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epa11879403 British Prime Minister Keir Starmer speaks during a meeting with his Dutch counterpart (not pictured) at 10 Downing Street in London, Britain, 06 February 2025.  EPA/ANDY RAIN / POOL
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▲A decisão foi anunciada com condições para Israel, que terão de ser cumpridas até setembro

ANDY RAIN / POOL/EPA

▲A decisão foi anunciada com condições para Israel, que terão de ser cumpridas até setembro

ANDY RAIN / POOL/EPA

Keir Starmer cedeu a pressões internas, "raiva" e "frustração" e anunciou reconhecimento da Palestina. Decisão "só o pode ajudar"

Sob pressão do Labour, do executivo e do novo partido da esquerda, Starmer esperou pelo encontro com Trump para se alinhar com Macron. A decisão estabiliza apoio interno, mas pode trazer novos votos?

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“Eu sinto a mão da História nos meus ombros”. A frase é do primeiro-ministro britânico Tony Blair durante uma viagem à Irlanda do Norte em 1998. Esta terça-feira, as palavras voltaram a ouvir-se, desta vez pela boca do ministro dos Negócios Estrangeiros, David Lammy, na sede das Nações Unidas, por ocasião de uma conferência para a implementação da solução dos dois Estados. O momento é diferente, o sentimento é o mesmo: Londres quer assumir responsabilidades na pacificação de um conflito. Para isso, o governo britânico anunciou o reconhecimento condicional do Estado da Palestina.

O anúncio de Keir Starmer em Londres, minutos antes de Lammy ter começado a discursar em Nova Iorque, foi uma mudança clara na posição que o governo britânico tinha vindo a assumir, atrasando uma decisão à espera do momento certo. Esse momento parece ter chegado durante a reunião do Conselho de Ministros que antecedeu o anúncio — mais de um terço do executivo de Starmer já tinha instado o primeiro-ministro a dar este passo, avançam múltiplos media britânicos.

Mas a pressão contra Starmer não se fez sentir apenas dentro do governo. Na semana passada, cerca de 220 deputados, 131 dos quais do Labour, assinaram uma carta enviada ao primeiro-ministro, em que exigiam o reconhecimento da Palestina. À pressão interna somou-se um outro fator: o facto de França ter avançado com o reconhecimento da Palestina. “[Starmer] estava a coordenar [a sua posição] com a França e o Canadá [que também vai reconhecer a Palestinaa em Setembro], pelo que as ações dos países aliados também terão contribuído”, declara ao Observador, Steven Fielding, professor de política britânica na Universidade de Nottingham, especializado no Labour.

epa12116503 (L-R, left side) British Chancellor of the Exchequer Rachel Reeves, British Prime Minister Keir Starmer, British Foreign Secretary David Lammy UK Paymaster General Nick Thomas-Symonds and (L-R, right side) European Commissioner for Trade and Economic Security Maros Sefcovic, European Council President Antonio Costa, European Commission President Ursula von der Leyen and European Commission's Vice-President and High Representative of the Union for Foreign Affairs and Security Policy, Kaja Kallas attend a plenary session during the UK-EU summit at the Lancaster House in London, Britain, 19 May 2025.  EPA/JASON ALDEN / POOL

▲ Um terço do executivo de Starmer, incluindo David Lammy, estavam a favor do reconhecimento

JASON ALDEN / POOL/EPA

A decisão pode ter sido bem recebida pelo partido e pelos aliados europeus, mas não livraram Starmer de duras críticas. À esquerda, criticou-se o facto de o anúncio ter demorado tanto tempo e o facto de ser condicional. Entre estas vozes, fez-se ouvir Jeremy Corbyn, antecessor de Starmer na liderança do Labour que, na semana passada, anunciou a criação de um novo partido à esquerda. Corbyn criticou Starmer por utilizar “um direito inalienável do povo palestiniano” como “moeda de troca”.

À direita, criticou-se o timing da decisão, argumentando que reconhecer a Palestina não devolve os reféns a Israel ou permite a entrada de ajuda humanitária em Gaza. “Isto são poses políticas no seu pior”, criticou Kemi Badenoch, líder do Partido Conservador. Já Nigel Farage, líder do Reform, declarou que a decisão “recompensa o terrorismo”, as mesmas palavras utilizadas pelo primeiro-ministro israelita. “Starmer recompensa o terrorismo monstruoso do Hamas”, acusou Benjamin Netanyahu, em resposta ao anúncio.

