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Photo by Keystone/Getty Images

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Renato, Coluna e a euforia do golo, segundo António Simões

"Um golo num jogo de Europeu ou Mundial é a consagração", diz António Simões em entrevista ao Observador, lembrando o golo ao Brasil, em 1966. Renato Sanches encanta-o e o "Magriço" explica porquê.

"A sensação de fazer um golo no Campeonato do Mundo e ao Brasil é tão forte que nos apetece correr até ao fim do mundo..."
António Simões

António Simões era o mais novo d’Os Magriços em campo. Em 1966 tinha 22 anos, mas já contava com uma Taça dos Campeões Europeus no bolso (mais duas finais perdidas), três canecos da Primeira Divisão e duas Taças de Portugal. Ou seja, era um jovem que já sabia o que era aquilo de triunfar entre os grandes. O Observador pegou no telefone e roubou mais de meia hora ao camisola 11 da seleção das quinas do Inglaterra-66, para tentar perceber um pouco o que Renato Sanches sentiu ao marcar um golo tão importante para o país (vs. Polónia, nos quartos-de-final). Mais: queríamos saber como se posiciona um garoto entre graúdos e o peso destes na sua formação e euphoria-control (assim mesmo, em inglês).

“O Mário Coluna era o líder, indiscutivelmente”

Antes dos golos, da glória, como era o balneário em 1996, quem ‘mandava’? “O Mário Coluna era o líder, indiscutivelmente”, conta ao Observador António Simões, hoje com 72 anos. “Era o homem com mais peso na seleção. Eu já tinha experiência com ele, ainda mais novo, no Benfica. Ele era o capitão, era a nossa referência. Era um pouco como aquele irmão mais velho, que se senta à mesa e não é preciso dizer nada. Basta olhar e toda a gente se porta bem. É um bocadinho isso: atitude de exigência, respeito, educação e, ao mesmo tempo, era protetor. Tem de haver alguém que possa ter estatuto para proteger o mais jovem, para que não se perca, para evitar vedetismos, para que não se deixe embalar…”

António Simões sabe o propósito do telefonema, por isso, inevitavelmente, pega na bola e leva-a para a zona de Renato Sanches. “Este miúdo, o Renato, revela uma maturidade enorme para a idade. Vejo-o à vontade. O atrevimento de dizer ao Fernando Santos que quer marcar o penálti… Quando dizemos que é o segundo, ele é o primeiro a seguir ao Ronaldo. Temos de o sublinhar. Este miúdo tem inteligência emocional, tem uma forma fantástica de encarar a dificuldade”, revela o ex-jogador, num comentário que anda de mãos dadas com todas as polémicas que estalaram associadas ao agora médio do Bayern Munique.

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Portugal's midfielder Renato Sanches (C) celebrates next to Portugal's midfielder Adrien Silva after scoring during the Euro 2016 quarter-final football match between Poland and Portugal at the Stade Velodrome in Marseille on June 30, 2016. / AFP / BORIS HORVAT (Photo credit should read BORIS HORVAT/AFP/Getty Images)

(BORIS HORVAT/AFP/Getty Images)

E com os mais velhos, há praxes, há padrinhos? “Os mais velhos tinham direito a fazer uma cagadinha mesmo que a gente visse. Os mais novos não tinham direito mesmo que ninguém visse. Faço-me entender, certo? O estatuto do jogador mais velho representava o mandão. Quem mandava eram eles. Era assim, e ainda bem que tínhamos gente que mandava, porque nós, os mais jovens, precisávamos que alguém liderasse. Não tem nada de mal. É preciso ver que falamos de há 50 anos. Ser mais velho, na altura, era um posto. Em África existe muito isso, o mais velho. É estatuto e os mais novos têm de respeitar”, explica.

"Quando somos mais jovens, precisamos de linhas de orientação. Não é uma questão de saber, é ter capital de vida, de experiência, uma visão concreta. O Mário [Coluna], o José Águas, o Costa Pereira eram pessoas que tinham esse capital de experiência. Olhávamos para eles e [pensávamos] 'não podemos dececionar esta gente, senão eles caem-nos em cima'"
António Simões

E continua: “Quando somos mais jovens, precisamos de linhas de orientação. Não é uma questão de saber, é ter capital de vida, de experiência, uma visão concreta. O Mário [Coluna], o José Águas, o Costa Pereira eram pessoas que tinham esse capital de experiência. Olhávamos para eles e [pensávamos] ‘não podemos dececionar esta gente, senão eles caem-nos em cima’. Se algum não se portasse bem, o mais velho dizia ao mister: ‘Este miúdo não devia jogar no domingo'”.

