto molha o dedo num pano húmido de microfibra, cor de rosa mas já meio cinzento, para despegar um saco de plástico para dar ao cliente).

O saco de plástico tem uma forma difícil de descrever. Inicialmente, na sua origem espalmada e pouco tridimensional, é um retângulo com duas orelhas. Também é chamado de t-shirt bag, provavelmente pelas semelhanças que tem com uma t-shirt branca vulgar. Mas depois, quando é usado, transforma-se. Ganha uma forma nova, que não é a forma do que contém mas uma forma adequada a conter. Essa forma, imprevisível, larga e relaxada, transforma-se novamente logo que se pega nele, com a tensão provocada pelo peso. O saco, alongado, está agarrado às nossas mãos como se lutasse pela vida, para não cair.

Pode não ser muito evidente, mas um saco de plástico tem potencial sentimental. Tony Hoagland escreveu um poema chamado “There Is No Word”, em que descreveu na perfeição a sensação de sentir as alças de um saco de plástico a esticar nas nossas mãos:

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