Apesar das várias reações críticas, Steven Fielding acredita que a decisão “só pode ajudar Starmer”, dada a viragem da opinião pública, que se mostra cada vez menos favorável a Israel e mais a favor da causa palestiniana. A pouco mais de um ano de ter vencido as eleições, o primeiro-ministro soma uma série de fracassos na política interna que atiraram a sua taxa de aprovação para os 23%, o valor mais baixo desde que foi eleito. Mas os especialistas duvidam que uma única decisão de política externa seja suficiente para inverter a tendência.

Catástrofe humanitária em Gaza e a decisão de Macron: “O momento de máximo impacto”

“Agora, em Gaza, por causa de um falhanço catastrófico de ajuda, vemos bebés a morrer à fome, crianças demasiado fracas para se levantarem, imagens que vão ficar connosco para a vida”. As palavras foram ditas por Keir Starmer, visivelmente emocionado, durante o anúncio oficial da decisão do governo britânico. “Não consigo imaginar que como advogado de Direitos Humanos, Starmer tenha achado que o Israel tem estado a fazer seja aceitável”, argumenta Steven Fielding.

A irresponsabilidade do governo de Netanyahu deu muito poucas alternativas a Starmer se queria permanecer do lado certo da opinião pública.
Steven Fielding, professor de política britânica na Universidade de Nottingham

Apesar dos aparentes sentimentos de Keir Starmer sobre o “sofrimento” na Faixa de Gaza, como o próprio definiu, o Reino Unido — que já defendeu no passado a solução de dois Estados — tardou a dar um passo na direção do reconhecimento, sendo ultrapassado por Espanha ou até por França. As declarações oficiais do primeiro-ministro justificam este compasso de espera com o facto de o Reino Unido querer aguardar pelo “momento de máximo impacto“.

A estratégia foi desenvolvida pelo seu conselheiro de segurança nacional, Jonathan Powell, “arquiteto do processo de paz na Irlanda do Norte”, escreve o Financial Times. Na visão de Powell, o reconhecimento do Estado da Palestina tem poucos efeitos práticos — prova disso é o facto de ser um Estado reconhecido por 147 dos 193 países das Nações Unidas e isso não ter impedido as forças israelitas de matar mais de 60 mil palestinianos e bloquear a entrada de ajuda humanitária durante a ofensiva na Faixa de Gaza, o que mergulhou o enclave na crise que agora se vive.

Para maximizar os efeitos da decisão e garantir a sua eficácia, Powell queria que esta fosse tomada em conjunto com os restantes aliados, incluindo os Estados Unidos. No entanto, este desejo enfrentou dois obstáculos. Por um lado, a situação humanitária em Gaza tornou-se “avalassadora”, descreve Brian Bivati, professor de história contemporânea e Direitos Humanos na Kingston School of Art, ao Observador, destacando especificamente o facto de as forças israelitas terem matado pessoas nos pontos de distribuição de ajuda humanitária como o ponto de viragem da pressão interna. “A irresponsabilidade do governo de Netanyahu deu muito poucas alternativas a Starmer se queria permanecer do lado certo da opinião pública”, declara por sua vez Steven Fielding.

Por outro lado, o facto de o Presidente francês, Emmanuel Macron, ter avançado com o reconhecimento do Estado da Palestina sozinho — perseguindo a sua própria agenda — deitou por terra o plano de Powell de um reconhecimento em massa pela comunidade internacional. Mas a decisão de Macron por si só não convenceu Starmer a mudar de ideias sobre o plano e a “frustração” de Labour transformou-se em “raiva“, escreve o Financial Times. Então, o que mudou nos apenas quatro dias, entre o anúncio de Macron e o de Starmer? O primeiro-ministro britânico encontrou-se com Donald Trump.

