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Notas do debate a 11. Seguro foi "elevar o debate público" e saiu vencedor da "ordinarice" entre Mendes e Gouveia e Melo

As picardias entre Gouveia e Melo e Marques Mendes subiram de tom, com o Almirante a falar novamente em "facilitador de negócios" e Mendes a responder: "ordinarice". Seguro e Cotrim sairam ilesos.

Seguimos o debate em direto neste artigo

Dois momentos marcaram este debate, o único com os 11 candidatos, na RTP: o despique entre Henrique Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes, que ainda roçou António José Seguro, embora este tenha respondido com elegância; e a confirmação, por Jorge Pinto, de uma notícia avançada pelo Observador durante a tarde: admite desistir a favor de Seguro, caso os outros parceiros à esquerda — António Filipe e Catarina Martins — façam o mesmo. Inesperada só mesmo a discussão entre João Cotrim Figueiredo e André Ventura com André Pestana.

O tema era imigração e crescimento económico quando, ao intervir, Gouveia e Melo lançou a pergunta: “Estamos aqui num debate para a Presidência ou para a governação?” Acrescentou que um dos “temas importantíssimos para a Presidência” não tinha sido discutido — “a transparência do sistema que está a atacar a nossa democracia” — e afirmou ser “muito difícil ter candidatos que são facilitadores de negócios” a disputar Belém, apontando diretamente a Marques Mendes. A resposta foi imediata: “Não sou facilitador de negócios. Nunca fui. Especializou-se na ordinarice”, disse Mendes ao Almirante. Questionado sobre o tema, Seguro afastou-se rapidamente: “Estou nesta campanha para elevar o debate público.”

A questão da eventual desistência de Jorge Pinto surgiu quando se discutiam perfis presidenciáveis e o risco de a esquerda ficar fora da segunda volta por dispersão de votos. “O ónus não está em quem foi o único a colocar essa hipótese em cima da mesa. Do que depender de mim, a esquerda passará à segunda volta”, afirmou o candidato apoiado pelo Livre, reforçando: “Não será por mim que António José Seguro não será Presidente.” Catarina Martins criticou-o por não “lhe ter telefonado” para esse consenso, mas António Filipe voltou a negar qualquer saída de cena. Já Seguro deixou uma palavra de conforto a Jorge Pinto, concordando com ele.

Logo no início, o tema foi a Venezuela. Quem destoou da linha crítica em relação à intervenção de Trump foi André Ventura: “É ou não bom um tirano, um ditador, um narcotraficante acabar na cadeia? Perguntem aos venezuelanos que vivem em Portugal. O direito internacional não fala de governos, fala de povos.” Marques Mendes lamentou a “impotência” da ONU, Seguro defendeu a convocação de uma reunião da NATO e Cotrim alertou até para os Açores.

Houve ainda críticas de Cotrim por ser censurado por invocar Sá Carneiro e Passos Coelho — “era o que faltava não poder falar” —, referências aos temas ausentes da campanha e uma série de perguntas rápidas no final, que acabaram por desanuviar o ambiente.

De André Pestana sobressaiu a picardia com Cotrim Figueiredo e André Ventura; de Humberto Correia, a proposta de “habitações de 30 m² por 90 euros por mês e de 50 m² por 150 euros”; e de Manuel João Vieira, a defesa do “direito à felicidade na Constituição”.

Depois de 28 frente a frente televisivos, o debate a oito nas rádios e agora a onze na RTP, as contas finais mostram que, segundo os avaliadores do Observador, Marques Mendes, que esteve quase sempre na liderança, foi o vencedor final, mas com uma diferença mínima para António José Seguro, que venceu o debate com todos da noite desta terça-feira, e Cotrim Figueiredo também muito perto. Um painel de avaliadores do Observador deu notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos e avaliou em texto cada um dos debates (como pode recordar no final deste artigo).

O debate a 11 na RTP

Alexandra Machado — Um debate a onze dá resultado? Nem por isso. Mas permite momentos de pausa para quem vê. Havia alturas em que até era possível esquecer alguns dos intervenientes. E logo a começar pelos que não entraram nos debates a dois. O que levou Henrique Correia a candidatar-se? É uma incógnita e ainda conseguiu dizer sem se rir “se eu for eleito”, para depois falar da habitação e dos 30 m2 arrendados a 90 euros. Uma casa de 30 metros quadrados? Fez-me lembrar alguma coisa. Veja aqui. André Pestana quer alguma coisa que nada tem a ver com a Presidência da República – mas claramente tem a ver com o sindicalismo. Manuel João Vieira pode ter muita piada (nem teve neste debate) mas estamos a falar de coisas sérias (bem sei que foi introduzindo temas importantes com ironia, e isso chega a muita gente) – inscrever a Felicidade na Constituição contém, no entanto, em si, uma ideia relevante e não seria inédito (o Butão tem).

Catarina Martins e António Filipe também têm objetivos específicos e estiveram iguais a si próprios, genericamente bem na defesa das suas ideias. Vamos então aos ponteiros que podem mexer.

Luís Marques Mendes e Henrique Gouveia e Melo não se largam. O militar foi o que mais atacou, não larga as acusações a Marques Mendes sobre facilitador de negócios. E parece estar a conseguir desgastar o candidato apoiado pelo PSD que continua a colar-se mais ao Governo. “Ordinarice”, atirou Marques Mendes, o que fez tirar do sério Gouveia e Melo que só ganhou pontos neste debate quando atacou, ainda que possa não ter agradado a uma parte do eleitorado (ouvindo Seguro responder-lhe, quando também o atacou sem sucesso, que vinha para elevar o debate). Marques Mendes tinha de ter sobressaído mais para atingir os seus propósitos. O mesmo não se passou com André Ventura – que no final voltou a crescer (nos temas que dizem mais aos seus eleitores) –, com António José Seguro (que parece galvanizado agora que a campanha arrancou oficialmente) e com João Cotrim de Figueiredo (que ainda teve a proeza de colocar no debate o tema da segurança social e das pensões baixas, arrastando mais tarde Marques Mendes).

