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O ano mais longo da vida de Iker Casillas: o chumbo no primeiro teste, o regresso impossível, o sonho da Federação e o cancro da mulher

A notícia caiu como uma "bomba": Iker Casillas, um dos melhores guarda-redes de todos os tempos, tinha sofrido um enfarte. Um ano depois, não voltou a jogar. E a sua vida não voltou a ser a mesma.

Quarta-feira, de manhã, treino. Ou mais uma manhã de quarta-feira onde havia treino. Como sénior, sem contar os anos em que representava o Real Madrid nas camadas jovens, já levava 20 anos daquela vida e a única coisa que podia mudar numa quarta-feira era se havia treino de manhã ou à tarde ou estágio para jogo à noite. Mas essa quarta-feira de 1 de maio foi diferente. Tão diferente que não mais foi esquecida, pelo próprio e por milhares de fãs que nesse dia ficaram em suspenso com as notícias que chegavam das urgências do Hospital da CUF, no Porto. 

Iker Casillas. “Tudo controlado por aqui, um susto grande, mas com as forças intactas”

Ainda numa fase inicial do treino, numa semana que estava a ser marcada pelo empate do FC Porto uns dias antes em Vila do Conde frente ao Rio Ave com dois golos sofridos nos últimos minutos, quando estava num exercício onde fazia algumas defesas na baliza antes de trocar com Vaná e passar para uma zona ao lado para abdominais, o espanhol sentiu uma dor forte no peito, depois uma reação estranha na boca e nos braços. Nunca chegou mesmo a desmaiar mas não percebia o que estava a acontecer, ao contrário de Nelson Puga, médico dos azuis e brancos que teve noção da gravidade de uma situação que, por ter acontecido naquele contexto, foi logo resolvida.

Transportado de urgência após um enfarte agudo do miocárdio para o Hospital da CUF, onde estava já uma equipa em alerta e prevenção mal o espanhol chegasse, foi feito o diagnóstico e logo de seguida um cateterismo que resolveu de forma célere a situação, estabilizando por completo o quadro clínico. Ficou, sobretudo, como um susto. Um enorme susto que saltou fronteiras e fez notícia um pouco por todo o mundo por se tratar de um dos melhores guarda-redes de sempre com um dos maiores currículos do futebol mundial entre Real Madrid, FC Porto e também a seleção espanhola onde foi campeão mundial e bicampeão europeu. Um ano depois, o que mudou na vida de Iker Casillas? Numa série de atos, entrevistas e publicações nas redes sociais, muita coisa.

Mal saiu do hospital, menos de uma semana depois do enfarte, Casillas constatou a popularidade que goza no Porto

AFP via Getty Images

“Estive triste durante, aproximadamente, um mês. Tinha medo de andar, dormir, de fazer qualquer tipo de esforço físico. Era impossível. Agora não estou preocupado, sinto-me bem. Mas também tenho muita medicação para me fazer sentir bem. Creio que só os médicos podem dizer o que posso ou não fazer. Comecei a dar mais valor aos momentos que passo. Às vezes nós, os jogadores, não valorizamos o que temos e não acreditamos que podemos fazer muita gente feliz. E isso mudou“, referiu na semana passada, numa conversa através das redes sociais com Michel, antigo companheiro de equipa do Real Madrid que é hoje treinador do Pumas do México.

O doutor agiu com rapidez e salvou-me a vida. Vou estar para sempre agradecido a Nelson Puga e a toda a aquela gente que me ajudou. Foi um dia cinzento mas de agradecimento. Se tivesse acontecido noutro lugar, não estaria aqui a falar”, tinha dito antes numa conversa com jogadores do Real Madrid.

“E assim, sem ter dado conta, um ano. Não sou dos que olham para o caminho percorrido. Não sou dos que se gabam das coisas terem corrido bem, mas nesta ocasião sinto-me feliz por ter superado um grande obstáculo na minha vida. Foi, sinceramente, emocionante. Teve terror, drama e certas doses de ficção científica. E, claro, humor!”, escreveu esta sexta-feira, acrescentando a hashtag “Sou dos que vêem a garrafa meio cheia”.