epa12268609 British Prime Minister Keir Starmer (L) and US President Donald J. Trump (R) pose for pictures ahead of the leader's meeting at the Trump Turnberry golf resort in Turnberry, Scotland, Britain, 28 July 2025.  President Trump is on a private trip to Scotland to visit his golf courses.  EPA/TOLGA AKMEN / POOL

▲ Starmer só avançou com a decisão depois do encontro com Trump

TOLGA AKMEN / POOL/EPA

“O bloqueio [ao reconhecimento da Palestina] é o próprio Keir com os seus conselheiros sénior e desejo deles de ficarem próximos dos Estados Unidos“, criticou um ministro ao jornal britânico. Esse mesmo desejo ficou patente nas palavras de Lammy, que, em declarações aos jornalistas em Nova Iorque, classificou a relação entre Londres e Washington como “muito especial” — depois das críticas norte-americanas à decisão de Macron, a mesma decisão por parte de Londres podia pôr em risco esta relação.

No entanto, a antecipada hostilidade norte-americana não se verificou no encontro entre o primeiro-ministro britânico e o Presidente norte-americano na passada segunda-feira. Apesar de Donald Trump não ter apoiado a ideia, também não se opôs. “Eu não vou tomar posição, mas não me importo que ele tome”, declarou o chefe de Estado norte-americano sobre a decisão britânica. “Ele basicamente está a dizer a mesma coisa [que Macron] e isso é ok. Não quer dizer que eu tenha de concordar”, acrescentou, já de regresso aos Estados Unidos. A indiferença norte-americana parecia ser tudo o que faltava a Starmer para ceder à pressão interna.

[Horas depois do crime, a polícia vai encontrar o assassino de Issam Sartawi, o dirigente palestiniano morto no átrio de um hotel de Albufeira. Mas, também vai descobrir que ele não é quem diz ser. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o segundo episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro aqui]

Londres acredita que reconhecimento condicional terá maior impacto na situação na Faixa de Gaza

Apresentando-se o momento certo, o Reino Unido apresentou a decisão de forma a maximizar, na visão do governo, o seu impacto no terreno. Para isso, elencou condições que Israel deve tomar para que Londres não avance com a decisão: “O governo israelita deve dar passos substanciais para acabar com a situação chocante em Gaza”. Isto inclui assinar um cessar-fogo, comprometer-se com a paz a longo prazo na forma da solução de dois Estados, permitir que as Nações Unidas voltem a tomar conta da ajuda humanitária no enclave e “deixar claro” que não irá anexar a Cisjordânia — um movimento ilegal à luz do Direito Internacional, mas defendido por alguns ministros do executivo israelita.

Face a estas condições, surgem duas possibilidades. Israel pode cumprir todas as exigências e Londres não avança com a decisão. Mas, neste caso, o objetivo britânico de mudar a situação real no terreno já terá sido cumprido: os ataques israelitas terão terminado devido ao cessar-fogo e o fluxo de ajuda humanitária terá sido reposto em massa. Além disso, o compromisso israelita com a solução de dois Estados levaria o Reino Unido a reconhecer na mesma a Palestina, para poder avançar com esse objetivo antigo para a região. “Sempre foi uma questão do ‘quando’ e não do ‘se’“, resume um aliado de Keir Starmer ao Financial Times.

Israel não pode ignorar dois membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU — é claro que vai mudar a situação.
Fonte do executivo britânico ao The Times

Porém, as críticas de Telavive ao anúncio de Starmer dão a entender que esta possibilidade é improvável, algo que a deputada do Labour e presidente do Comité de Negócios Estrangeiros, Emily Thornberry, destacou. “Apesar de todos desejarmos que Israel concordasse em pôr fim à fome e ao sofrimento em Gaza […] parece haver pouca possibilidade de o governo de extrema-direita de Netanyahu concordar com esses termos. O Reino Unido vai reconhecer a Palestina em setembro”, escreveu Thornberry num comunicado publicado nas suas redes sociais.

Neste caso, o reconhecimento do Estado da Palestina seria, em si mesmo, uma forma de pressão sobre o governo israelita. Não foi por acaso de David Lammy lembrou a “mão da História” das Nações Unidas: o Reino Unido tem particular influência em Israel pelo facto de ser o responsável pela declaração de Balfour, um documento de 1917 em que Londres se comprometia a “estabelecer na Palestina [sob mandato britânico] uma casa nacional para o povo judeu”. Este foi um dos documentos que serviu de base legal ao estabelecimento do Estado de Israel na região, o que explica os laços entre Londres e Telavive — e por isso a responsabilidade acrescida que o governo britânico reivindica.

