O escritório onde trabalha é inteligente?

18 Dezembro 2017267

Espaço aberto, sem gabinetes, nem locais fixos. Acesso por cartão ou por "app". Luz e calor são controlados a nível central. Edifícios Inteligentes porque são confortáveis, mas também porque poupam.

Sabe onde mora e o carro que conduz. Sabe quanto açúcar põe no café e qual o sabor ou intensidade que prefere. O dia num dos edifícios de escritórios mais inteligentes do mundo começa com uma aplicação de smartphone desenvolvida pelo principal inquilino, a empresa de auditoria e consultoria Deloitte. Quando acorda fica logo ligado. A app confirma a agenda do dia e o prédio reconhece o seu carro quando chega, dirigindo-o para o local de estacionamento. É também através da app que saberá onde se vai sentar — aqui não há lugares marcados nem gabinetes. A área de trabalho é organizada em função do horário e agenda de cada um, lugar sentado, lugar de pé, cabine, sala de reunião, lugar de balcão ou sala de concentração. Onde quer que vá, a app sabe quais são as suas preferências de luz e temperatura e ajusta o ambiente aos seus gostos, dentro de certos limites.

Esta descrição, com algumas adaptações, é retirada de uma reportagem da agência Bloomberg a propósito das instalações da Deloitte em Amesterdão, no edifício conhecido como o The Edge, que é uma referência também a nível ambiental e que recebeu o galardão de edifício mais verde do mundo. A agência britânica BREEAM deu-lhe deu a nota mais alta em sustentabilidade: 98,4%. A eletricidade produzida através de painéis solares é superior à consumida pelo edifício — em vez de comprar, vende energia.

O The Edge é uma espécie de Rolls Royce — a comparação com um Tesla seria mais adequada — dos edifícios de escritórios inovadores. As instalações da Deloitte em Portugal não atingem a mesma nota na escala dos edifícios inteligentes, mas também são uma referência para a inteligência aplicada a um local de trabalho. A auditora ocupa a maior parte de um edifício de escritórios na Avenida Duarte Pacheco, em Lisboa, e claramente deixou a sua marca. A começar pelo lobby partilhado onde a primeira imagem que marca o olhar é uma parede viva, forrada com trepadeiras e vegetação, e na qual estão inseridas imagens.

Em Lisboa, não se levou tão longe a internet das coisas, explicou ao Observador Miguel Paiva Couceiro, partner da Deloitte Portugal, que fez uma visita guiada às instalações. Houve a preocupação de evitar os aspetos mais intrusivos, como a tal app que permite saber, a cada momento, a localização exata do colaborador dentro do edifício.

A empresa começou a preparar a nova sede anos antes, quando percebeu que o espaço que ocupava no Saldanha já não respondia às necessidades. Foram visitados vários escritórios da rede Deloitte na Europa – mas nem todas as soluções se adequam à realidade portuguesa. Exemplos? Em Oslo há uma silent room (sala de silêncio) onde podem trabalhar até 50 pessoas em equipa. Em Portugal, isso seria impensável, somos mais ruidosos e distraímo-nos com maior facilidade. Miguel Paiva Couceiro sublinha que o principal objetivo foi o de “criar um espaço em que os colaboradores locais se sentissem confortáveis”.

As novas instalações foram planeadas ao detalhe — geridas por uma equipa disciplinar que fixou um caderno de encargos entregue a um arquiteto. Já a mudança foi de rajada. Aconteceu de 4 para 5 de outubro de 2015, antes de esse dia ter voltado a ser feriado. Os funcionários foram aconselhados a trazer apenas uma mochila, com o computador e algumas, poucas, coisas pessoais. É uma orientação que encaixa na estratégia de ocupação espacial da Deloitte: um mega-escritório em espaço aberto, com o fim dos gabinetes privados. Existem espaços diferenciados e até reservados, mas ninguém tem lugares marcados.

Miguel Paiva Couceiro justifica: a maioria dos quadros é muito jovem — a média etária está nos 28 anos — e estão sempre em mobilidade, seja a trabalhar em projetos fora de portas, seja com os clientes. Nas anteriores instalações, onde existiam mais de cem gabinetes, chegou-se à conclusão que a taxa de ocupação era muito baixa. E com a facilidade das novas tecnologias e comunicações, os gabinetes individuais tornaram-se redundantes.