Do teste físico em que quase desmaiou ao regresso aos relvados (seis meses depois)

“Semana importante para mim em termos pessoais, está a aproximar-se um dia muito especial para a minha vida. Saltam na minha cabeça muitas recordações, a primeira aquele 12 de setembro de 1999 quando me estreei como guarda-redes da equipa principal do Real Madrid… 4 dias… #hace1año“, escreveu esta segunda-feira à tarde Iker Casillas na sua página das redes sociais. Pouco depois, apagou a mensagem. Mas a “ideia” tinha sido deixada.

Depois de ter recebido família, amigos próximos e todo o plantel e estrutura do FC Porto, o guarda-redes espanhol deixou o hospital seis dias depois do enfarte. Com a mulher, Sara Carbonero, a seu lado, de camisa branca apertada até acima, o número 1 agradeceu o apoio de todos (incluindo adeptos que lhe foram deixando inúmeras mensagens perto da unidade de saúde onde recuperava e no Dragão, no jogo com o Desp. Aves) e revelou-se emocionado pela onda que se criara. “É algo que pode acontecer a qualquer pessoa durante a vida e aconteceu-me a mim. É difícil falar mas tenho de estar agradecido, tive muita sorte. Quero agradecer ao hospital, ao doutor Nelson Puga, a toda a gente do FC Porto que me ajudou muito rápido… Estou muito melhor. Será um repouso de um par de semanas ou meses, não sei. O importante é estar aqui. Um pouco emocionado, mas estou bem”, disse.

Iker Casillas nega retirada dos relvados: “Deixem-me anunciar essa notícia quando chegar o momento”

Ainda nesse mês, mais no final, Casillas fez questão de estar com a equipa e viajar para Lisboa para assistir à final da Taça de Portugal no Jamor, frente ao Sporting (que os dragões acabaram por perder no desempate por grandes penalidades, tal como tinha acontecido na Taça da Liga, em janeiro). Mais tarde, no início de julho, esteve também no regresso da equipa aos trabalhos no Olival, chegando pouco depois das 8h da manhã naquela que acabou por ser a grande surpresa do dia (e que não se repetiu no dia seguinte, por exemplo). Em setembro, quando se deslocou a Pozuelo para a apresentação da equipa com a qual colabora, colocou uma data no “processo”.

Casillas esteve na final da Taça com os companheiros no Jamor, menos de um mês depois do enfarte. Soares dedicou-lhe um golo

Pedro Fiuza

“É um processo rápido em termos físicos mas lento no que diz respeito à tomada de uma decisão. Em março o médico irá avaliar-me e não irei correr riscos se eles existirem. Por agora, continuo a recuperar e ver que caminho seguirá o meu corpo”, disse então o guarda-redes. No final desse mês, passou uma sexta-feira pelo Olival (pelo menos em termos públicos isso ficou conhecido) onde vestiu o equipamento de treino do FC Porto, calçou os ténis e deixou uma imagem com a frase “Um alongamento é tão importante como um bom treino”. Nessa fase, no plano físico, Casillas ia sobretudo fazendo passadeira e outro tipo de exercícios menos puxados. Em novembro, seis meses e três dias depois do enfarte, calçou as chuteiras e a fazer trabalho no relvado, cerca de 25 minutos.

Iker Casillas nunca é um homem 100 objetivos. “Bom, bonito, mas deixa-me um pouco triste”, ironizou

Numa das muitas conversas que foi tendo nas redes sociais no último mês, o espanhol contou o que sentiu quando fez o primeiro teste de esforço depois do enfarte. “Nesta altura já não sinto insegurança mas no início estava mais receoso e com mais nervos. Lembro-me que a primeira prova que fiz em Espanha quase que me fui abaixo, quase que desmaiei. Foi apenas três semanas depois, fui um inconsciente”, admitiu. Agora, o cenário é diferente. “Há cerca de um mês fiz uma prova de esforço e correu bem. É por isso que quero apresentar-me a eleições à Federação Espanhola de Futebol mas agora o mais importante é acabar com a pandemia”, assumiu. E essa foi talvez a maior mudança na vida do guardião, com aquilo que começou como um mero rumor a tornar-se realidade.

