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A Grã-Bretanha fez história ao ser o primeiro país a deixar a União Europeia. O Acordo entre a UE e o Reino Unido, que entrou provisoriamente em vigor a 1 de janeiro de 2021, poderá, porém, parecer a muitos mais um episódio de uma história interminável e uma distração indesejável de preocupações mais urgentes. Porém, esta história continua a merecer atenção. Não só pelo que revela sobre o peso crescente de uma política identitária extremada e os riscos de ignorarmos os custos da hiper-globalização desregrada, mas também pelo impacto que pode ter nos interesses de Portugal, ao nível das suas exportações, do turismo ou da diáspora. É também importante pelo que poderá significar em termos de coesão do Ocidente face ao surgimento de novas grandes potências autoritárias.

Ser ou não ser (europeu, britânico): as políticas identitárias do Brexit

Vivemos uma era de política identitária extremada. Do meu ponto de vista, isso raramente tem efeitos positivos. Mas não podemos dar-nos ao luxo de ignorar ou simplesmente rejeitar esta realidade, nomeadamente quando se trata de falar do Brexit. É um facto que sempre existiu na política uma certa dimensão identitária. Aristóteles veio recordar há mais de dois mil anos que o homem é um animal profundamente político. O filósofo é um dos pais fundadores do pensamento político ocidental, que é um dos alvos atuais de um certo discurso identitário, que parece querer valorizar todo o tipo de manifestações de identidade, exceto se forem europeias. Somos um animal social cuja principal vantagem competitiva reside na nossa capacidade para construir comunidades, identificar-se com elas, e trabalhar para o seu bem comum. A política identitária tem assumido, no entanto, várias formas e várias intensidades ao longos dos séculos. Estamos atualmente a viver um período de crescimento de um tipo de política identitária particularmente racializada, radicalizada, censória e excludente, com poderosas manifestações tanto à esquerda como à direita, alimentada por uma forte insatisfação com o sistema político e económico vigente. O Brexit é uma expressão disso mesmo.

Basta recordar que nos meses que precederam o referendo do Brexit, a primeira causa de preocupação de 48% dos britânicos era a questão das migrações. E uma clara maioria dos que votaram pela saída da UE, mais de 70%, afirmam querer recuperar o controlo das decisões pelo parlamento britânico, nomeadamente, no que respeita à questão das migrações ou das importações, mesmo que isso tenha um custo económico. Assim, é só à luz destas opções, mais identitárias e nacionalistas do que pragmáticas e económicas, que podemos perceber alguns dos paradoxos do processo do Brexit.

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