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Com 45 anos, o chef especializado em pastelaria gourmet recebeu um e-mail da mãe que nunca conhecera. Depois disso, a sua vida deu volta de 360º
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▲Com 45 anos, o chef especializado em pastelaria gourmet recebeu um e-mail da mãe que nunca conhecera. Depois disso, a sua vida deu volta de 360º

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲Com 45 anos, o chef especializado em pastelaria gourmet recebeu um e-mail da mãe que nunca conhecera. Depois disso, a sua vida deu volta de 360º

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Herança de milhões e champanhe sem fim. Chef britânico conta ao Observador o "golpe" da mãe burlona que chegou à Netflix

Graham não conheceu a mãe por 45 anos e, cinco anos após o emotivo encontro, diz ao Observador que nunca mais a quer ver. Henrique Sá Pessoa acompanhou tudo: da felicidade à desgraça.

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Assim que olhou para ela, a sua vida mudou. “A forma mais fácil de explicar o nosso primeiro encontro é esta: no momento em que a vi foi como quando se entra numa sala depois de um dia muito difícil e se vê uma pessoa que se ama. Olhei para ela e de repente ficou tudo calmo”. A ligação foi automática e a experiência descrita por Graham Hornigold ao Observador é de uma memória sensorial única. Como se os seus sentidos soubessem que a mulher que via, e segundos depois abraçava, naquele lobby de hotel em Liverpool, era a mesma que o tinha trazido ao mundo há 45 anos.

O primeiro passo para o chef de pastelaria britânico deixar que Dionne Marie Hanna, de 84 anos, fizesse parte dos seus dias, em julho de 2020, estava dado. Poucas semanas antes, a pandemia de Covid-19 tinha fechado, pela primeira vez em todo o mundo, milhões de pessoas dentro de casa e Graham acabava de fazer exatamente o inverso. Escancarava a porta para deixar a suposta mãe, que nunca tinha conhecido em criança e que o pai lhe disse ter desaparecido quando tinha apenas dois anos, entrar na sua vida.

Viajou de Londres, onde vivia, até à outra ponta do Reino Unido, para conhecer a mulher que lhe enviou um e-mail a reclamar a sua maternidade e a dizer que ele lhe tinha sido “arrancado dos braços” depois de nascer. O contacto pareceu-lhe suspeito. Não seria estranho que alguém se tentasse aproveitar do facto de ser famoso? Afinal, tinha presença regular em programas de culinária na televisão britânica e uma carreira consolidada a trabalhar em restaurantes com estrela Michelin. Uma simples pesquisa no Google podia torná-lo um alvo fácil de tentativas de fraude.

Mas houve algo que lhe deu uma sensação de confiança quase imediata nesse primeiro contacto, ainda à distância. Esta pessoa sabia onde tinha nascido — numa base militar na Alemanha, em 1974 — informação muito específica, que não era pública. Também respondeu de forma correta a todas as outras questões que Graham foi colocando. Sabia que ele não tinha um segundo nome próprio e conseguiu acertar em todos os dados do seu certificado de nascimento. Mesmo com tudo a bater certo, o chef não deixou de fazer a pergunta que lhe inundava a mente: “Isto é a sério? Não há piadas, fraudes, etc.?”

Hoje não deixa de reconhecer a ironia desta primeira questão que fez a Dionne, à qual a mulher respondeu categoricamente de forma negativa — garantia que só queria conhecer o filho perdido. “Pergunto-me onde estaria se nunca tivesse clicado em ‘responder’ àquele e-mail”, admite no documentário “O golpe da mãe”, da Netflix, lançado no final de março e de que é protagonista.

Ao Observador, cinco anos depois do primeiro encontro com a mãe, Graham Hornigold admite sem reservas: “Não tenho qualquer desejo de voltar a vê-la novamente“.

O amor que nasceu entre bolos da alta cozinha inglesa e que a pandemia fez crescer

O ano de 2020 corria bem para Graham. Nem o confinamento da pandemia o abalava. Há algum tempo que navegava o pico da carreira de culinária e, mesmo com os restaurantes fechados e a apreensão a pairar no meio, recorda essa altura como uma das mais felizes de toda a vida. Vivia, há vários anos, com a namorada, Heather Kaniuk, que também era chef pasteleira. A relação começou por ser profissional, depois platónica, e só anos mais tarde evoluiu para uma ligação romântica. Pouco antes de a pandemia fechar todos em casa e de o próprio casal ter encerrado temporariamente a cadeia de donuts gourmet que co-fundou — a Longboys — receberam a notícia que tanto esperavam: iam ser pais pela primeira vez.