"Nesta altura já não sinto insegurança mas no início estava mais receoso e com mais nervos. Lembro-me que a primeira prova que fiz em Espanha quase que me fui abaixo, quase que desmaiei. Foi apenas três semanas depois, fui um inconsciente", admitiu.

“O Iker Casillas, antes de anunciar a sua candidatura [à Federação Espanhola de Futebol], veio ao Porto almoçar comigo e comunicar a sua decisão de terminar a carreira. Fiquei muito comovido e contente com a atitude que teve. Foi impressionante durante toda a sua carreira, esteve apenas em dois clubes, o FC Porto e o Real Madrid, e como homem está em atividade plena. Fará falta como pessoa, pois ainda antes do jogo em Guimarães, enviou-nos uma mensagem em vídeo, que ele mesmo filmou e que foi partilhada no nosso balneário, antes do jogo”, comentou Pinto da Costa, em fevereiro, quando foi assumido pela primeira vez por alguém que o espanhol tinha mesmo colocado um ponto final na carreira, algo que o próprio foi sendo tentando retardar ao máximo.

“Iker for president”. Casillas avança para liderança da Federação – e com isso irá anunciar final da carreira

“Sim, vou candidatar-me à presidência da RFEF quando se convocarem eleições. Juntos vamos pôr a nossa federação à altura do melhor futebol do mundo: o de Espanha”, assumiu o espanhol a meio de fevereiro. Essa luta até começou com uma “derrota”, depois da marcação do sufrágio pelo Conselho Superior dos Desportos para junho (a pedido do atual líder da Federação), mas encontra-se nesta altura adiada – sendo que houve entretanto mais uma polémica com Luis Rubiales, uma figura que em menos de dois anos tem estado envolto em vários temas sensíveis ligados ao futebol entre escolhas de selecionadores, guerra da Liga ou batalhas com a MediaPro.

O cancro da mulher, as pazes com os pais e o novo desafio: liderar a Federação

Mesmo longe nos relvados, pelo menos a jogar (e, em condições normais, o guarda-redes iria bater o recorde de jogos realizados pelo FC Porto numa época em 2018/19, quando já levava 42 e estava a um de igualar os 43 de 2016/17), Casillas, sempre muito ativo nas redes sociais e com opiniões muitas vezes além do futebol, tem sido uma particularmente presente até nesta fase de confinamento, não só com conversas com antigos companheiros de equipa no Real Madrid, no FC Porto ou na seleção espanhola mas também com opiniões/sugestões no seu meio.

Uma das sugestões lançadas num desses chats, seguidos sempre por milhares de fãs, passou pelo lançamento da ideia de um encontro de cariz social entre antigas glórias do Real Madrid e do Barcelona para angariar verbas para ajudar as famílias assoladas pela pandemia. Outro dos pontos, este mais “polémico”, passou por uma solução out of the box para o final dos campeonatos e que passava pela conclusão das provas no ano civil e não no verão, tendo presente a realização do Campeonato do Mundo de 2022 do Qatar no inverno (o que vai obrigar a mexer todo o calendário nessa época de 2022/23). Pelo meio, há sempre uma ideia presente e que entronca no futuro projeto a curto e médio prazo: rodear-se da geração de ouro espanhola para poder liderar a Federação de futebol.

"Há 11 meses e 14 dias que não posso dedicar-me à minha grande paixão desde pequeno, ser guarda-redes", escreveu nas redes sociais este mês, com uma imagem a jogar na formação do Real Madrid.

Casillas sempre teve um desejo escondido de acabar a carreira a jogar. E foi sempre essa a vontade do espanhol, que explica por exemplo a referida prova física apenas três semanas depois do enfarte onde percebeu que o corpo não estava a reagir da mesma forma (pelo menos aí, mais tarde já cumpriu uma prova de esforço sem problemas). Algumas publicações que vai fazendo nas redes sociais, como uma fotografia sua quando era mais pequeno mas já com o equipamento do Real Madrid em jogo – “Há 11 meses e 14 dias que não posso dedicar-me à minha grande paixão desde pequeno, ser guarda-redes”, escreveu – ou uma imagem da célebre bola Mikasa num campo pelado (aquela bola que era “Duro de cojones” e que doía horrores a quem fosse atingido) mostram também isso. Ou a escolha da melhor defesa de sempre na carreira, que muitos apontavam para a final da Champions de 2002 com o Bayer Leverkusen ou para um jogo com o Sevilha mas que afinal é o lance com Arjen Robben na final do Campeonato do Mundo de 2010, uma parada que valeu na altura um passo gigante para a conquista do título.