A Deloitte Portugal tem 2.800 colaboradores, em quatro escritórios – incluindo Angola. Em Lisboa estão cerca de 1.200. Não existem secretárias fixas, com a exceção do secretariado. As assistentes executivas trabalham numa pool, já não estão do outro lado da parede do chefe, e comunicam por mail ou chat. Miguel Paiva Couceiro garante que há lugar para sentar todos. Não será necessariamente o local favorito, porque quem chega primeiro…

E esta filosofia foi bem aceite? Houve reservas, sobretudo por parte dos mais velhos, que estavam mais habitados a um espaço só seu. No Saldanha os escritórios dos partners (sócios) estavam situados em redor das zonas com janela e luz exterior. Os outros trabalhavam na parte interior, sem luz natural. Agora todos têm luz natural. Chamam-lhe a “democratização da luz”.

Perderam o escritório privado, mas têm outros mimos. Foram criados os partners lounge, um espaço reservado apenas para partners (na Deloitte Portugal há entre 50 e 60) onde se procura promover o encontro de responsáveis de várias áreas, consultoria, auditoria, impostos. Porque quando falam entre si, surgem também novas oportunidades de negócio. O acesso está aberto, mas é raro entrarem outsiders.

Aqui há também gabinetes onde se pode estar isolado, embora as paredes sejam transparentes. Este conceito criado em Portugal é inovador na rede Deloitte e já foi exportada para a Alemanha.

Se os lounges dos partners são inspirados nos espaços dos aeroportos para os passageiros da classe executiva — o último andar faz lembrar um hotel de luxo. É aqui que estão situadas as duas salas de clientes, com vista privilegiada, decoração esmerada e temática (Lisboa e Nova Iorque), onde se pode tomar uma refeição e até fumar (é o único sítio do edifico onde é permitido), o que exige uma extração própria.

O sítio mais exclusivo, além dos locais onde se guardam os documentos confidenciais, é a Sala Nato, um espaço para clientes especiais, projetos super-secretos com temas altamente sensíveis, que exigem um nível de segurança de Estado. Já foi usado? Não respondem.

Sem lugares marcados não há mesas onde se possa acumular papel

Para a generalidade dos trabalhadores, há fun rooms, salas para descontrair com decoração temáticas onde os colaboradores podem tomar café, comer um snack, ver televisão e conversar. Há ainda espaços para reunir equipas e cabines para conversas privadas ou mais reservadas ao telefone.

Sem gabinetes, nem local fixo para trabalhar, ficou mais fácil acabar com o papel, “sensível”, em cima das mesas. Os colaboradores têm um cacifo individual e quem deixar papelada à vista é avisado. Ainda mais quando a probabilidade de os documentos serem confidenciais é elevada, numa empresa que se dedica à auditoria de contas e à consultoria a grandes clientes empresariais. Até a localização dos caixotes de lixo se enquadra na regra do não papel — só existem nas zonas de projeto.

A par da aposta na desmaterialização e digitalização dos documentos, existem também zonas de reciclagem e contentores especiais para destruir papéis, onde é colocado o material para ser processado por uma empresa externa. E há, ainda, espaços reservados para guardar documentos confidenciais e que estão sob o comando do partner da área (sala reservada com acessos limitados).

Em 2013, com a crise no auge, também na Deloitte cresceu o número de funcionários a levar marmita para o trabalho. Começou por ser uma questão económica, mas evoluiu para uma opção de estilo de vida que passa também por escolher o que comer e não ficar sujeito à oferta existente. A área da comida junta dois espaços, um dedicado a quem traz a marmita, equipado com frigoríficos e micro-ondas para aquecer. A empresa fornece a louça e assegura a sua lavagem, para evitar o caos de de cada funcionário ir lavar o seu prato. O café, o azeite, e algumas bebidas são oferecidas. Ao lado, fica um espaço concessionado a uma cadeia de comida saudável.

E quanto custou? Miguel Paiva Couceiro não revela números, mas garante que o investimento será recuperado entre oito a dez anos, o tempo que a Deloitte pensa ocupar o edifício. A poupança de energia é da ordem dos 30%, acrescenta.