Mesmo com todos os contratempos que 2020 trazia, “a vida era boa com a Heather”, recorda Graham com nostalgia no documentário que foi para o ar há poucas semanas. A boa memória da época é comum à ex-companheira, quando lembra a gravidez e o tempo que passou apenas com o pai do filho em casa, a cumprir o lockdown. “Foi um período fantástico, desenvolvíamos receitas juntos, alimentávamo-nos um ao outro e cuidávamos um do outro”, afirmou Heather, que aceitou participar no documentário.

O chef português Henrique Sá Pessoa, amigo próximo de Graham, conta ao Observador os “planos que o casal tinha de se mudar para a Nova Zelândia depois de o filho nascer”. Procuravam uma vida mais calma na terra natal de Heather, longe da confusão de Londres, para ver a criança crescer. A partir de lá podiam continuar a gerir o negócio que tinham em conjunto, e dedicar-se à consultoria de pastelaria. Mas, a poucos meses de o bebé nascer, a bolha de amor em que viviam estourou.

Sá Pessoa conheceu Graham em 1997, os dois jovens, na casa dos 20 anos, trabalhavam como aprendizes no mesmo hotel, em Picadilly — o britânico como pasteleiro e o português como cozinheiro. O chef premiado recorda ao Observador como o amigo era reservado em relação à história familiar. “Nessa altura não tinha grande noção da vida pessoal dele, sabia que tinha chegado a ser adotado e que, em criança, tinha vivido em St Albans”, conta, lembrando que os dois dormiam em quartos vizinhos, cedidos pela unidade hoteleira aos funcionários que ganhavam menos. Trabalhavam juntos, saíam à noite juntos e foi assim durante o seu tempo de formação profissional.

“Depois perdemos o contacto durante alguns anos e retomámo-lo mais ou menos por volta de 2015 e 2016. Desde então estou com ele sempre que vou a Londres”, relata o chef português, que recorda as “duas ou três vezes em que Graham esteve em Portugal. “Fez-me assessoria [de pastelaria] durante um período no Alma [restaurante de Sá Pessoa em Lisboa] e conheci a Heather, que era a parceira dele”, lembra.

▲ Henrique Sá Pessoa e Graham Hornigold conheceram-se quando eram aprendizes num hotel no centro de Londres

Página de Instagram de Graham Hornigold

O chef português também conheceu a mãe do amigo pouco depois de esta ter aparecido. Não ao vivo, porque não houve ocasião para isso, mas por vídeochamada. “Ela disse que me queria conhecer e que quando eu fosse a Londres teríamos de ir todos jantar fora, o que sempre fazia com os amigos mais próximos do Graham”, recorda ainda.

"Ligou-me a dizer que ia herdar uma grande fortuna e que a mãe, que estava doente, ia passar tudo para ele"
Henrique Sá Pessoa, amigo de Graham

Na verdade, Sá Pessoa assistiu mesmo a tudo — do aparecimento da mãe, que há tantos anos o amigo desejava reencontrar, até à queda a pique do chef britânico. Em poucos meses, todas as áreas da vida de Graham passaram a ser um campo de minas: as finanças, a relação amorosa, a carreira e até os primeiros tempos do filho.

A “filha ilegítima do antigo sultão do Brunei” com um império de empresas

Henrique Sá Pessoa recorda uma das chamadas mais surpreendentes que teve com o amigo: “Ligou-me a dizer que ia herdar uma grande fortuna e que a mãe, que estava doente, ia passar tudo para ele”.

Em julho de 2020, a realidade parecia superar a ficção na vida de Graham Hornigold. Depois do contacto online com a suposta mãe, que lhe conquistou a confiança ao ponto de aceitar encontrar-se com ela, fez as quatro horas de viagem de carro até Liverpool para finalmente conhecer Dionne.

A octogenária parecia mais do que confortável na sala de hotel onde teve o primeiro encontro com o filho, bebia champanhe e os funcionários agiam como se a conhecessem — o mesmo cenário viria a repetir-se em vários hotéis de cinco estrelas em Londres e, daí a umas semanas, na Suíça.