De Jorge Pinto não vale a pena falar porque entregou as cartas a António José Seguro.

Um debate a onze dá resultado?

Miguel Pinheiro — António José Seguro ganhou esta noite pelo menos 1,3% de votos — o valor que a tracking poll da TVI/CNN deu a Jorge Pinto esta quarta-feira. Com a frase “Não será por mim que António José Seguro não será Presidente”, o candidato do Livre pré-anunciou a sua desistência, que, aliás, se tinha tornado inevitável nas últimas duas semanas. Também à esquerda, Catarina Martins e António Filipe provaram, de forma decidida, a sua irrelevância nesta campanha, enquanto André Pestana conseguiu o prémio de passar longos segundos aos berros com André Ventura — se não lhe der votos, dá-lhe pelo menos notoriedade entre os vizinhos.

Gouveia e Melo, sentindo que transformar Marques Mendes em saco de pancada lhe dá votos, insistiu nesse exercício, com notório gozo. E Marques Mendes reagiu apenas com indignação. Resta-lhe apenas transformar-se no candidato do governo — veremos se isso lhe dá os votos suficientes para chegar à segunda volta.

Cotrim Figueiredo e André Ventura comportaram-se como vencedores antecipados, o que é arriscado mas transmite uma confiança que pode ser sedutora.

Humberto Correia existiu. E Manuel João Vieira fez o que se esperava dele, o que era pouco e mau.

Miguel Santos Carrapatoso — Esta noite, António José Seguro e João Cotrim Figueiredo acenderam um charuto e ficaram tranquilamente a assistir ao circo a arder. As campanhas são feitas de narrativas e, nesta corrida em particular, os dois estão a crescer e os demais a patinar e a cometer erros. Com dois pontos extra para Seguro: o socialista acabou a noite imaculado e com o quase endorsement de Jorge Pinto.

Em contrapartida, Henrique Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes continuaram a lavar a roupa suja em público e esteve pior o social-democrata, que já não consegue disfarçar o embaraço e a falta de soluções. Aparente e previsivelmente, este bate-boca está a favorecer mais quem não suja as mãos.

André Ventura, por sua vez, comprou as guerras todas e não levou desaforos para casa — até com o pobre André Pestana discutiu. Manteve a receita, desta vez diluída em 11 decilitros de candidatos, o que lhe retira eficácia e interesse.

Sobre a esquerda: Catarina Martins e António Filipe estiveram iguais a si próprios. Isto é, incapazes de explicar a utilidade das suas candidaturas. Jorge Pinto começou mal (ao tentar negar uma notícia do Observador sobre a sua disponibilidade para desistir), melhorou (ao confirmar uma notícia do Observador sobre sua disponibilidade para desistir) e voltou a piorar ao dizer que o único voto útil é na sua candidatura a 18 de janeiro. De facto, o que nasce torto tarde ou nunca se endireita.

Quanto aos três restantes: dois quererão genuinamente contribuir para o país, mas não estão obviamente preparados para o cargo a que se candidatam; o outro é só uma personagem — e nem teve especial graça esta noite.

Ricardo Conceição — Um debate a onze não é eficaz. Não favorece o confronto de ideias e tirando alguns momentos de picardia, assistimos a uma extensa sucessão de monólogos. Ninguém conseguiu uma exibição para mais tarde recordar. Um 16 a quem teve a paciência e o empenho democrático para ver um debate que arrancou às 22 horas e terminou à meia-noite e meia. Num esforço para não dar a noite por perdida, foi interessante perceber quem está preocupado com quem.

André Ventura não poupou ninguém, mas sobretudo atacou Gouveia e Melo e Marques Mendes. Estes dois, atacaram-se entre si e nenhum foi capaz de superar o outro. Gouveia e Melo voltou às insinuações e Marques Mendes voltou a defender-se incapaz de disfarçar o incómodo.

António José Seguro tentou pairar sobre tudo e sobre todos, mas os planadores não permitem altos voos. Não teve rasgo e disfarça mal os incómodos. Ainda assim, mostrou-se como alternativa a Marques Mendes e a Gouveia e Melo ao não entrar no ringue.

E temos Jorge Pinto, que decidiu dizer que não é por ele que Seguro não chega a Presidente. Uma candidatura com um selo dissimulado de desistência desde o início, que lhe tira credibilidade, afeta o Livre e faz perder tempo precioso de debate.

Cotrim Figueiredo não foi arrebatador, mas, a par de Ventura, foi combativo e não se deixou encurralar pelos ataques pontuais. Ventura e Cotrim foram quem esteve melhor, se o seguirmos o critério da eficácia na conquista de votos. Ambos seguraram e podem até ter conseguido alargar os eleitorados.

E claro, iguais a si mesmos, Catarina Martins e António Filipe ficam na corrida correndo o risco de dispersar votos preciosos à esquerda. Não se destacaram.

E depois, os outros, os extraterrestres desta corrida para Belém. André Pestana não consegue despir o fato de sindicalista com uma proposta radical. Humberto Correia, um homem bem intencionado sem qualquer noção do que é a política. E Manuel João Vieira, que desiludiu ao não ter graça. Foi penoso em vários momentos.

o debate a oito nas rádios

o debate entre Catarina Martins e Jorge Pinto

o debate entre António José Seguro e António Filipe

o debate entre Cotrim Figueiredo e André Ventura

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