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HENRIQUE CASINHAS / OBSERVADOR

HENRIQUE CASINHAS / OBSERVADOR

Frederico Morais: "O surf pode ser um desporto super frustrante" /premium

Frederico Morais é a cara do surf português. O surfista, que cresceu em Cascais mas pedia ao pai para o levar à Ericeira todas as semanas, fala sobre a infância, os estudos em aviões e as derrotas.

Em 2016, centenas de pessoas saíram de casa numa noite fria de dezembro e concentraram-se na zona das chegadas do Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa. Não ia chegar a Seleção Nacional de futebol, não ia chegar uma qualquer celebridade importante nem sequer iam chegar Luísa e Salvador Sobral depois de vencerem a Eurovisão. Ia chegar um surfista. E esse surfista tinha acabado de conseguir o que só um outro português havia conseguido. Em dezembro de 2016, Frederico Morais qualificou-se para o World Men’s Championship Tour (WCT), o campeonato mundial de surf organizado pela World Surf League (WSL). Antes dele, só Tiago Pires tinha alcançado este feito.

Menos de dois anos depois, este é ainda um dos momentos mais especiais recordado por Frederico Morais – ou Kikas, como é tratado pela família e como começou a ser carinhosamente tratado por quase todos. O surfista português de 26 anos conseguiu renovar a qualificação no ano seguinte e permanece incluído na elite do surf internacional esta temporada. O WCT inclui atualmente 37 atletas: destes 37, os 22 com melhor pontuação ao longo de todas as etapas apuram-se automaticamente para o Tour do ano seguinte; a estes, juntam-se os dez surfistas melhor classificados do World Qualifying Series (WQS), o circuito de acesso ao principal escalão, e ainda vários wild cards (atletas que se lesionaram e falharam algumas etapas da temporada e são convidados pela WSL).

O WQS inclui várias dezenas de atletas e nem todos concorrem em todas as etapas – este ano, o circuito passa três vezes por Portugal, com etapas na Praia da Física, em Santa Cruz, na Costa de Caparica e ainda na praia de Ribeira d’Ilhas, na Ericeira. Dois anos depois de receber o WSL World Junior Championship, a praia da Ericeira volta a ser uma paragem importante no mundo da modalidade: o EDP Billabong Pro Ericeira, a etapa do WQS que acontece de 24 a 30 de setembro em Ribeira d’Ilhas, é uma das cinco do circuito de qualificação que vale 10 mil pontos, o valor máximo.

Gabriel Medina, campeão mundial em 2014 e atual número 2 do ranking mundial, é um dos surfistas que vai lutar pela vitória em Ribeira d’Ilhas, para além de Italo Ferreira, número 4 mundial, e ainda Adriano de Souza, campeão mundial em 2015. A eles junta-se Frederico Morais. O surfista português regressa à praia onde o pai o levava para “pedir autógrafos” para, desta vez, ser ele a dá-los. E é exatamente na praia da Ericeira que encontramos Kikas, confortável e bem disposto, como peixe na água – ou surfista na água. A conversa, como não podia deixar de ser, foi sobre surf e desporto; mas também sobre as viagens de avião passadas a estudar, os torneios transformados em férias e as derrotas, que são “horríveis, doem imenso, custam muito e demoram a passar”.

O surfista, que é natural de Cascais, pedia ao pai para o levar a Ribeira d'Ilhas quando ainda era criança (Henrique Casinhas/Observador)

HENRIQUE CASINHAS / OBSERVADOR

A pergunta obrigatória é óbvia: como é que começaste a surfar? E, além disso, fizeste mais algum desporto que não o surf? A tua família estava muito ligada ao râguebi e ao desporto no geral.
Até começar a surfar acho que não fiz nenhum desporto. Comecei a fazer surf e a partir daí comecei também a fazer outros desportos. Fiz taekwondo, fiz kickbox, fiz ginástica acrobática e surf. Nós íamos normalmente de férias para Vilamoura com uma família amiga e o meu pai era fisioterapeuta e tratava a Dora Gomes, que era uma bodyboarder conhecida na altura. E ela deu-lhe uma prancha de bodyboard. E o meu pai começou a levar a prancha para as férias. E o filho dessa família amiga que passava férias connosco fazia bodyboard e eu comecei a querer ir para dentro de água com a prancha e brincar. E às tantas comecei a pôr-me em pé na prancha de bodyboard – o que não é suposto. Comecei a pôr-me em pé, a pôr-me em pé e quando voltámos a Cascais o meu pai arranjou uma prancha de surf, o que não foi fácil, porque o meu pai era jogador de râguebi, zero ligado ao surf, a nossa família não tinha nada nada nada a ver com o surf. Mas ele arranjou-me uma prancha de surf e eu comecei a surfar aos poucos e poucos. O meu pai comprou um fato e uns pés de pato e como eu não tinha força para remar até lá fora e apanhar as ondas o meu pai levava-me até lá fora, empurrava-me, vinha buscar-me à areia, depois levava-me outra vez… fazíamos estas piscinas assim e ele ia-me ajudando. Foi assim que comecei a surfar.