“”Nunca me senti vedeta, porque os mais velhos nunca me deixaram que me tornasse vedeta. Quando foi altura de ser vedeta, já era maduro para perceber como lidar com isso. Há uma antecipação, nunca me perdi, tive a ajuda dos mais velhos”

E aconteceu-lhe, António? “Felizmente, nunca. Nunca me senti vedeta, porque os mais velhos nunca me deixaram que me tornasse vedeta. Quando foi altura de ser vedeta, já era maduro para perceber como lidar com isso. Há uma antecipação, nunca me perdi, tive a ajuda dos mais velhos.”

Quanto a Renato, Simões derrete-se e mantém a toada dos elogios à postura do médio da seleção nacional. “Há uma grande parte do mérito que pertence a ele, mas depois há gente madura, há um selecionador que tem esse capital. Estão à altura [de o ajudar]. Há Ricardo Carvalho [38 anos], por exemplo, temos gente com essa experiência e estatuto para os mais jovens. O Renato olha os mais velhos com respeito, não tenho dúvidas disso. O comportamento dele revela isso mesmo. O miúdo tem atitude responsável e coletiva, que já criou simpatias. Em pouco tempo, entrou no coração dos portugueses.”

Renato “Coluna” Sanches?

“Há uns tempos disse a uns amigos que o Renato fazia lembrar Coluna no início, em alguns aspetos. Um pouco mais rápido, mas faz lembrar um bocadinho”, disse Fernando Santos, após o jogo com a Polónia. António Simões agarra essa comparação e dá um murro na mesa, exigindo para ele a patente da mesma. Afinal, terá sido ele o primeiro a fazer tal comparação em público. “Quando me perguntaram, há uns tempos, com quem é que o Renato era parecido, eu disse Mário Coluna. Peço desculpa, mas isso é meu, disse-o há meses”, diz, entre uma gargalhada serena.

A oportunidade é de ouro, então: em que é que Renato é parecido com Coluna? “Era um trator, também. O Mário Coluna tinha momentos do jogo em que estávamos a ser pressionados e ele, ali à saída da nossa área, pegava na bola e arrancava, metia-os todos atrás dele, ia-se embora. Toda a gente subia, porque todos saíam da pressão do adversário. Ele fazia isto e a equipa entrava em contra-ataque [assevera o tom]… Às vezes, até tinha de esperar porque a malta ia atrasada [risos]. O miúdo faz isto: vai, vai, vai e tem tudo atrás dele.”

“”O Coluna pegava na bola e arrancava, metia-os todos atrás dele, ia-se embora. Toda a gente subia, porque todos saíam da pressão do adversário. Ele fazia isto e a equipa entrava em contra-ataque… Às vezes, até tinha de esperar porque a malta ia atrasada [risos]. O miúdo faz isto: vai, vai, vai e tem tudo atrás dele”

Ou seja, “há aqui parecenças”, sentencia pausadamente. E volta a acelerar: “O golo que o Renato fez, o Mário fez muitos fora da área assim. Não há dois jogadores iguais, mas, não há dúvidas, há parecenças. Como o André Gomes tem parecenças com o Jaime Graça [médio que atuou no Mundial-66]. Só 30 anos depois é que aparece o chamado box-to-box, mas o Jaime Graça sempre foi. Este famoso número 8, o Jaime Graça já o era! Se reparar nas intervenções do Jaime Graça, ele aparecia a defender e a atacar. Ora defendia por dentro, ora aparecia na linha e na área para finalizar. Desde que nasceu para jogar, até ao ao dia que terminou a sua carreira, foi sempre um box- to-box. Nasceu 8 e morreu 8…”, explica, apaixonadamente, como quem falaria de futebol mais três horas. E rematou: “O primeiro Beckenbauer que eu vi no mundo? O Germano [defesa em 1966]! Foi primeiro Beckenbauer do que o Beckenbauer. Depois é que apareceu o Beckenbauer…”

“É possível chegar a estrela e ser humilde. Não é incompatível”

Portugal estreou-se em grandes competições em 1966, e chegou ao pódio. Aquela gente tinha fibra e levou bem alto o nome do país. O grupo era para homens de barba rija: Brasil de Pelé, Garrincha, Jairzinho e Tostão, a Hungria de Flórián Albert e Ferenc Bene, o homem que guardou o recorde de mais jovem a marcar em jogos de mata-mata em Europeus (1964-2004), e a Bulgária. As coisas começaram bem, com um 3-1 à seleção magiar, com um bis de José Augusto mais um golo de José Torres (Bene marcou para os húngaros). A seguir, três-zero aos búlgaros, com golos de Eusébio, Torres e um na própria de Ivan Vutsov.

Um dos dias mais felizes da vida de António Simões chegou na jornada 3, contra o Brasil, que vestia como o último clube que o extremo representou em Portugal: Estoril Praia. Era terça-feira, 19 de julho. O árbitro apitou às 19h30 para o ‘rrrrrrrrrrrrola a bola’ no Goodison Park, em Liverpool. Estavam quase 60 mil adeptos nas bancadas.