Mãe e filho recém reunidos partilharam uma ligação instantânea. No documentário da Netflix, Heather, que testemunhou os primeiros momentos da interação, disse que as semelhanças físicas dos dois eram inegáveis e que até mostravam os mesmos maneirismos. Dionne dizia ter origem asiática, tinha nascido na Malásia. Nesse momento vivia em Singapura, embora passasse grande parte do ano a viajar por motivos profissionais. Contou que foi separada do filho, à força, quando ainda estava na Alemanha, onde Graham nasceu.

O relato pareceu credível ao homem de 45 anos que foi maltratado pelo pai durante a infância e adolescência. Era uma hipótese provável que a pessoa que o violentou durante anos tivesse sido capaz desse ato. Mais uma vez, não havia pontas soltas.

Não tardou até que a mãe revelasse bem mais do que isso: Dionne dizia ter uma grande fortuna com duas origens, que lhe permitia viver em hotéis e realizar investimentos de milhões. Uma delas eram os negócios que tinha espalhados pelo mundo e que iam de plantações de manga e maracujá, em vários países africanos, até explorações de óleo de palma, na Indonésia e Malásia, sua terra natal.

No hotel "The Dorchester", em Parke Lane, onde a mulher de 84 anos se hospedou durante algumas semanas, todos os funcionários reconheciam Dionne

A mulher de 84 anos passava os dias de copo de champanhe numa mão e com o telemóvel na outra, a falar com aqueles que dizia serem o seus sócios e que a tratavam por “mãe” ou por “avó”, expressão carinhosa e matriarcal da dona de um império espalhado pelo mundo, pensou Graham.

A outra fonte de rendimento, que Dionne revelou com maior reserva, era praticamente “inacreditável”, como reconheceu o próprio filho na série que protagoniza: “Ela disse-me que era a filha ilegítima do antigo sultão do Brunei e que grande parte da sua fortuna multimilionária vinha daí.”

Ainda questionou a veracidade da origem da realeza da mãe, mas à medida que ela decidia continuar pelo Reino Unido, dizendo-lhe que o queria conhecer melhor e com um forte desejo de ver o neto que estava quase a nascer, o chef pasteleiro ia recebendo provas da alegada ascendência da mãe.

▲ Dionne alegava ser a "filha ilegítima do antigo sultão do Brunei", com uma fortuna praticamente incalculável

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

No hotel “The Dorchester”, em Parke Lane, onde a mulher de 84 anos se hospedou durante algumas semanas — e onde o preço dos quartos mais baratos começa nos mil euros a noite e vai até aos oito mil euros — os porteiros conheciam-na bem. O mesmo fenómeno repetia-se com os rececionistas e todo o staff do bar e do restaurante, que faziam questão de a sentar, e a quem a acompanhasse, no centro da majestosa sala de jantar do hotel de luxo, e lhe traziam de imediato uma garrafa do melhor champanhe.

As poucas dúvidas de Graham dissiparam-se nessa altura. Aquele tratamento não podia ser fruto do acaso, sobretudo porque a cadeia de hotéis “The Dorchester” pertencia à família real do Brunei.

A ida à Suíça para receber a herança multimilionária e o primeiro sinal de alerta

Fatos por medida, acessórios de marcas de luxo e dois carros — um Land Rover para Graham e um BMW para Heather, para ninguém se ficar a sentir mal. Dionne era generosa e não olhava a meios ou gastos para “acabar com 45 anos de dor” do filho, como dizia sempre que lhe dava novos presentes. Um deles foi um SUV novo em folha que pareceu ter comprado, a pronto, num stand no Reino Unido.

Como acontecia nos hotéis, também ali toda a gente a conhecia. Era uma das melhores compradoras de carros de topo de gama ao longo de vários anos. Nessa altura, o chef de culinária britânico estava mais do que convencido da fortuna que a mãe não só dizia ter, mas acima de tudo provava ter — o mesmo acontecia com a sua companheira que, entretanto, estava já na reta final da gravidez.