Os teus pais tentavam sempre aliar as viagens que tinhas de fazer ainda muito novo, quando começaste a competir em torneios, com as férias da família. Como é que isto funcionava para ti? Já vias o surf como um trabalho ou ainda era só um hobbie?
Na verdade, ainda não gosto de olhar para o surf como um trabalho. No dia em que começar a olhar para o surf como um trabalho vou tirar todo o prazer que tenho em surfar. Ainda no outro dia o meu tio disse uma coisa [o tio de Frederico é Tomaz Morais, antigo selecionador nacional de râguebi] e eu nunca tinha pensado desta forma: o surf é dos únicos desportos em que uma pessoa surfa por trabalho e às vezes está mais stressada ou mais nervosa e diz “eu vou surfar para relaxar”. Ou seja, temos dois escapes: é o nosso trabalho mas ao mesmo tempo é a nossa forma de relaxar. É um desporto que é super gratificante por isso. É um trabalho mas pronto, não gosto de o encarar como um trabalho, é uma paixão. Uma paixão que segui e que adoro. Claro que tenho as minhas obrigações, perante patrocinadores e perante campeonatos, mas acima de tudo surfo porque adoro surfar.
Quanto às viagens, conseguíamos aproveitar. Por norma os destinos de surf são paradisíacos e bons para férias. Nós acabávamos sempre por passar um mês no Havai e um mês na Austrália, que são sítios lindíssimos. A minha mãe adorava, porque podia fazer praia, a minha irmã também, o meu pai treinava, corria, filmava-me, surfava comigo. E eu podia fazer o meu surf e fazer o desporto de que gostava. Podia evoluir, crescer. Sem esse apoio da minha família não estaria aqui.

O meu pai comprou um fato e uns pés de pato e como eu não tinha força para remar até lá fora e apanhar as ondas o meu pai levava-me até lá fora, empurrava-me, vinha buscar-me à areia, depois levava-me outra vez... fazíamos estas piscinas assim e ele ia-me ajudando. Foi assim que comecei a surfar.

Nunca chumbaste nenhum ano. Como é que fizeste essa gestão? Tinhas de viajar, faltar às aulas, nem sempre conseguias estar presente. Os professores eram compreensivos?
A minha mãe é muito inteligente, muito esperta. Ela ajudava-me muito. Estudava muito com a minha mãe, ela estudava comigo nestas viagens todas, levávamos os livros, passava muito tempo a estudar. Tentava sempre ter a matéria em dia para depois conseguir fazer os testes e estar preparado quando chegava. Sempre tive sorte porque em todas as escolas em que andei os professores foram impecáveis comigo, sempre me ajudaram, sempre facilitaram e sempre apoiaram o meu percurso. Isso foi uma ajuda enorme.

Tens medo de não alcançar as expectativas das pessoas quem acreditam em ti? Depois do Tiago Pires, és o grande nome do surf português. Vives com esse receio de não conseguir fazer tudo aquilo que queres?
Acho que a maior expectativa que eu tinha era qualificar-me [para o WCT]. E isso já aconteceu. Foi um enorme alívio. Mas como é óbvio criamos mais expectativas e mais objetivos e mais sonhos e quero sempre alcançá-los. Para não me sentir frustrado tenho de saber gerir tudo isso e às vezes não é fácil. Mas ainda há muita coisa que quero fazer e alcançar e tenho vindo a trabalhar para isso. Mas há momentos mais difíceis, às vezes as coisas não correm tão bem. Mas faz parte do percurso.

E quais são esses objetivos a curto prazo?
Manter-me no Tour durante vários anos. Aos poucos e poucos… Tive um ano muito bom no ano passado e este ano está a ser mais difícil. Tenho de me esforçar mais, de me preparar mais, de evoluir e arranjar outras formas de pontuar e conseguir resultados.

Apanhaste a fase do boom do surf em Portugal – há uns anos não era comum ver muitos miúdos dentro de água a surfar como agora é habitual em qualquer praia. Sentes que ajudaste neste processo de tornar o surf uma coisa mais acessível?
Acho que todos nós, surfistas, somos responsáveis por isso. Assim como as escolas de surf, o Francisco [Spínola, representante da WSL em Portugal], o Frederico Teixeira, toda esta organização de eventos, a dinamização dos eventos em Portugal, os surfistas que seguiram o surf como carreira: o Vasco [Ribeiro], o Tomás [Fernandes], eu, o Tiago [Pires], quando esteve no Tour. Todo esse conjunto de entidades teve uma força enorme para ajudar o surf a crescer. Não foi uma pessoa que fez com que este boom acontecesse, acho que seria injusto da minha parte dizer que fui eu, nunca na vida o faria. Foi um trabalho conjunto de todas estas pessoas que fez com que o surf desse um salto grande e agora é continuar com este trabalho e criar cada vez mais atletas, mais jovens promessas, mais infraestruturas.