Além disto, o governo britânico acredita que, mesmo sem os Estados Unidos, o governo israelita não poderá continuar a opor-se à solução de dois Estados depois de Londres e Paris reconhecerem a Palestina. “Israel não pode ignorar dois membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU — é claro que vai mudar a situação”, declarou uma fonte do executivo ao The Times, que escreve que “a aposta de Starmer é que Netanyahu não terá outra escolha a não ser começar a ouvir”.

Em qualquer um dos cenários, o governo acredita que a decisão condicional de reconhecer a Palestina terá efeitos práticos na ofensiva militar de Israel na Faixa de Gaza e no futuro a longo prazo do território. “De uma forma ou de outra, teremos o reconhecimento da Palestina”, declarou outro aliado do primeiro-ministro ao Financial Times.

epa12266106 Internally displaced Palestinians react after managing to collect bags of flour near a food distribution point in Zikim, northern Gaza Strip, 27 July 2025. The Israeli army declared a 'tactical pause' in military operations in parts of the Gaza Strip on 27 July, to facilitate the safe passage of humanitarian aid convoys. More than 130 Palestinians, the majority of whom children, have died of malnutrition in the Gaza Strip, the Palestinian Ministry of Health said on 27 July.  EPA/MOHAMMED SABER

▲ Londres quer melhorar a crise humanitária na Faixa de Gaza através da decisão

MOHAMMED SABER/EPA

“Reposicionamento estratégico”. Os fantasmas de Corbyn voltaram para assombrar Starmer?

No dia em que o Hamas atacou o festival Nova e vários kibbutz em Israel, realizava-se em Liverpool a conferência anual do Labour. Com a notícia dos ataques, a conferência tornou-se “um teste ao projeto [de Starmer] para mudar o partido”, descreve a The Economist. Afinal, a última liderança do Labour, entregue a Jeremy Corbyn, tinha atirado o partido para uma crise: maus resultados eleitorais e acusações de antissemitismo confirmadas pela Comissão para a Igualdade e Direitos Humanos. Corbyn reconheceu o problema, mas declarou que tinha sido “exagerado” com propósitos políticos — e acabou por ser suspenso do partido por essas declarações.

Com estes acontecimentos ainda frescos na memória, o apoio declarado de Starmer a Israel nessa ocasião foi bem-recebido e o novo líder passou o “teste”. Passados quase dois anos, “a Palestina anima, novamente, a força da política interna do Labour”, continua a revista britânica. Isto acontece, por um lado, devido à pressão interna do Labour, principalmente entre os deputados e os ministros mais à esquerda. Por outro lado, também vem do espaço à esquerda do Labour, onde se reflete a viragem pró-Palestina da opinião pública britânica.

Esta segunda dimensão já ficou visível nas eleições do ano passado, em que cinco deputados independentes com posições assumidamente pró-Palestina conquistaram lugares no Parlamento. Entre eles estão Jeremy Corbyn e Zarah Sultana. No dia 24 de julho, estes dois independentes anunciaram a criação de um novo partido, ainda sem nome, cujo manifesto de apenas duas páginas dedica um parágrafo inteiro a um tema em exclusivo: a Palestina.

À esquerda e à direita, partilha-se a opinião que a decisão de Starmer reconhecer a Palestina foi acelerada pelo medo de perder votos — e deputados — de uma fação mais à esquerda do Labour para o novo partido de Corbyn. “[A decisão] não foi certamente um despertar moral, mas um reposicionamento estratégico“, criticou um deputado “proeminente” ouvido pela revista New Statesman. “Ele não tem princípios. Se ele for empurrado, vai cair na direção de quem empurrar com mais força — que querem sempre empurrá-lo para a esquerda. Se Starmer for julgado pelas suas ações, emerge uma imagem incriminatória de um homem incapaz de manter uma posição, a quem faltam princípios básicos, disposto a fazer o que for preciso para salvar a pele e sem nenhuma fibra moral”, critica por sua vez, Stephen Pollard, autor e jornalista britânico, num artigo na The Spectator.