Mas não havia só boas notícias. Dionne confessou que havia uma razão para ter procurado o seu descendente no momento em que o fez. Nos primeiros encontros com Graham, em privado, revelou-lhe que os médicos lhe davam apenas seis meses de vida. Tinha um cancro grave na medula óssea que se espalhou para o cérebro. O seu último desejo era conhecer a família que lhe restava e, acima de tudo, garantir que o filho ficava com aquilo que lhe pertencia por direito — a sua fortuna multimilionária.

No meio deste turbilhão de informação, e dois meses depois de conhecer a mãe, Graham e Heather foram pais. Dionne conheceu o neto e acabou, a certo ponto, por se mudar para casa do casal nos primeiros meses de vida dele — a sua condição de saúde piorava, segundo relatava ao filho, chegando mesmo a enviar-lhe, em pânico, fotografias da sua urina com sangue.

Era tudo agridoce para um homem que tinha duas novas vidas para cuidar, sendo que uma parecia estar próxima do fim. Foi isso que pesou mais no prato da balança da decisão que teve que tomar poucas semanas depois, quando deixou em Londres o filho recém-nascido e a companheira para ir com a mãe a Zurique para tratar de burocracias. Esta dizia-lhe que a viagem era imperativa e urgente, para os dois poderem falar presencialmente com os banqueiros e advogados. Era a condição essencial para partir deste mundo tranquila e a saber que os seus bens não ficavam ao desbarato, ou bloqueados.

Rumaram à Suíça e o tratamento de deferência nos hotéis de luxo repetia-se. Desta vez tudo parecia ainda mais sério e formal — Graham e Dionne chegaram mesmo a estar reunidos com um banqueiro, que reservou uma sala inteira de um banco suíço, para receber a suposta magnata e o homem que iria herdar a sua fortuna. O chef de pastelaria quis alguém que confiasse a seu lado e chamou um colega e amigo de longa data que vivia em Zurique — o também chef de culinária, Juan Pablo Colubri.

No documentário o amigo recorda a incredulidade que toda a situação lhe provocou. Viu o amigo fascinado pela mãe que acabara de conhecer e ele próprio se deixou encantar por uma mulher que parecia ter tanto de rica como de generosa. Pelo simples facto de Juan ser amigo do filho, quis-lhe oferecer um apartamento novo na capital da Suíça. “Para os amigos do meu filho, tudo”, dizia Dionne.

Chegaram a visitar apartamentos à venda e a idosa disse mesmo que iria deixar sete milhões de euros a Juan para não ter de se preocupar com a manutenção da futura casa — mas tudo ficou claro para o amigo de Graham poucas noites depois.

Sem que o filho estivesse presente na sala, Dionne pediu dinheiro a Juan, alguns milhares adiantados por ter as contas bloqueadas, supostamente devido a constrangimentos provocados pela pandemia. Disse-lhe que ele “precisava de dar para receber mais tarde”, mas pediu que a conversa não fosse revelada ao filho. Na cabeça de Juan, todos os alarmes e mais alguns soaram.

O chef não cedeu — disse-lhe que era uma “pessoa simples” e que mesmo que quisesse dar-lhe o dinheiro, simplesmente não o tinha. Ainda ponderou alguns dias, até decidir guardar aquele episódio para si. Fê-lo porque se sentia incapaz de desfazer o momento que mãe e filho viviam, convencido, também ele, que Dionne estava prestes a morrer.

Graham não recebeu fortuna multimilionária da mãe

“Ela esteve na minha vida por cerca de ano e meio, mas eu só estive próximo dela cerca de seis meses desse período”, recorda Graham ao Observador. Uma das fases mais intensas da convivência aconteceu em Londres, pouco depois de regressarem da Suíça, onde acabaram por ficar um mês.

Nessa altura Heather já desconfiava que algo de errado se passava e até já tinha confrontado o companheiro com as movimentações de dinheiro e levantamentos avultados que este tinha feito nos últimos meses. Tudo era justificado com a dificuldade que Dionne tinha em aceder, em tempo de pandemia, aos seus fundos supostamente ilimitados. As quantias seriam repostas, dizia ele, e seriam multiplicadas por dez, ou até mais.

Assoberbada com a aparente manipulação que via diante dos seus olhos, Heather confrontou Graham com a viagem que tinham marcada para a Nova Zelândia, no início de 2021. Tinha sido planeada bem antes de Dionne aparecer na vida deles e a ideia era apresentarem o filho à família de Heather e começarem a conjeturar o futuro por lá. A viagem, pensada para acontecer a três, acabou por ficar reduzida a dois. Só Heather e o filho seguiram caminho e foi o início do fim para o casal.