O surfista começou por colocar-se em pé numa prancha de bodyboard até o pai lhe comprar a primeira prancha de surf (Henrique Casinhas/Observador)

Instagram de Frederico Morais

Qual é a componente mental do surf? Visto de fora, é um desporto muito físico e muito atlético mas é notório que é necessária uma grande concentração.
Nós não dependemos de nós mesmos. Dependemos do mar, das ondas, de como as condições estão, se está maré cheia, maré vazia, se há ondas, se não há ondas. Dependemos de muita coisa. E para além disso temos a nossa performance e aí sim, está tudo entregue a nós. Mas todos esses fatores extra influenciam muito a nossa performance. Temos de estar preparados mentalmente para não estarmos nervosos e ultrapassar qualquer adversidade que exista durante um heat. Porque, ao fim e ao cabo, nós temos 30 minutos para nos mostrarmos. E é isso. Viajamos daqui até ao Havai para um campeonato e depois temos 30 minutos para mostrar o que valemos. E ou passamos ou perdemos e voltamos para casa. Pode ser um desporto super frustrante, por vezes. Mas temos de arranjar maneira de ultrapassar isso.

Tens alguma superstição antes de entrar dentro de água?
Não. Houve uma altura em que tinha: era não fazer a barba antes dos campeonatos. Mas depois passou. Hoje em dia não tenho grandes superstições.

E como é que é um dia normal na vida do Frederico Morais, surfista português?
É tranquilo. É acordar de manhã, surfar, ir ao ginásio, dependendo do horário – mas algures no meu dia há-de entrar a parte do ginásio e depois é surfar. Seja na Ericeira, Peniche, Nazaré, Cascais, Carcavelos, Costa de Caparica. Onde o mar estiver melhor, com o tipo de prancha que eu quiser experimentar, com o que eu estiver à procura, o que eu quiser treinar. Pelo menos tento duas surfadas por dia e ir uma vez ao ginásio. Às vezes o mar não nos deixa, é impossível, e aí aproveito para descansar e estar com os amigos e ver a família.

A minha mãe é muito inteligente, muito esperta. Ela ajudava-me muito. Estudava muito com a minha mãe, ela estudava comigo nestas viagens todas, levávamos os livros, passava muito tempo a estudar. 

Tirando o surf, acompanhas outro desporto?
Sou um fã enorme de todos os desportos mas como estou sempre de um lado para o outro não acompanho nenhum desporto em concreto. Mas sou um mega fã do Cristiano Ronaldo por isso tento sempre acompanhar um bocadinho. Adoro ver a nossa seleção a jogar, ou seja, futebol acompanho sempre um bocadinho ou tento acompanhar. E adoro ténis.

Quando olhas para trás, em retrospetiva, gostavas de ter sido qualquer outra coisa que não surfista profissional?
Sempre quis ser surfista, mas durante algum tempo tinha a ideia de querer tirar o curso de arquitetura. Depois pensei em ir para economia mas nada disso aconteceu. E agora, pensando assim, olho para trás e não me arrependo de nada.

Chegaste ao WQS em 2011. Qual foi o momento mais significativo até agora?
Tenho dois momentos muito especiais. E não foram resultados porque como o meu pai diz: “As vitórias são ótimas, uma pessoa ri, janta com os amigos e no dia a seguir já passou”. Estes foram os dois momentos que mais me arrepiaram. Foi chegar ao aeroporto, no ano em que me qualifiquei, em 2016, e ter o aeroporto cheio a torcer por mim e a vibrar com a qualificação e com o sonho que alcancei. E o outro foi no ano passado, no meu primeiro heat em Peniche, quando saí a correr da estrutura para a água. Os gritos e o apoio que ouvi… fiquei arrepiado da cabeça aos pés.

Frederico Morais qualificou-se pela primeira vez para o World Championship Tour em 2016 (Henrique Casinhas/Observador)

HENRIQUE CASINHAS / OBSERVADOR

E aquele que mais custou?
Todas as derrotas. É horrível, dói imenso, custa muito e demora muito a passar.

E como é que é regressar a Ribeira d’Ilhas, a praia para onde vinhas pedir autógrafos quando eras miúdo?
É ótimo. O campeonato tem sido em Cascais nos últimos anos, de onde sou, a praia onde eu aprendi a surfar, onde me pus em pé as primeiras vezes e onde o meu pai me ia levar. Mas aqui em Ribeira d’Ilhas é super especial porque quando comecei a surfar passava os fins de semana aqui, vinha para aqui quase todos os dias com o meu pai. O meu pai fazia um esforço enorme para me trazer aqui e surfarmos aqui. É uma onda que adoro e divirto-me imenso. Poder estar de volta é ótimo. É uma onda que em termos de performance é muito boa para qualquer surfista e é uma onda de classe mundial.

E qual é a tua onda favorita, de todas as que já surfaste?
Jeffrey’s Bay, na África do Sul. É a onda de que mais gosto.

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