No entanto, nostalgia à parte, há muito que a decisão de anunciar o final oficial da carreira foi sendo assumida em termos internos e a própria vida familiar e tudo o que se passou este ano “ajudou” a consolidar essa decisão.

A passar a quarentena na casa que tem na Foz por decisão partilhada com a família, Iker Casillas, que recentemente mostrou o novo visual de cabeça rapada, tem saído apenas para passear o cão Agustito e pouco mais, respeitando o atual estado de confinamento com a mulher, Sara Carbonero, e os dois filhos, Lucas e Martín. Apesar de terem ambos menos de 40 anos (o guarda-redes fará 39 a 20 de maio, a jornalista e apresentadora tem 36), encontram-se no grupo de risco devido aos problemas de saúde que marcaram um ano de 2019 difícil em termos pessoais.

Iker Casillas com a mulher, Sara Carbonero, e os filhos, Lucas e Martín, na festa da vitória no Campeonato em maio de 2018

Getty Images

Poucas semanas depois do enfarte do guarda-redes, uma situação complicada até pela distância entre ambos nessa fase (a apresentadora estava a gravar programas em Madrid), Sara Carbonero foi diagnosticada com um tumor nos ovários, o que levou a um maior recolhimento da família durante a fase de tratamentos que acabou por ser mais demorada do que inicialmente previsto mas que terminou em novembro de 2019. Depois desses tempos difíceis, a família passou o Natal em Espanha, com passagens por Corral de Almaguer (local de nascimento de Carbonero) e Navalacruz (onde nasceu Casillas) antes de celebrarem o Dia dos Reis na Plaza Mayor, em Madrid. Logo no início da pandemia, e por força das circunstâncias vividas no último ano, voltaram para ficar no Porto.

Mesmo em confinamento, o casal tem participado em várias ações relacionadas com o combate à pandemia: Sara Carbonero, que colabora há muito com a UNICEF, esteve numa campanha e organizou uma doação que permitiu comprar máscaras e material médico, ao passo que Casillas participou agora também num vídeo da FIFA. Ainda na semana passada, e para que a população em geral tivesse consciência da necessidade de cumprir todas as regras de confinamento ainda existentes, o guarda-redes “apresentou” a sua avó Nica no Instagram. Também neste plano mais familiar este foi um ano diferente para Iker, que terá colocado um ponto final nas divergências com os pais José Luis e Mari Carmen que se arrastavam há cerca de dez anos por questões financeiras. Além da visita quando ainda estava hospitalizado, já terão estado juntos noutros momentos como o aniversário dos filhos.

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“Adoro esta cidade [o Porto], encanta-me. Uma cidade que dá tranquilidade para mim é muito importante, sair à rua e poder caminhar com as pessoas era o que precisava. Desde o primeiro momento que me deram muito carinho e só tenho palavras de agradecimento ao FC Porto e ao país. Quando penso que um dia abandonarei a cidade, fico triste. Sinto-me daqui”, citava esta semana o El País, que escreve também sobre o fim dos passeios de bicicleta e as séries que vai vendo, como a Casa de Papel ou outras mais antigas que nunca tinha visto como House of Cards.

“Tenho que ser realista. Em primeiro lugar está a saúde, tenho que recuperar, seguir indicações dos profissionais. Estou bem agora, sinto-me forte e melhor que antes, mas sem esta medicação seria diferente”, disse na semana passada em entrevista às plataformas do FC Porto, onde recordou várias histórias e elogiou Pinto da Costa e Vítor Baía. Há um ano, a vida de Iker Casillas mudou. Um ano depois, a vida de Iker Casillas continua a mudar. Mas nem por isso deixa de ser uma figura com impacto global, que e começa a reinventar em busca de uma nova era no futebol espanhol depois de ter marcado também uma era do futebol espanhol antes de chegar ao FC Porto.

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