O colapso das barragens, a vaga de doenças e a falta de água potável. Os perigos que se seguem em Moçambique /premium

20 Março 2019404

O país tenta recuperar da destruição deixada pelo ciclone Idai mas a previsão de novas chuvas aumenta o risco de colapso de barragens. Os centros de saúde não funcionam e não há água potável.

As imagens que chegam de Moçambique são elucidativas. Rios de lama correm a alta velocidade por cima daquilo que julgamos terem sido estradas. Havia também antigas casas, campos e descampados. As palmeiras estão dobradas pela força do vento. O céu continua carregado de nuvens que prenunciam fortes chuvadas para os próximos dias na Beira, uma cidade que já está debaixo de água.

Ainda não é possível fazer conta aos danos causados pelo ciclone Idai mas parece certo que, seja qual for, o número que existe agora vai aumentar nos próximos dias. A chuva intensa e a trovoada forte vão prolongar-se pelo menos até domingo, piorando o cenário. Um caos de lama, terra e água que pode piorar se as barragens forem abertas ou colapsarem. A tragédia já tem contornos gigantes. Mas ainda é muito cedo para se retirarem conclusões.

Os números da tragédia

As contas são preliminares. Para já contabilizavam-se oficialmente 202 mortos só em Moçambique. Juntando a este número a contagem do Malawi e do Zimbabué, os outros dois países que também foram fustigados pelo ciclone Idai, são já 356 as vítimas mortais. Mas as autoridades falam em muito mais.

O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, afirmou que só naquele país podem existir mais de 1.000 mortos. Sobretudo porque a catástrofe ainda não terminou. Os rios de lama continuam a correr e vão deixando submersas povoações. É impossível calcular a área atingida assim como a dimensão do impacto deste ciclone. Calcula-se que haja perto de 400 mil pessoas afetadas.

O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, afirmou que só naquele país podem existir mais de 1.000 mortos. Sobretudo porque a catástrofe ainda não terminou. Os rios de lama continuam a correr e vão deixando submersas povoações. É impossível calcular a área atingida assim como a dimensão do impacto deste ciclone. Calcula-se que haja perto de 400 mil pessoas afetadas.

No Zimbabué, que, segundo relatam os media locais, foi o país menos afetado dos três, há pelo menos 200 desaparecidos e estima-se que mais de 11 mil pessoas tenham ficado desalojadas na sequência da passagem do ciclone. Já sobre o Malawi as informações são mais escassas. Sabe-se apenas que há pelo menos 56 mortos e 577 feridos, com mais de 920 mil pessoas afetadas nos 14 distritos atingidos, das quais 460 mil são crianças.

A contribuir para que esta contabilização seja mais difícil e necessite de constantes atualizações está o facto de haver ainda três riscos principais: as intensas chuvas, a possibilidade de colapso – ou, para o evitar, de abertura – de barragens e as doenças que podem ser proliferadas pela água.

As chuvas que se avizinham e as barragens que ameaçam colapsar

Uma das maiores incógnitas neste momento passa por saber quando é que o clima vai melhorar e qual será o rasto de devastação final. É que depois de tudo ficar alagado pelo ciclone, as fortes chuvas que aí vêm podem contribuir para aumentar o nível das cheias e das inundações e dificultar os trabalhos de resgate e de levantamento dos danos causados.

De quinta-feira a domingo, a Beira, que se estima que tenha sido destruída em cerca de 90%, vai continuar a ser fustigada por chuvas, sendo que quinta e sexta-feira serão os dias com mais precipitação, trovoada e vento. Junto à cidade há vários rios, sendo que alguns se uniram num só tal o volume da água.

De quinta-feira a domingo, a Beira, que se estima que tenha sido destruída em cerca de 90%, vai continuar a ser fustigada por chuvas, sendo que quinta e sexta-feira serão os dias com mais precipitação, trovoada e vento. Junto à cidade há vários rios, sendo que alguns se uniram num só tal o volume da água.

A subida do volume de água irá contribuir também para continuar a sobrecarregar as barragens que já se encontram saturadas e no limite. Uma situação que foi reconhecida pelo próprio Presidente de Moçambique, que pediu às pessoas que vivem perto do rio para deixarem as suas casas de modo a conseguirem “salvar as suas vidas“. Filipe Nyusi admitiu ainda que as autoridades poderiam não ter outra escolha senão abrir as barragens, por haver risco de colapso.

“O grande drama é haver barragens que não resistem à quantidade de água. Portanto pode ser preciso abrir as barragens. Ou então as barragens podem rebentar por não terem sido abertas”, sublinhou, em declarações à TSF, o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa Pedro Miranda, doutorado em meteorologia.

“Essa gestão depende também do histórico. Eu não tenho acompanhado a meteorologia de Moçambique mas se houve um período de chuvas em que se acumulou muita água e se encheram as barragens já não há capacidade de reserva. A situação depende também do azar. As barragens têm um limite e isto pode ter acontecido já com o sistema sobrecarregado, o que obriga a aberturas e descargas. Agora, fazer descargas num sistema já saturado e com torrentes de lama é muito perigoso”, acrescentou ainda.

Já na tarde desta quarta-feira, a embaixada de Portugal em Moçambique referiu em comunicado que, devido ao risco de fortes precipitações previstas para os próximos dias e ao volume crescente do nível das águas em várias barragens da região e países vizinhos,“não é de excluir que se venham a verificar descargas das mesmas, como forma de evitar o seu colapso com consequências muito mais gravosas”.