Graham decidiu ficar em Londres, perante a estupefação da namorada, pressionado pela mãe que lhe dizia estar a piorar de dia para dia. Na prática, pelo tempo que tinha passado, cerca de cinco meses, já só teria semanas, ou até dias, de vida. Todos os minutos contavam para recuperar uma vida inteira de ausência.

▲ "Ela esteve na minha vida por cerca de ano e meio, mas eu só estive próximo dela cerca de seis meses desse período", recorda Graham ao Observador

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Mãe e filho mudaram-se para um apartamento luxuoso no centro de Londres, que Dionne disse que pagaria. Receberam convidados e aproveitaram ao máximo os supostos últimos dias da octogenária com cancro terminal.

“Comecei a ter as minhas suspeitas em abril de 2021, mas tudo se tornou bem mais real em setembro desse ano, quando ela não quis pagar os carros, que me tinha garantido a mim e à Heather serem presentes”, relata o chef britânico ao Observador. Afinal as prendas que iriam compensar “45 anos de ausência” não estavam pagas e era a assinatura de Graham que figurava nos contratos de leasing de dois carros que custavam dezenas de milhares de euros e que ele não tinha como pagar.

“Foi aí que comecei a olhar melhor para documentos e a perceber a dimensão de tudo”, lembra. Tinha deixado enredar-se a tal ponto pelas promessas vãs da mãe que, só em contas de hotel, que incluíam centenas de garrafas de champanhe , compras de luxo e o valor que faltava pagar pelos dois carros, herdou, não uma fortuna multimilionária, mas sim dívidas no valor de 300 mil euros.

Foi quando a confrontou com a questão da falta de pagamento pelos carros que viu Dionne pela última vez. Em novembro de 2021, a idosa já tinha desaparecido de Londres e já não lhe era conhecido o paradeiro. Nessa altura também descobriu um frasco de corante vermelho num quarto de hotel — a mulher tinha utilizado o produto sintético para fingir que tinha urinado sangue. A prova de que não padecia de uma doença terminal é que, cinco anos depois, ainda está viva. Mas como conseguiu esta mulher idosa fingir uma vida de luxo e riqueza durante todos aqueles meses?

Esquema de fraudes sucessivas só acaba quando o documentário vai para o ar

“O esquema é muito parecido com o ‘Tinder Swindler’. Ela dava o golpe a uma pessoa e com o dinheiro dessa pessoa seguia para a próxima“, descreve Henrique Sá Pessoa, que acompanhou quase ao minuto, pela voz do amigo, a forma como este descobriu que a mãe era afinal uma especialista em fraude e burlas — uma con artist, na expressão em inglês.

O seu esquema principal, e também o mais rentável e que mantinha há mais anos, tinha como vítimas religiosos muçulmanos na Indonésia. Dizia-lhes que conseguia arranjar viagens mais baratas para conseguirem ir a Meca e cumprir o Haje — a peregrinação anual muçulmana até à cidade da Arábia Saudita, que os crentes têm que fazer pelo menos uma vez na vida para cumprirem as obrigações impostas pela religião.

As viagens nunca aconteciam, eram falsas, e Dionne já tinha o dinheiro do seu lado quando os visados se apercebiam que iam ficar em terra, muitas vezes depois de lhe entregarem as poupanças de uma vida para cumprir o desejo de ir a Meca.

O mais provável é que, por se ver impedida de continuar a burlar pessoas através deste esquema, já que em 2020 quase a totalidade do tráfego aéreo ficou paralisado, a mulher tenha decidido procurar o filho para criar uma fonte de rendimento alternativa. Encontrou-o com relativa facilidade online, por ser famoso no Reino Unido, para depois o enganar e ter meio de sustento para a vida luxuosa a que estava habituada, mesmo durante o confinamento.

Terá chegado junto dele com o produto da fraude das viagens a Meca, mas ao longo do caminho não perdia uma oportunidade para fazer “investimentos”, que se viriam a revelar “carecas”, deixando empresários em início de carreira sedentos de alguém que apostasse neles e que viam na mulher uma mentora, à beira da ruína.