Energia. A maior fatura

O conforto e a segurança são preocupações centrais nos novos escritórios, mas os fornecedores reconhecem que o argumento económico pesa muito na hora de contratar soluções. O investimento em soluções inteligentes pode representar um custo adicional de 10% na fase da construção, mas pode permitir poupanças até 20% no ciclo de vida de um edifício, 20/30 anos, embora exija atualizações. E nada pesa mais na fatura do que o consumo energético.

O investimento em soluções inteligentes pode representar um custo adicional de 10% na fase da construção, mas pode permitir poupanças até 20% no ciclo de vida de um edifício, 20/30 anos, embora exija atualizações. E nada pesa mais na fatura do que o consumo energético. 

Reduzir os gastos de energia é uma preocupação constante. Na Caixa Geral de Depósitos, por exemplo, a conta chega aos 250 mil euros por mês e a três milhões de euros por ano. É muito? Já terá sido mais. O banco do Estado fez um grande esforço de racionalização e upgrade nos sistemas que permitiu poupança energética da ordem dos 40%. Infelizmente, os efeitos nas faturas acabaram por ser boicotados pelo agravamento do IVA sobre a eletricidade e 2011. Ainda assim, os responsáveis pela gestão do edifício que conversaram com o Observador sublinham ter conseguido manter o mesmo custo, anulando o impacto dos impostos.

Se o foco na redução do gastos de energia é total, ainda são poucos os edifícios que produzem eletricidade. A sede da EDP é um deles, está equipada com painéis de produção fotovoltaica e de solar térmico (água quente). Ainda na linha da pegada ecológica e da sustentabilidade, um tema sempre caro a uma empresa de energia (o setor é um dos maiores emissores de dióxido de carbono), existem dispositivos de recolha da água da chuva para utilização no sistema de esgotos.

Já a Caixa orgulha-se de ter na sua sede a maior central do país aplicada num edifício de serviços. A central de painéis solares não produz eletricidade, só calor, mas esse calor chega para poupar até 70% da energia necessária ao aquecimento de águas do edifício, para uso sanitário e cozinha, mas também para os sistemas de climatização.

Quanto mais quente (o clima), menos inteligente (o país)

Num documento divulgado no início deste ano, o Building Performance Institute Europe (BPIE) lança a seguinte pergunta: A Europa está pronta para a revolução dos edifícios inteligentes?

A resposta para Portugal seria claramente não, a avaliar pela classificação obtida nos diversos rankings. Os resultados nacionais colocam Portugal no último patamar, dos slow-starters (os que arrancam devagar), ao lado de países como a Grécia, Bélgica, a Bulgária, a Hungria e Chipre. O pelotão dos mais evoluídos na União Europeia é dominado pelos nórdicos — Suécia, Finlândia e Dinamarca, sendo que nesta competição ninguém ganha o primeiro lugar, a que corresponderia a distinção de prontíssimo para a inteligência dos edifícios.

Portugal é o quarto a contar do fim na lista dos 28 (ainda inclui Reino Unido). Tem a pior nota em áreas como a geração fotovoltaica (nos prédios), eficiência na capacidade de aquecimento, veículos elétricos, armazenamento de energia, conetividade, desenvolvimento de contadores inteligentes, capacidade de manter o calor ou o fresco. Consegue a nota razoável no consumo final energético pelos edifícios e na flexibilidade dos mercados. E tira suficiente na energia renovável e nos preços dinâmicos (em que o custo da energia varia em função da procura).

Parece evidente que as condições climatéricas pesam muito na classificação, com os países mais expostos a temperaturas baixas e contas mais altas para aquecer os edifícios a apresentarem as melhores performances. O incentivo económico pesa, claro. Mas não só. Os países com maior peso de energias renováveis também tendem a responder melhor ao desafio, ainda que não seja esse o caso de Portugal ou mesmo de Espanha que consegue apenas uma nota sofrível, a meio da tabela. Em alguns destes países, a crise que atingiu duramente os setores imobiliário e de construção nos últimos anos pode também dar algumas explicações.

“A maioria dos que arrancam tarde tira más notas em todas as classificações, com a exceção do consumo final de energia, o que pode ser mais explicado por condições climatéricas e constrangimentos financeiros do que por medidas desenvolvidas de eficiência energéticas. Isto é confirmado pela nota baixa obtida pelos mesmos países no indicador de capacidade para manter o calor e frio adequados”, pode ler-se no relatório.

