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Seis meses consecutivos de “destruição líquida de postos de trabalho“, despesa pública em “risco de incumprimento das regras europeias” e eventuais mudanças nas regras da imigração – sem a qual “a economia não cresce”. Na apresentação pública que terá sido a última como governador do Banco de Portugal, Mário Centeno considerou que a economia nacional continua num ciclo “positivo” mas disparou alertas em todas as direções – “daqueles alertas que cabem ao Banco de Portugal fazer, em áreas sensíveis” para que os responsáveis políticos não caiam, disse Centeno, na “complacência“.

Os responsáveis políticos visados nestes avisos são, na maioria dos casos, aqueles que nas próximas semanas irão pronunciar-se sobre se Mário Centeno irá ou não fazer o segundo mandato que o ex-ministro das Finanças nunca escondeu que queria fazer no Banco de Portugal.

À medida que essa decisão se aproxima (o mandato de cinco anos de Centeno começou a 20 de julho de 2020), o governador foi-se tornando cada vez mais parco em palavras – sobretudo depois do resultado das eleições de 18 de maio que, com o reforço da direita e a queda do PS, praticamente anularam quaisquer hipóteses que houvesse de Centeno ser reconduzido.

“Estarei sempre disponível para o país”, diz Mário Centeno, que pode estar de saída do Banco de Portugal

“Estarei sempre disponível para o país, seja o Governo, seja o Banco de Portugal, seja a universidade, onde posso fazer o que mais gosto que é falar”, afirmou o governador. Sem querer alongar-se em comentários sobre o tema, Mário Centeno afirmou que tem “um mandato para cumprir”, acrescentando, entre dentes, “que [disse-o que] iria cumprir”, e recusando revelar se já conversou com o Governo sobre o tema.

Seis meses de destruição de postos de trabalho, em termos líquidos

“As mudanças no mercado de trabalho tendem a ser abruptas” e “rápidas“, alertou Mário Centeno, economista especializado em mercado de trabalho que sublinha que “boa parte da saúde da economia portuguesa se sustenta no mercado de trabalho”. Ou seja, sem esse “pilar”, toda a solidez da economia portuguesa estará posta em causa.

O que está a preocupar o governador do Banco de Portugal é que um dos principais indicadores que tipicamente permitem antecipar mudanças de tendência do mercado de trabalho é o ritmo de criação ou destruição de postos de trabalho, em termos líquidos, a par de outros como a taxa de contratações. E em Portugal “tivemos seis meses consecutivos de destruição líquida de postos de trabalho“, algo que aconteceu pela última vez “no primeiro trimestre de 2013”, em pleno programa de assistência financeira da troika.

FONTE: Banco de Portugal

Diz a teoria económica, lembrou Centeno, que as primeiras manifestações de uma mudança de tendência costumam ser visíveis na taxa de contratações e na taxa de destruição de emprego (separações) – e é precisamente nesses indicadores que tem existido uma alteração nos últimos meses, disse o governador do Banco de Portugal, considerando “admirável” a “resiliência” que o mercado de trabalho tem evidenciado, apesar da “natural desaceleração” no crescimento do emprego e dos salários.

Apesar destes indicadores mais preocupantes, oficialmente o Banco de Portugal projeta “um abrandamento do emprego e dos salários, mantendo-se a taxa de desemprego em valores baixos”. O emprego “deverá crescer 1,4% em 2025, 0,7% em 2026 e 0,5% em 2027 — refletindo aumentos mais contidos da população em idade ativa e da taxa de atividade face ao passado recente — e a taxa de desemprego estabilizará em 6,4%“.

“Sem imigração não haveria crescimento económico”

Num novo alerta sobre o impacto que considera ser muito positivo da imigração, na economia portuguesa, Mário Centeno lamentou haver “algumas características do mercado de trabalho em Portugal que não estão a ser bem tratadas do ponto de vista analítico, infelizmente”.

“Temos um contributo muito grande para a dinâmica da economia vindo de trabalhadores imigrantes”, afirmou o governador do Banco de Portugal, garantindo que “nada daquilo que se está a passar de positivo na economia portuguesa aconteceria se não fosse o inestimável contributo da imigração“. Esse é um contributo não só para o crescimento económico mas, também, salientou, para a inversão do saldo demográfico que se verificou em 2017, referiu Centeno, depois de “uma sucessão de anos com perda de população e de população ativa”.

