803kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Em dia de memórias, Alegre alertou para "desconstrução da democracia" e recebeu condecoração surpresa

Manuel Alegre apresentou as suas memórias e falou dos perigos do "racismo e xenofobia" e da "incultura do esquecimento". Marcelo condecorou-o, de surpresa, com a Grã-Cruz da Ordem de Camões.

“Deixei fluir a memória na ponta da caneta.” É assim que Manuel Alegre explica o livro de memórias que acaba de publicar — não exatamente uma autobiografia, como o próprio diz, mas antes um conjunto de recordações, impressões e relatos de décadas de vida, ditadura e democracia, publicado dias antes do 50º aniversário do 25 de Abril. E foi à boleia da proximidade da data que o socialista deixou, na apresentação desta segunda-feira, um alerta às centenas de pessoas que se juntaram para o ouvir: estes são tempos difíceis para a democracia, que vive um processo de “desconstrução”.

Num auditório cheio da Fundação Calouste Gulbenkian, e com figuras como António Ramalho Eanes, Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa, Vasco Lourenço, João Cravinho ou Alberto Martins na plateia, Alegre deixou uma nota de alarme rápida, mas assertiva: “Vivemos um tempo difícil para a democracia, não é época de euforia democrática. Estamos longe do tempo em que Samuel Huntingon considerava o 25 de Abril como o início de uma nova era democrática”.

[Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador]

“Não me precavi”. Marcelo condecora Manuel Alegre

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Este tempo, sentenciou o histórico socialista, é outro: “Este é o tempo da desconstrução da democracia dentro da própria democracia”, onde a ” extrema-direita, o racismo e a xenofobia” ocupam, agora, lugar. Por isso, e depois de se terem ouvido elogios diversos aos relatos que escreveu, muito focados no tempo da “resistência” em ditadura e da luta pela democracia, Alegre quis apelar a que se reforce “a cultura da memória contra a incultura do esquecimento”.

Os avisos enquadrados no aniversário do 25 de Abril chegaram depois de Alegre ter recordado as “conspirações” em que se viu “envolvido” para derrubar a ditadura — “podem parecer uma loucura”, mas “sem risco não há revoluções nem mudança”; e depois de ter justificado que sempre foi “impaciente”, sem se acomodar ao “pretenso bom senso”, e que cometeu erros por não se “precaver” — viver com esse “sentido de urgência” foi bom para a poesia, mas nem sempre para a política, concedeu.

Ainda assim, falou das suas memórias sem arrependimentos — “se não tivesse vivido o que vivi não teria escrito o que escrevi” — e sempre com o respetivo enquadramento histórico presente. Aliás, a razão pela qual se propôs escrever o livro, contou, foi em “primeiro lugar o prazer da escrita”; em segundo, a vontade de fazer uma “viagem por uma vida marcada pela sua circunstância histórica”, para ser “um testemunho de vida com vidas dentros”. Não o fez para se “justificar” nem deixar “um testamento”, explicou, recebendo longos aplausos de volta.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Ainda assim, depois de ouvir as intervenções de Guilherme d’Oliveira Martins, Isabel Soares e Jaime Gama sobre o livro, Alegre ainda teria uma surpresa que pareceu comovê-lo. Marcelo Rebelo de Sousa, sentado na primeira fila, levantou-se para fazer uma intervenção que não estava no programa da tarde. O Presidente da República lembrou os tempos de ambos na Assembleia Constituinte para de seguida contar a sua experiência recente numa escola em Santarém, onde foi falar com os alunos sobre o 25 de Abril e ouviu uma aluna perguntar-lhe sobre o preâmbulo da Constituição.

“É preciso ver que estamos no contexto de uma nova vaga em termos estudantis muito diversificada”, comentou logo Marcelo. Nesse dia em Santarém, explicou à estudante que Manuel Alegre, “um grande militante político contra a ditadura”, escreveu esse preâmbulo — onde se elogia a “resistência do povo português” contra o “regime fascista” e se promete abrir caminho para uma “sociedade socialista” — e quis escrevê-lo “no contexto em que era elaborada, para que ficasse recordado para o futuro”.

“Não se trata tanto de um debate sobre se é norma programática, tem sempre um valor pedagógico ao longo da história, porque a história dá muitas voltas”, avisou Marcelo. “Naquele momento tinha um determinado sentido, mas é como as normas constitucionais, a letra permanece e o sentido varia. Neste caso é um sentido pedagógico importante”. E com o mesmo sentido pedagógico disse aos estudantes que Alegre foi e é “um resistente”, um “militante”, um “poeta” e um homem com uma “característica muito peculiar, que não é frequente encontrar na poesia como na política: coragem ilimitada, política e física. O que encontramos mais é egos enormes sem coragem. E este ego tem coragem”.