A inteligência na construção de edifícios começa ainda antes do projeto. A escolha do local, a exposição à luz solar — até os acessos e transportes públicos — fazem a diferença. Mas é na arquitetura e desenho do imóvel que se jogam os passos mais decisivos. “Um edifício bem concebido e de forma eficiente mantém melhor a temperatura desejada e por mais tempo, o que torna mais recetivo ao pré-aquecimento e ao pré-arrefecimento, permitindo mudar o consumo de energia para outros períodos do dia”, refere o relatório do BPIE.

A internet das coisas traz ameaças

Os eletrodomésticos podem ser controlados à distância, pelo dono da casa, mas também por terceiros. E aqui é que está o risco. Os mini computadores altamente eficientes que equipam estes dispositivos precisam da mesma proteção do que computadores pessoais ou tablets. A empresa de software de proteção Sophos desenvolveu o projeto casa assombrada com um sistema de deteção de intrusos virtuais. Numa superfície de 4 por 2,5 metros concebida para parecer um apartamento foram instalados 13 dispositivos IoT e sistemas de controlo de fabricantes, ligados à internet.

Na primeira fase do teste, realizada com passwords seguras, foram registadas 1,500 tentativas diárias de acesso. A segunda usou as configurações dos fabricantes, tendo-se registado 3.800 tentativas de acesso que vieram de quase todos os países do mundo, com destaque para Estados Unidos e China.

Da revolução do espaço à revolução das mentalidades

A nova sede da EDP, construída de raiz na Avenida 24 de julho, entre Santos e o Cais do Sodré, centralizou todas as operações que estavam espalhadas por cerca de 20 edifícios na capital. A maioria dos quais eram prédios residenciais adaptados a escritórios e tinham muitos gabinetes fechados.

Construída entre 2012 e 2015, a sede está organizada em quatro edifícios para 880 pessoas e representou um investimento de 60 milhões de euros. Mas permitiu uma redução da área ocupada, de 26 mil metros para 16 mil metros. Houve também poupança nos serviços de estafetas, limpeza e manutenção. A segunda fase de agregação de serviços em Lisboa prevê a construção de um novo edifício, mais duas torres, entre a Rua de S. Luís e Rua da Boavista (também no Cais do Sodré) que irão receber mais 800 pessoas. No total, vão ser substituídos 23 edifícios, concentrando todos os serviços centrais. De fora ficará apenas a EDP Distribuição.

Não foi só uma mudança espacial, afirma Fernando Santos, da EDP Imobiliária. “Existiu uma mudança de cultura e até de mentalidades. Passar os espaços fechados para o open space existiu uma adaptação dos hábitos de trabalho, capacidade de trabalhar com ruído e um maior autocontrolo”.

Aqui repetem-se algumas das ideias-chave que ouvimos na Deloitte, e que são na verdade eixos centrais na arquitetura dos edifícios inteligentes. Pretendia-se maior transparência e comunicação ao nível das equipas. E isso não passou apenas por derrubar paredes, mas também pela transparência dos materiais, ausência de barreiras ou barreiras mais baixas, que permitem o contacto visual entre colaboradores. Caiu também a barreira criada pela necessidade de bater à porta e que intimidava algumas pessoas.

É claro que a solução permitiu uma poupança significativa no espaço ocupado, mas não estamos a falar apenas de poupanças, mas de uma nova forma de trabalhar, defende o administrador da EDP Imobiliária. É preciso falar mais baixo, tirar ou reduzir o som dos telemóveis, usar auscultadores para ouvir conteúdos no computador.

Na sede em Lisboa, os gabinetes ficaram limitados aos administradores e cada um dos membros do Conselho Geral e de Supervisão e aos diretores operacionais (20 gabinetes divididos por duas torres). Há salas para as equipas se reunirem (algumas, em exigem marcação previa), silent rooms (para chamadas privadas) e espaços comuns como cafetarias, copa e lugar de fumadores… um terraço ao ar livre, mas coberto por cada dois andares.

Ambiente descontraído e muitas áreas comuns na sede da EDP

Muda a empresa, o discurso ideia volta a repetir-se. Na Caixa, a área de trabalho não é acabada de estrear, mas está a ser reciclada, como explicou ao Observador Jorge Madeira, da direção de recursos e meios do banco.