Um dos dados que suportam esta opinião é que “a participação dos trabalhadores nacionais nos setores que pagam abaixo do salário médio reduziu-se“, o que, diz Centeno, “é natural tendo em conta o aumento da escolaridade nas nossas gerações mais novas”. O governador do Banco de Portugal já tinha referido, em apresentações anteriores, que temos hoje uma população mais escolarizada”, já que “85% dos jovens que saem para o mercado de trabalho têm pelo menos o ensino secundário – há 20 anos era 40%”.

Economia cresce muito menos do que o previsto e contas públicas “no vermelho” já a partir deste ano, estima o Banco de Portugal

Este enquadramento “tem levado a que se reforce o emprego [de portugueses] em setores que pagam salários maiores do que o salário médio”, acrescentou o governador, rematando, em jeito de alerta aos responsáveis políticos mais céticos da imigração: “Podemos dar as voltas que quisermos aos números mas não dêmos voltas com eles“.

Sendo muito claro, Centeno defendeu que “parar o ciclo de imigração significa parar o ciclo de crescimento económico em Portugal, que ninguém tenha dúvidas sobre isto”.

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Despesa pública com crescimento “enorme”, arrisca furar regras

Na linha dos alertas feitos noutras ocasiões, mas agora com mais números atualizados, Mário Centeno salientou, também, que Portugal tem “no horizonte um risco de incumprimento face às regras europeias sobre a despesa pública”.

“A despesa líquida cresce, nas nossas previsões, 5,4%, após ter crescido uns enormes 11,7% em 2024”, afirmou Mário Centeno, salientando que as medidas discricionárias do lado da despesa representam “apenas 321 milhões de euros” em 2025 – ou seja, se forem lançadas mais medidas como reduções de impostos (o Governo prometeu uma descida de IRS) isso “obviamente” irá significar um saldo mais desfavorável e um risco maior de incumprimento.

Mário Centeno diz que a previsão do Banco de Portugal para os anos seguintes é de um crescimento da despesa líquida de 6,2% em 2026 e 2,1% em 2027. O que leva Centeno a considerar que Portugal está a registar um crescimento da despesa líquida acima do PIB potencial e está a formar uma “divergência ao longo dos anos face aos objetivos que estão assumidos com a Comissão Europeia”.

Esta semana, a Comissão Europeia calculou que a despesa líquida em Portugal deverá crescer mais do que o recomendado, tanto em 2025 como em 2026. Porém, Bruxelas disse que, embora deva ser uma margem curta, o desvio acumulado não deverá ultrapassar os 0,6% do PIB que estão definidos nas novas regras orçamentais europeias – mas não se ultrapassa esse limiar devido ao facto de se ter ativado a cláusula de escape para gastos com a área da Defesa.

Mesmo assim, Mário Centeno avisou que “Portugal é recordista nos últimos anos na redução da dívida pública (e da dívida privada). Isto deu credibilidade ao país, colocar isso em causa é colocar em causa a sustentabilidade do crescimento económico – no curto mas, seguramente, no médio prazo”.

Apesar dos comentários de Montenegro, Centeno continua a prever défice

Tal como já tinha previsto em dezembro, (em março não houve previsões para as contas públicas), o Banco de Portugal prevê que “o saldo orçamental deverá deteriorar-se nos próximos anos, regressando a uma situação deficitária”. “Preveem-se défices orçamentais de 0,1%, 1,3% e 0,9% do PIB em 2025, 2026 e 2027, respetivamente, em resultado de políticas pró-cíclicas expansionistas”, diz o boletim económico.

Por pró-cíclico entende-se políticas que, num contexto de expansão económica estimulam ainda mais essa expansão, negligenciando a acumulação de “almofadas” para quando o ciclo se torna menos positivo. O governador do Banco de Portugal tem alertado para o perigo de tomar medidas pró-cíclicas no contexto positivo que se tem vivido nos últimos anos.