Cólera, pneumonias e infeções respiratórias

Foram várias as ONG’s que prontamente se dirigiram para a Beira para fornecer ajuda humanitária e auxiliar a cidade a recuperar do pós-tragédia. Uma das instituições que mais trabalham neste tipo de tragédias é a dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), que já se encontra com uma equipa reforçada no local. O responsável pela organização em Portugal, João Antunes, explica que o cenário que os MSF encontraram foi de “devastação total“.

[Vídeo. Os sobreviventes à espera de resgate nos telhados]

Ao Observador, explica que “as condições” para os profissionais de saúde que fazem parte desta organização costumam ser pouco favoráveis. “Estamos habituados a isso”, reforça. No entanto, os colegas de João Antunes relataram que a situação com que se depararam na Beira foi especialmente impactante. “Em primeiro lugar, a acessibilidade é muito limitada e estimo que venha a ser um dos principais problemas a resolver”, especula. Mas há um segundo fator que afeta diretamente o trabalho dos MSF: “Sabemos que os 17 centros de saúde da Beira ficaram destruídos. Já o hospital foi atingido e ficou apenas parcialmente destruído, tendo-se mantido operacional”.

O tratamento dos feridos graves e de pessoas com problemas de saúde “é a prioridade mais imediata” neste tipo de situações. “Apesar de o sistema de saúde da Beira estar a funcionar de forma parcial, o hospital conseguiu, nos últimos dias, dar tratamento a cerca de 1.500 pessoas feridas na sequência do ciclone Idai”, sublinha João Antunes.

No caso de Moçambique, "a falta de condições sanitárias e a ausência de água potável vai certamente potenciar diarreias e a proliferação de cólera". As pessoas estarem em condições de emergência e mais expostas ao frio e às precipitações, pode trazer vagas de "pneumonias e infeções respiratórias" num cenário menos imediato.

Depois de resolvido este problema mais urgente, os médicos ajudarão a fazer um levantamento dos riscos que a tragédia pode ter para a saúde das pessoas. No caso de Moçambique, “a falta de condições sanitárias e a ausência de água potável vai certamente potenciar diarreias e a proliferação de cólera”.

Além destes riscos, João Antunes afirma que o facto de as chuvas continuarem depois da destruição de casas, que obrigou as pessoas a estarem em condições de emergência e mais expostas ao frio e às precipitações, pode trazer vagas de “pneumonias e infeções respiratórias” num cenário menos imediato.

Para que o tratamento de todas estas situações seja adequado e para que o número de médicos disponíveis seja suficiente para fazer face a estes desafios, João Antunes espera que tanto “a água potável como o saneamento necessário sejam assegurados na cidade da Beira”.

A MSF tem uma equipa fixa em Moçambique, que se deslocou de imediato para a cidade da Beira, mal as primeiras notícias da devastação vieram a público. A estes profissionais juntaram-se mais seis a meio da semana, vindos de outros países. João Antunes acredita que, de acordo com as informações que vai obtendo desde o local, o dispositivo operacional desta ONG venha a aumentar “nas próximas 24 ou 48 horas“.

“Este ciclone teve sempre um comportamento errático”

Se é certo que é comum assistir a ciclones tropicais em Moçambique nesta época do ano não se pode considerar frequente um rasto de destruição tão grande como o que foi registado depois da passagem do Idai. “Hoje em dia é possível prever de forma mais ou menos acertada o comportamento dos ciclones, mas este teve sempre um comportamento errático“, explica o professor da Universidade do Minho Alfredo Rocha, especialista em meteorologia.

“Há algum tempo que tenho vindo a seguir a evolução do ciclone Idai e estranhei que as previsões quanto ao seu comportamento se fossem alterando dia após dia“, prossegue. O fenómeno tem características muito próprias que enfraqueciam qualquer previsão. “Este ciclone esteve três dias parado em terra. Uma situação muito pouco comum porque normalmente quando os ciclones entram em terra perdem força. Este não foi o caso”, explica.

Outro motivo que pode ter contribuído para a imprevisibilidade do Idai prende-se com a geografia do país. “A costa de Moçambique é côncava, tem uma curva. Esta estrutura faz com que o vento empurre o ciclone para terra“, detalha Alfredo Rocha. No entanto, nunca nenhum ciclone foi tão devastador quanto este e já houve vários que atingiram Moçambique entrando precisamente por esta zona.

As razões para que a evolução do Idai não fosse tão comum como a de outros ciclones ainda não se conseguem apurar. Para já. “Agora ainda é cedo” para se retirarem conclusões embora se possa começar já a estudar o fenómeno. “Os dados relativos ao ciclone estão todos registados e podem ser consultados”. Por exemplo, já é possível saber que os ventos máximos atingiram os 200 quilómetros por hora e que a sobre-elevação do nível do mar foi entre dois metros e dois metros e meio.

Já é possível saber que os ventos máximos atingiram os 200 quilómetros por hora e que a sobre-elevação do nível do mar foi entre dois metros e dois metros e meio.

Tal como ainda é precipitado associar este fenómeno às mudanças no clima. “Embora haja estudos que provem que os ciclones tropicais vão ganhar intensidade devido às alterações climáticas é muito complicado associar um fenómeno específico às alterações climáticas“, explica o docente da Universidade do Minho. Só mais tarde, quando se fizer uma retrospetiva de vários fenómenos semelhantes é que será possível traçar um padrão e enquadrar – ou não – este ciclone no grupo das consequências das alterações climáticas.

Da parte dos meteorologistas “não era possível ter feito mais“. Emitiram-se os avisos prévios necessários. Parte da gravidade das consequências deve-se às condições das habitações atingidas pelo ciclone. “E isso é um problema que não se vai conseguir resolver nos próximos vinte anos”, lamenta o meteorologista.

[Vídeo: “Não há comida, não há socorro”. Moçambique desespera por ajuda]

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