Em contraste com o aspeto imponente dos espaços públicos ou das áreas reservadas à administração, a maioria do espaço de escritórios funciona já em open space, mas há muitas barreiras, como biombos e armários que acabam por criar espaços isolados. O objetivo é ir no sentido contrário, criar espaços de trabalho não dedicados e facilitar a comunicação e o movimento, mas também racionalizar os espaços ocupados pelo banco.

Mais pessoas e mais operações em menos área. A primeira nova valência a instalar-se no edifício da avenida João XXI foi a Caixa Banco de Investimento, que será o modelo de ocupação em open space sem barreiras a exportar para outras operações. A zona de escritórios conta atualmente com 140 a 15o gabinetes, e há também salas de reunião e salas privadas para conversas ou telefonemas, mas áreas de espaço partilhado.

Construir de novo sai muito mais barato do que remodelar. É uma economia de 20% a 25%. A sede da EDP foi concebida desde o início para reduzir a pegada ecológica e, assim, responder às certificações ambientais mais exigentes. Tal passa por escolhas óbvias como o uso de materiais recicláveis até a outras menos evidentes: não usar cola nos mobiliários, recorrer a práticas de demolição amigas do ambiente e usar material de construção disponível num raio de 80 quilómetros.

O acesso por transporte público, parques para bicicletas e condições para carros elétricos — a EDP só disponibiliza 380 lugares de estacionamento para quadros, mas tem 20 lugares reservados com pontos de carregamento para os carros elétricos — também são avaliados nestas auditorias para certificação. As certificações só são dadas após um ano de utilização e depois de conferidos os desempenhos em várias áreas.

Uma das maiores poupanças a nível energético nos edifícios de escritórios foi o fim do tabaco, ou o seu confinamento a uma sala de fumo. A poupança foi obtida pela redução do número de renovações de ar, redução da intensidade da refrigeração e exaustão, menor substituição de filtros de ar condicionado e não há alarmes contra fogo a disparar.

O que fazer com os fumadores

E os fumadores? São uma espécie em vias de extinção, diz em tom de ironia o diretor da EDP Imobiliária, ele próprio um fumador. Mas enquanto existem… A sede da EDP é um edifício sem tabaco, mas para as exceções, que existem sempre numa grande empresa, recorre-se a alguns expedientes como o aumento de extração de ar.

As salas de fumo exigem ventilação muito forte e agressiva. Uma das maiores poupanças a nível energético nos edifícios de escritórios foi o fim do tabaco, ou o seu confinamento a uma sala de fumo. A poupança foi obtida pela redução do número de renovações de ar, redução da intensidade da refrigeração e exaustão, menor substituição de filtros de ar condicionado — e não há alarmes contra fogo a disparar.

No caso da EDP, os fumadores podem usar o terraço aberto, mas com teto (para proteger da chuva) que existe em cada dois andares e que oferece também uma área de lazer a não fumadores, com esplanada. Só se pode fumar a oito metros de uma abertura, porta ou janela. Há até uma marca pintada no chão a assinalar o local. Pior estão os fumadores da Deloitte. Dentro do escritório só se pode fumar nas salas reservadas a clientes. De resto, nem à porta é suposto acender o cigarro. Há um espaço previsto ao nível da garagem: Pelo menos é coberto e há café.

As empresas visitadas pelo Observador preferem não ter salas de fumo, como as que existem nos aeroportos. Não é uma solução eficiente e não resulta para quem está perto porque não se consegue neutralizar totalmente o cheiro do tabaco.

O ar condicionado. Todos se queixam e ninguém tem o comando

Quando falamos de energia estamos a falar de iluminação, mas sobretudo de climatização. O delicado equilíbrio da temperatura e entre a sombra e o sol é o maior desafio na gestão do conforto em escritórios. E desde que haja duas pessoas no mesmo espaço, haverá sempre discussões sobre o ar condicionado. Os responsáveis pela gestão dos edifícios concordam que este é o tema mais sensível de gerir e o que gera mais queixas.

A regra nos edifícios inteligentes é que as janelas não abrem. A temperatura é definida a nível central e varia muito pouco, entre 22/23, no inverno, e os 25/26, no verão, uma variação de quatro graus para ajustar à roupa usada a cada estação.