Em dezembro, quando pela primeira vez Mário Centeno apontou para o risco de um défice de 0,1% nas contas públicas, Luís Montenegro considerou a projeção “insólita”. “Se tivéssemos com problema de défice de 0,1%, qualquer governo resolve isso em dois tempos. Nem sequer é problema, honestamente”, rematou o primeiro-ministro.

Apesar destes comentários, Mário Centeno manteve a previsão de um défice de 0,1% embora tenha dito, questionado pelo Observador na conferência de imprensa, que apesar de o número (-0,1%) sem o mesmo, “a composição é diferente“. Isto acontece porque “temos hoje uma atividade económica inferior à que projetávamos em dezembro, temos uma execução orçamental em 2024 ligeiramente melhor do que a que projetávamos em dezembro, temos uma composição da receita fiscal diferente”, entre outros fatores.

Ainda assim, mesmo tendo havido variações (para cima e para baixo) em várias componentes, o resultado foi o mesmo, um défice de 0,1% que poderá agravar-se, no próximo ano, para 1,3%.

Sobre esse ano de 2026, o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, admitiu numa entrevista recente à RTP que será mais “exigente” conseguir um superávite, por causa da “incerteza do ponto de vista internacional”, mas não abdicou desse objetivo – mesmo com a prometida descida do IRS.

Economia cresce menos em 2016 e só acelera em 2026 se PRR acelerar

O Banco de Portugal antecipa neste boletim trimestral que a economia portuguesa irá crescer “1,6% em 2025, 2,2% em 2026 e 1,7% em 2027”. Há uma ligeira melhoria do crescimento previsto para 2026, mas a mudança mais brusca é mesmo a redução de 0,7 pontos percentuais no crescimento económico do ano em curso – em comparação com uma previsão de 2,3% feita pelo mesmo Banco de Portugal há apenas três meses.

E o que justifica uma revisão tão acentuada? Centeno refere a quebra “muito significativa” na atividade económica no primeiro trimestre (em cadeia), que o INE estimou em -0,5%. Efeitos de calendário – uma Páscoa mais tardia do que em 2024, quando tinha sido ainda no primeiro trimestre – terão contribuído significativamente para esse registo negativo da economia neste início de 2025. Mas os dados, sobretudo a queda de 2,5% (em cadeia) do investimento, deram um forte sinal de preocupação.

Neste segundo trimestre, em curso, os “indicadores apontam para um crescimento também fraco”, mas o Banco de Portugal, ainda assim, acredita numa variação positiva, de 0,4% em cadeia (ou seja, na comparação com o primeiro trimestre) “mas há uma incerteza grande em volta desse número”, afirmou Centeno.

“As nossas previsões são de uma recuperação do crescimento em cadeia relativamente rápida”, confiou o governador, confirmando o “ponto de partida muito negativo” do primeiro trimestre mas afiançando que, agora, com crescimentos (previstos) de 0,4% no segundo trimestre e 0,6% tanto no terceiro como no quarto trimestres, será possível atingir um crescimento de 1,6%. Mas Centeno sublinha que há “riscos negativos” nesta previsão de 1,6%, já que ela depende de haver crescimentos em cadeia “muito fortes” no que resta do ano.

Embora o objetivo de crescer 2,4% possa ter-se tornado “mais exigente”, devido ao fraco desempenho da economia no início do ano, Miranda Sarmento garantiu que está confiante de que será possível ter um crescimento superior a 2% na totalidade deste ano de 2025.

PRR. Investimentos em estado “crítico” mais do que duplicam. Comissão diz que há “risco muito elevado” de falhar metas

Para o ano seguinte, o Banco de Portugal está um pouco mais otimista mas Mário Centeno sublinhou que da aceleração que está prevista para o PIB em 2026, para 2,2%, “0,5 pontos percentuais são [relativos ao] PRR“, que tem sempre tido uma execução abaixo da esperada pelo Banco de Portugal até agora. “Temos uma execução do PRR inferior àquela que esperávamos, estamos sempre a rever em baixa as nossas perspetivas de implementação do PRR” e, também por isso, a economia portuguesa está a crescer a um ritmo inferior ao seu potencial, o que “é um facto novo”.

“Por isso, há um risco efetivo sobre o número 2,2% para 2026”, afirmou o governador do Banco de Portugal.