No período que esteve na Suíça com o filho, por exemplo, Dionne conseguiu enganar um casal, dizendo-lhes que iria investir na aplicação móvel que tinham criado. Conheceu-os no lobby do hotel em Zurique e pedia que lhe chamassem “mãe” ou “avó”.

Eles acabaram por adiantar algum milhares de euros à senhora de 80 anos que dizia estar a enfrentar dificuldades para aceder à fortuna milionária, tudo por causa das restrições da Covid-19. Dizia sempre que o retorno estava a chegar, a partir dos fundos que herdara da família real do Brunei, por ser uma “filha ilegítima” do antigo sultão, mas era tudo mentira. Foi com este dinheiro, que subtraiu ao casal, que pagou a renda do apartamento de Londres em que viveu com o filho por alguns meses.

▲ Casal recebeu idosa que dizia ser mãe de Graham no apartamento de Londres por algumas semanas

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

A lengalenga era sempre a mesma e só deixou de ser entoada por Dionne Marie Hanna, no momento em que o documentário O golpe da mãe, produzido pela Netflix, foi para o ar, no dia 25 de março. Várias pessoas em Singapura, onde se refugiou depois de ser confrontada pelo filho, reconheceram-na e denunciaram ter sido enganadas por ela, informou a polícia do país.

Segundo as autoridades, as queixas começaram a chegar no dia 28 de março, dia em que Dionne foi detida, aguardando agora julgamento. “Neste momento não sinto nada em relação a isso. Isso é com ela e eu não sei mais nada”, garante Graham na conversa com o Observador.

O reencontro com a mãe é uma página do passado que quer arrancar do livro de memórias. “Estou completamente de regresso a tentar ser a minha melhor versão. Estou mentalmente recuperado, fiz terapia e recomendo à maioria das pessoas que possam ter acesso a ela, que o façam”, apela.

Financeiramente, diz-se também “a caminho da recuperação”. “Sem os meus amigos, teria ficado praticamente sozinho, porque nem todos os membros da nossa família ficam na nossa vida”, afirma.

"O mais triste disto tudo é que ela é mesmo mãe dele"
Henrique Sá Pessoa, amigo de Graham

“Os verdadeiros amigos são aqueles que chegam ao teu núcleo e que realmente te conhecem e que ficam contigo aconteça o que acontecer”, considera o chef, que assinala a amizade com Henrique Sá Pessoa como uma das que o ajudaram a refazer a vida depois do duro golpe financeiro, pessoal, emocional e psicológico.

O chef português confessa que até chegou a questionar o amigo em relação à “exposição” a que seria sujeito por participar no documentário. “Ele só me dizia que não queria que mais pessoas passassem por aquilo que ele passou”, conta ao Observador.

“O mais triste disto tudo é que ela é mesmo mãe dele“, reconhece Sá Pessoa. É com a resposta a esta dúvida que termina o documentário — já depois de perceber que tinha sido burlado pela própria mãe, Graham quis atestar que a ligação biológica entre os dois existia mesmo — caso não fosse real, poderia recorrer a instâncias judiciais contra a mulher, acusando-a de se fazer passar por sua mãe.

Mas não era tudo da cabeça dele, a ligação instantânea que sentiu ao conhecer Dionne existiu, porque ela é mesmo a sua mãe biológica, provam-no os testes de ADN. Não desapareceu à nascença de Graham porque o filho lhe foi “arrancado à força”, mas sim porque já nessa altura se dedicava a atividades fraudulentas semelhantes às que, quase 50 anos depois, ainda praticava até há poucas semanas. Chegou mesmo a estar presa nos anos 80 e esteve várias vezes a contas com a justiça, tanto no Reino Unido como em vários outros países.

O amigo “não quer voltar a ter contacto com ela”, afirma Sá Pessoa, que lamenta que o chef tenha “passado por tudo isto”. “Fica o alívio de saber que foi detida e que não poderá causar mais danos a outras pessoas”, garante.

Graham está lentamente a reerguer-se economicamente. Porém, separado do filho. A criança de quatros anos vive com a mãe, no outro lado do mundo, na Nova Zelândia, o sonho a três que a avó destruiu. Há duas semanas, com uma caixa de donuts gourmet na mão, Graham desejou, no Instagram, “um feliz Dia da Mãe a todas as mães incríveis que andam por aí”.

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