"Há alegria no sentimento, por ser jogador, por ser português, por ser internacional. Apetece quase gritar ‘eu sei jogar, ainda não falaram de mim? Então façam o favor de ver que sei jogar'. Há um sentimento de euforia, os abraços dos companheiros, a vitória que chega, o passo que se dá em frente. É tão marcante que 50 anos depois estou a falar-lhe desta maneira”
António Simões

Portugal atacou pela esquerda, mas um cruzamento saiu para junto do guarda-redes brasileiro, Manga, que sacudiu para a frente. Sem truques na manga, e no alto dos seus 167 centímetros, António Simões meteu a cabeça em mergulho e fez uma espécie de chapéu, 1-0. O jovem de 22 anos correu em direção ao seu meio campo, em sprint, com os braços bem abertos. Só parou quando foi engolido pelos colegas.

“Cada vez que vejo esse golo, eu alegro-me, sozinho. Cada vez que me vejo aos pulos… Era como se tivesse chegado ao mundo inteiro. A sensação de fazer um golo no Campeonato do Mundo, e ao Brasil, é como se tivéssemos chegado ao fim do mundo. A sensação é tão forte, que nos apetece correr até ao fim do mundo. Há alegria no sentimento, por ser jogador, por ser português, por ser internacional. Apetece quase gritar ‘eu sei jogar, ainda não falaram de mim? Então façam o favor de ver que sei jogar'”, conta, empolgado. “Há um sentimento de euforia, os abraços dos companheiros, a vitória que chega, o passo que se dá em frente. É tão marcante que 50 anos depois estou a falar-lhe desta maneira”. A maneira era emoção com muito ritmo.

Terá sido isso que o Renato sentiu, depois de um ano aqui e ali complicado para ele? “Se calhar, por dentro, o Renato dizia ‘mas vocês têm dúvidas? Mas eu tenho de fazer mais que isto? Mas digam-me, pá. Se tenho de fazer mais, então pronto, eu faço!'”

Este nem foi o primeiro golo de António Simões com a camisola das quinas, mas para ele só conta esse. Ao contrário de Renato, que quinta-feira se estreou como titular por Portugal e logo com um golo nos “quartos” do Euro-2016. “Acho que o meu primeiro golo foi contra a Bulgária, antes disso. Um golo num jogo particular ou apuramento é uma coisa, um golo num jogo de Europeu ou Mundial é a consagração. E o primeiro foi com o Brasil. Esse consagra o jogador”, explica.

"Este miúdo tem um compromisso que tem a ver com a carreira que ele quer fazer, mas que não se quer desviar do que é a gratidão para com os outros. É muito interessante. Este miúdo deve ser muito bem formado, deve adorar jogar, aprendeu a respeitar
António Simões

“Há um desafio! Não há nada melhor do que termos desafios e compromissos. Este miúdo tem um compromisso que tem a ver com a carreira que ele quer fazer, mas que não se quer desviar do que é a gratidão para com os outros. É muito interessante. Este miúdo deve ser muito bem formado, deve adorar jogar, aprendeu a respeitar”.

E continua, para esmiuçar os desafios da carreira do jovem médio: “Eu marquei ao Brasil e ele marcou agora. Há uma mistura de sentimentos, de regozijo, euforia, de orgulho, ao mesmo tempo temos um certo receio se não estaremos a exagerar, aquilo deslumbra. Se calhar, é a mesma coisa como ter o primeiro automóvel, a primeira namorada, o primeiro relógio. Há qualquer coisa que nos invade, que é difícil de controlar. Este miúdo soube controlar-se. Tendo em consideração o meio de onde veio, onde nasceu e cresceu, estamos perante um jovem de extremo equilíbrio, que pode servir de exemplo para muitos outros jovens”. Ou seja, “é possível chegar a estrela, é possível ser rico e ter glória e ser humilde. Não é incompatível. Ele deve servir de exemplo”.

Portugal's midfielder Renato Sanches (R) celebrates with teammates after scoring during the Euro 2016 quarter-final football match between Poland and Portugal at the Stade Velodrome in Marseille on June 30, 2016. / AFP / BORIS HORVAT (Photo credit should read BORIS HORVAT/AFP/Getty Images)

(BORIS HORVAT/AFP/Getty Images)

António Simões considera que no seu tempo “era mais fácil ser humilde”, pois a sociedade era diferente. As redes sociais, o individualismo, o egoísmo, tudo isso alterou a natureza do que nos rodeia. “O estrelato é mais fácil de alcançar”, considera.

“Vou dar-lhe um exemplo: para ser reconhecido como bom jogador, eu tive de jogar uns anos. Hoje, basta fazer um grande golo. Isso quer dizer que antigamente se jogava melhor? Não, nada a ver. Tem a ver com a sociedade, que mudou. Hoje faz-se um golo em Tóquio e está em todo o mundo passados segundos! No meu tempo andávamos a descobrir: ‘ouviste falar nisto?’ São coisas diferentes…”

 
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