epa08342489 (FILE) - Britain's opposition Labour Party then Spokesperson for Exiting the EU, Keir Starmer (L) is congratulated following his speech by then party leader Jeremy Corbyn (R) at the Labour Party Conference in Brighton, Britain, 25 September 2017 (reissued 04 April 2020). Keir Starmer was announced elected succesor to Labour Party leader Jeremy Corbyn on 04 April 2020 in a ballot of party members, trade unionists and other supporters.  EPA/NEIL HALL *** Local Caption *** 53790919

▲ A liderança passou de Corbyn para Starmer em 2020

NEIL HALL/EPA

Os especialistas ouvidos pelo Observador desvalorizam a possibilidade de a decisão de Starmer ter sido influenciada diretamente pelo anúncio do seu antecessor na liderança do Labour. Contudo, Steven Fielding salienta os lugares do Labour perdidos para independentes que “sublinharam Gaza como um tema que Starmer devia abordar de forma mais firme”. Já Brian Bivanti considera que o confronto direto entre o Labour e o partido de Corbyn sobre estes temas será mais visível a caminho das eleições — o Reino Unido volta a ir às urnas em maio do próximo ano para as eleições locais.

Reconhecer a Palestina não prejudica Starmer. Mas ajuda assim tanto?

Com as próximas eleições a menos de um ano de distância, a questão impõe-se: o tema da Palestina pode ajudar o Labour a consolidar o bom resultado de 2024? Os especialistas ouvidos pelo Observador admitem que mal não faz. Um inquérito do YouGov deste mês mostra que mais de dois terços dos eleitores do Labour, dos Verdes e dos Liberais Democratas apoiam o reconhecimento da Palestina, comparados com 32% dos eleitores dos Conservadores e 15% do Reform, de Nigel Farage.

Neste panorama, os votos que o Labour pode ambicionar conquistar ao reconhecer o Estado da Palestina não estão entre os eleitores de direita, com uma visão mais favorável de Israel, mas entre os eleitores de esquerda e as franjas mais progressistas. Ora, estes votos podem ser relevantes, mas não são cruciais para consolidar uma vitória, principalmente dadas as decisões polémicas relativamente à política interna britânica dos últimos tempos. “No final de contas, Sir Keir é um primeiro-ministro respeitado no estrangeiro, mas a perder o controlo em casa”, define David Maddox, editor de política do jornal Independent.

A verdadeira aposta de Starmer para não perder votos para Corbyn — ou para os Verdes — não está, por isso, na Palestina, mas na política interna. “O verdadeiro problema é o Reform e o crescimento do movimento populista. A Palestina não é de todo uma ajuda [para combater] isto”, considera Brian Bivati. Steven Fielding é mais específico: para conquistar eleições, Starmer precisa de se “afastar das políticas do anterior governo conservador”, “melhorar as condições dos trabalhadores britânicos” e “melhorar os serviços públicos”.

O verdadeiro problema é o Reform e o crescimento do movimento populista. A Palestina não é de todo uma ajuda [para combater] isto.
Brian Bivati, professor de história contemporânea e Direitos Humanos na Kingston School of Art

Contudo, mesmo entre as franjas progressistas, não é unânime que reconhecer a Palestina seja suficiente para ganhar mais votos, pelas condições em que o anúncio foi feito: mais tarde do que os aliados — e só depois de muita pressão interna — e de forma condicional. “[A decisão] arrisca reforçar uma perspetiva prejudicial que está a emergir de Starmer: de que ele gasta tempo e capital político significativo a resistir ao seu partido, só para ceder no fim”, descreve o The Times.

O impacto de uma única decisão de política externa não deverá ser suficiente para catapultar os resultados do Labour de Starmer, face a todas as decisões de políticas públicas que têm sido tomadas. No entanto, o contrário é possível: a política externa pode servir para desgastar ainda mais a liderança de Starmer — afinal, como nota a New Statesman, o apoio do seu ídolo Tony Blair a Israel durante a guerra do Líbano apenas “acelerou a sua queda”.

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