A Jerónimo Martins, a dona das lojas Pingo Doce, é a empresa cotada na bolsa portuguesa com mais colaboradores: eram quase 72 mil no final de 2013, incluindo os funcionários da cadeia polaca Biedronka e dos supermercados colombianos Ara. Os trabalhadores da sociedade portuguesa também eram os mais mal pagos: a remuneração bruta média foi de 9.446 euros em 2013. Para conseguirem reunir o que Pedro Soares dos Santos, presidente da Jerónimo Martins, recebeu da empresa nesse ano, quase 952 mil euros, os colaboradores teriam de trabalhar 110 anos.

O Observador calculou o número de anos que os funcionários das principais empresas cotadas em Lisboa teriam de laborar, em média, para conseguirem acumular o que o administrador mais bem pago (normalmente o presidente executivo ou o administrador-delegado) recebeu em 2013. Usámos a remuneração bruta do pessoal quando disponível ou, em alternativa, os custos com o pessoal.

Distribuição alimentar paga mal

Infografias: Andreia Reisinho Costa

A Sonae, proprietária da marca retalhista Continente, tem quase 40 mil trabalhadores que ganharam, em média, 12.220 euros em 2013. Para conseguirem acumular o mesmo que o presidente executivo, Paulo Azevedo, recebeu em 2013, 1,3 milhões de euros, teriam de exercer a sua atividade durante 110 anos. A remuneração fixa de Paulo Azevedo foi de cerca de 476 mil euros, que foi acrescida de um prémio de curto prazo de 436 mil euros e um prémio de médio prazo no mesmo montante.

Entre as 18 empresas analisadas, Pedro Queiroz Pereira foi o administrador que mais ganhou: 2,5 milhões de euros. Os 2.259 funcionários da Portucel, a maior empresa nacional de papel, teriam de trabalhar, em média, 70 anos para conseguirem juntar esses 2,5 milhões de euros. A Portucel foi a única empresa a pagar mais aos seus administradores do que ao fisco em 2013.

Manuel Ferreira de Oliveira, presidente executivo da Galp Energia, e António Mota, administrador sem funções executivas na Mota-Engil (mas que controla a construtora juntamente com as irmãs) exigem 50 e 48 anos de trabalho aos colaboradores para ganharem tanto como eles no ano passado.

Apesar de Zeinal Bava ter trabalho menos de metade do ano de 2013, levou mais de um milhão de euros da Portugal Telecom. Este valor é equivalente à remuneração média de 40 anos de trabalho dos restantes colaboradores. Se o antigo presidente executivo da Portugal Telecom tivesse recebido ao mesmo ritmo salarial durante o resto do ano, os trabalhadores teriam de laborar durante 94 anos para acumularem o mesmo do que ele.

Banqueiros mais próximos dos colaboradores

António Mexia e Miguel Almeida, que lideram a EDP e a Nos (antiga Zon Optimus), receberam 989 mil euros e 845 mil euros, respetivamente, mas, como as empresas têm perfis salariais diferentes (recebe-se mais na EDP do que na Nos), os funcionários das duas sociedades teriam de trabalhar igualmente 24 anos para acumularem, em média, o mesmo que os presidentes executivos receberam em 2013.

Pedro Queiroz Pereira volta a entrar na lista, desta vez como presidente da Semapa, que controla a Portucel. Queiroz Pereira recebeu 1,8 milhões de euros nestas funções, 18 vezes mais do que a média dos colaboradores da Semapa.

As remunerações das administrações da banca estão de dieta. Fruto das dificuldades e dos apoios estatais injetados, os vencimentos foram reduzidos. Nuno Amado, do Banco Comercial Português, e Fernando Ulrich, do Banco BPI, receberam 472 mil euros e 425 mil euros, o equivalente a 18 anos e 13 anos, respetivamente, dos ganhos médios dos colaboradores em 2013. O Governo limitou a remuneração dos administradores a 50% da média dos dois anos anteriores.

Entre as 18 empresas que compõem atualmente o índice PSI 20, Francisco de Lacerda, presidente dos CTT, foi o líder que menos ganhou em 2013, 175 mil euros. Este valor é equivalente a nove vezes a remuneração bruta média dos colaboradores dos Correios.

No entanto, é Jorge Tomé, presidente executivo do Banif, que está mais próximo dos seus funcionários. O que recebeu em 2013, cerca de 194 mil euros, é equivalente a sete vezes a remuneração média anual dos colaboradores.

Na Altri, Paulo Fernandes recebeu quase 392 mil euros. Na falta de indicação da remuneração do pessoal nas contas de 2013 da empresa de pasta de papel, este valor é nove vezes os custos anuais médios com o pessoal.