A regra nos edifícios inteligentes é que as janelas não abrem. A temperatura é definida a nível central e varia muito pouco, entre 22/23, no Inverno, e os 25/26, no verão, uma variação de quatro graus para ajustar à roupa usada a cada estação. É aliás nas mudanças de estação que as queixas tendem a subir.

Mas há soluções para baixar os protestos. Na sede da EDP, por exemplo, optou-se pelo uso de grelhas ativas para evitar as correntes frias do ar condicionado, permitindo harmonizar as condições climatéricas, explica Fernando Santos da EDP Imobiliária. Na caso elétrica recorre-se também às palas de sombreamento no exterior do edifício que minimizam o efeito da luz solar. Os vidros têm proteção UV e os estores interiores também estão automatizados, fecham quando o sol incide. Só nos gabinetes e salas de reunião é que é deixada alguma margem para rodar o botão, mas é limitada, em regra a dois graus.

Nada pesa mais na fatura energética do que a climatização. Na Caixa, diz Jorge Madeira, diretor de recursos e meios, este é o sistema que mais energia consome, cerca de 30% do total. A climatização num edifico deste tamanho e com vários tipos de exposição solar é um dos grandes desafios, há diferenças de temperatura (cerca de um grau) dentro da sede. Já se disse que este é o equipamento que provoca mais queixas dos funcionários, mas aqui explicam que as reclamações coincidem mais com as mudanças de estação, quando a temperatura sobe ou desce mais repentinamente.

A Caixa fez um upgrade ao nível dos sistema de distribuição, que permitiu uma gestão centralizada da quantidade de ar a renovar em função do número de pessoas e a exposição solar. A renovação completa do ar juntou-se à substituição dos equipamentos e condutas de ar condicionado. Além da climatização dos espaços ocupados por pessoas, há ainda exigências adicionais nos espaços que acolhem os data centers (onde estão concentrados os servidores e sistemas de computação), que exigem temperatura mais baixa, cerca de 17 graus e humidade 40% a 60% para evitar eletricidade estática aumente o risco de ignições.

Comando do elevador na EDP

Sem cartão, não entra, não sobe

Quem esquece o cartão de identificação em casa é como se não existisse para um edifício inteligente. É neste dispositivo que fica definido o perfil de acessos e circulação de cada funcionário, e que permite abrir portas e subir nos elevadores até ao nível autorizado, tirar focotópias, imprimir, tudo controlado por centros de segurança.

Este é frequentemente um dos aspetos que exigem maior adaptação no início e que mais perturbações provoca. Há relatos de pessoas que saíram do local de trabalho sem o cartão e sem o telemóvel e ficaram retidas num corredor, sem possibilidade de abrir a porta, barreiras ou mesmo o elevador. Nestes casos o BIG Brother poder ser a boia de salvação, já que os sistemas de vigilância cobrem estas áreas de ninguém e identificam o intruso ou o distraído. Mas para evitar distrações, o melhor é automatizar o gestor. “A primeira coisa que coloco quando me vou vestir é o cartão da empresa ao pescoço”, comenta um dos funcionários ouvidos pelo Observador. Se se esquecer dele em casa tem de pedir um provisório na receção.

A convergência entre as tecnologias de informação e a segurança de bens e pessoas resultou num reforço da videovigilância que saltou as fronteiras da segurança. Já não é apenas utilizada no controlo de acessos e circulação de pessoas. Os desenvolvimentos futuros passam ainda, seguramente, pelo telemóvel e pelo tablet, dispositivos que já estão a ser usados para acesso e reconhecimento. Na Deloitte de Amesterdão, a app instalada no smartphone já é o principal instrumento de controlo de acessos e da disponibilização de opções à medida do colaborador. Na EDP, está a ser pensada uma solução para fazer migrar a identificação e o controlo de acessos do cartão para o telemóvel.

Na Caixa, o acesso também é condicionado por um cartão. Mas uma vez dentro da área reservada, os funcionários têm liberdade de circulação dentro de certos limites – administração e áreas de maior reserva e confidencialidade, estão fora dos limites. O local mais inacessível não é o gabinete de Paulo Macedo, mas fica no coração do edifício — não se sabe exatamente onde. É uma área isolada e anti-intrusão onde estão localizados os cofres com os valores dos clientes.