Marcelo seguiu para uma análise à poesia de Alegre, defendendo que além de ser um poeta lírico é um poeta épico, e a prova está “na luta contra a ditadura”: “Nem sempre com os cânones literários adequados, não interessa. Representou para uma parte de Portugal muito significativa uma mensagem épica contra uma ditadura. E escreveu “a épica contra a épica oficial da ditadura — era uma forma de ser épico”.

Por isso, anunciou Marcelo de surpresa, decidiu condecorar Alegre com a Grã-Cruz da Ordem de Camões logo ali. O gesto comoveu Alegre, que se aproximou um instante do microfone só para reconhecer o “gesto inesperado” de Marcelo, prometendo nunca o esquecer: “Para mim é de um especialíssimo significado e de todas as outras condecorações será talvez aquela que mais fundo me toca, dada a minha veneração por Camões”.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

As recordações com Soares de um “conservador de bom gosto”

A apresentação de “Memórias Minhas” juntou amigos e companheiros de Alegre de décadas, incluindo no palco. A Guilherme d’Oliveira Martins coube recordar alguns episódios da vida de Alegre, das suas “memórias vivas e intensas” — incluindo o momento em que escreveu “Trova do vento que passa”, depois de ser “perseguido por dois pides” em Coimbra — às “recordações tocantes” ao lado de Mário Soares, incluindo os anos finais de vida deste, durante os quais ambos fizeram as pazes.

Isabel Soares também recordou a relação dos pais com Alegre e as visitas diárias a sua casa; a forma como ouviam clandestinamente a voz do socialista na rádio, a partir do seu exílio em Argel a “anunciar o que se passava neste país e mundo, sem medo e sem censura”; os agradecimentos que Alegre fazia a Soares — “o que seria da minha geração” sem a sua “atitude antifascista” –; a forma como o facto de Alegre ser um “excelente tribuno” ajudou nos grandes comícios durante o PREC; e por fim a “separação” entre os dois, quando decidiram candidatar-se à Presidência da República ao mesmo tempo (em 2006).

“Toda a família foi radicalmente contra a sua apresentação”, disse Isabel Soares sobre a decisão do pai, rematando: “Eu sempre defendi que foram ambos enganados” (e a sala riu-se). “Partilharam décadas de combates e cumplicidade. O que os uniu foi sempre mais importante do que os dividiu”. Como Alegre conta no livro, em 2013, quando Soares “adoeceu gravemente”, pôs o desentendimento de lado e, recordou Isabel Soares, “foi o primeiro a ligar com ternura e preocupação” — a amizade seria “retomada” e ainda organizaram a famosa conferência das esquerdas, na Aula Magna, juntos.

A Jaime Gama coube, segundo a análise do Presidente da República (que não resistiu a comentar rapidamente cada uma das intervenções), a intervenção mais “sofisticada” e cheia de ironia (“exagera a dizer que não é amado pela crítica, ele que tem tido tantos prémios e doutoramentos Honoris Causa”, atirou Gama).

“Com razão, [Alegre] pensa que contribuiu, e de maneira decisiva com a criação de uma cultura de resistência e de valores, para o 25 Abril. É um homem da História de Portugal“, disparou Gama, numa intervenção contra a “desconstrução da História” e com elogios a Alegre por “nunca se deixar dissolver na anti-História de Portugal” nem ceder na questão dos Descobrimentos.

Por Gama, Alegre foi retratado assim:Um progressista, mas também um conservador de bom gosto“, que gosta de “tiro, pesca, caça, mulheres” e não deixa de “revelar essa contradição, resolvida ou não resolvida”. Um “radical”, mas que está sempre norteado pela “necessidade de uma reconciliação e de paz”. E um homem que conserva o “amor ao país, à pátria, e à língua e à poesia”. A sala pareceu concordar.

 
Assine o Observador a partir de 0,18€/ dia

Não é só para chegar ao fim deste artigo:

  • Leitura sem limites, em qualquer dispositivo
  • Menos publicidade
  • Desconto na Academia Observador
  • Desconto na revista best-of
  • Newsletter exclusiva
  • Conversas com jornalistas exclusivas
  • Oferta de artigos
  • Participação nos comentários

Apoie agora o jornalismo independente

Ver planos

Oferta limitada

Apoio ao cliente | Já é assinante? Faça logout e inicie sessão na conta com a qual tem uma assinatura

Há 4 anos recusámos 90.568€ em apoio do Estado.
Em 2024, ano em que celebramos 10 anos de Observador, continuamos a preferir o seu apoio.
Em novas assinaturas e donativos desde 16 de maio
Apoiar

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

Ofereça artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.

Há 4 anos recusámos 90.568€ em apoio do Estado.
Em 2024, ano em que celebramos 10 anos de Observador, continuamos a preferir o seu apoio.
Em novas assinaturas e donativos desde 16 de maio
Apoiar
Junte-se ao Presidente da República e às personalidades do Clube dos 52 para uma celebração do 10º aniversário do Observador.
Receba um convite para este evento exclusivo, ao assinar um ano por 99€.
Limitado aos primeiros 100 lugares
Assinar agora Ver programa