Quase uma cidade dentro de um edifício

Tem uma área de 200 mil metros quadrados e nele trabalham regularmente 4.000 a 4.500 colaboradores, mas pode receber até 5.000 pessoas (mais do que a população residente em quase 40 concelhos de Portugal, segundo as estimativas do INE para 2015).

O edifício está organizado em quatro torres com uma área central monumental. A principal condicionante é o modelo arquitetónico, que obriga a duplicar acessos, quatro um por torre, e elevadores – 58 – dispersos — onerando os custos. Além do que se vê — a Caixa tem nove andares acima da superfície onde cada piso tem de uma ponta a outra, cerca de 230 metros lineares — há ainda seis andares para baixo. O local tem 1.200 lugares de estacionamento e é normal os utilizadores deste espaço perderem o carro durante as primeiras semanas de uso regular. Os elevadores que servem as garagens não permitem chegar aos pisos de cima. Para subir é preciso mudar de elevador, por uma questão de segurança.

A sede da Caixa é um autêntico bunker. Foi construída para resistir a um terramoto de 7,5 na escala de Richter e sobreviver de forma autónoma durante horas ou até dias, dependendo de quantas pessoas lá estiverem. Há geradores de backup que podem abastecer energia durante várias horas se a rede falhar, assegurando pelo menos os serviços essenciais. Há um posto de saúde interno, um pequeno centro comercial com lojas com alguns descontos, um complexo desportivo para colaboradores e reformados (onde se pode ter aulas de dança, jogar futebol, xadrez ou squash, e uma cantina).

O edifício teve de se modernizar, um esforço que nunca acaba e que tem sempre como preocupação diminuir os custos, o que passa por consumir menos energia. Em 2008, foi instalado o sistema de solar térmico, que abastece a água quente, fazendo da Caixa o primeiro edifício a receber a mais elevada certificação energética. Em 2013, foi implementado um upgrade completo dos sistemas de controlo das instalações técnicas: estamos a falar de comunicações, iluminação, climatização, controlo de acessos. Esta “revolução” demorou três anos e envolveu passar cabos, mudar software e hardware.

A central de comandos técnicos que controla tudo, desde a segurança, à temperatura e velocidade do ar, e que começa a trabalhar às sete e termina às oito da noite. As luzes começam a apagar às 19h00, é preciso voltar a ligar o interruptor. Voltam a apagar-se automaticamente às oito, e depois de meia em meia hora. Quem quiser fazer serão deve avisar com antecedência, até porque a partir das 19h00 a gestão dos sistemas técnicos passa para a central de segurança. Na Caixa, só há sensores de presença para luz nas casas de banho. Outros espaços são demasiado grandes para isso.

Quando foi construída, nos anos 80, a sede do banco público era o que de mais moderno havia. O edifício tem sistemas, pioneiros à data, e que ainda hoje marcam a diferença, apesar de já não serem tecnologias de ponta. Exemplo maior disso é o mini-sistema ferroviário que percorre as instalações, com carris que podem estar ao nível do chão, trepar uma parede ou estar suspensos do teto. O seu objetivo é transportar documentos.

São quatro quilómetros de extensão — a distância entre o Marquês de Pombal e o Campo Pequeno — com 65 estações. O Telelift é um sistema elétrico que funciona com um carril que tem um roda dentada para aderência nas subidas. Tem agulhas, para mudança de linha e funciona com mais de 100 carruagens, neste caso caixas, que levam até 10 quilos. O sistema original foi fornecido pela Thyssen, hoje Thyssen Krupp (elevadores), mas a manutenção está a cargo de um especialista mundial da ferrovia, a Siemens.

O mini-comboio está a meio caminho entre o brinquedo e o museu. É difícil encontrar peças de substituição e hoje já não seria instalado, reconhecem os responsáveis da Caixa. Mas, apesar de transportar um quarto do que já levou no passado, resiste ainda à desmaterialização das comunicações e é muito usado no banco, para o correio interno e externo. Serve sobretudo para papéis — reduzindo muito os custos com estafetas, mas já têm aparecido surpresas, nem sempre agradáveis.

Corrigida a data de mudança da sede da Deloitte Portugal.

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