A sua saída do PSD ouviu-se com estrondo: a ex-deputada Rubina Berardo, militante há 20 anos, decidiu desfiliar-se por acreditar que o partido “escancarou as portas” à extrema-direita, mas também por entender que o partido convive mal com as regras mais elementares da transparência em política — crítica que vale para Miguel Albuquerque e que estende a Luís Montenegro.
Em entrevista ao Observador, no programa Vichyssoise, a antiga deputada madeirense critica a “confusão propositada” entre os temas da imigração e da nacionalidade, garante que o PSD quebrou o “não é não” ao Chega e avisa: tentar “domesticar” o partido de André Ventura é uma solução perigosa que vai fazer ricochete sobre o PSD.
Crítica da atuação de Luís Montenegro no caso Spinumviva, Berardo diz ver algumas práticas do PSD madeirense a serem adotadas a nível nacional e lamenta que Montenegro tenha preferido varrer o assunto “para baixo do tapete” a ser verdadeiramente transparente com o eleitorado. E deixa críticas aos presidentes da Assembleia da República e da Assembleia Legislativa da Madeira por terem, num caso, decidido “tolerar” mais a extrema-direita e, no outro, “justificar” os insultos ouvidos no parlamento madeirense.
[Ouça a entrevista de Rubina Berardo]
“Entre o original e a cópia, o eleitorado escolhe o original”
Desvinculou-se do PSD, onde militava há 20 anos, acusando a atual liderança de “pactuar com a extrema-direita”. Quando é que esta descaracterização do PSD de que fala começou? Foi com a liderança de Luís Montenegro?
A verdade é que vemos, através do que tem acontecido com a confusão propositada entre as temáticas da imigração e a lei da nacionalidade, que esse “não é não” já não existe e que existe uma plataforma de entendimento, que se ensaia com sucesso, de parceria entre o PSD e o Chega. E a partir do momento em que esse “não é não” é quebrado, para mim também é quebrada uma pertença a um partido.
Há quem diga que o PSD não podia manter o não é não quando quase um milhão e meio de eleitores votaram no Chega nas últimas eleições legislativas.
Há claramente aquela argumentação – e acho que neste caso encaixa que nem uma luva – de que, se se dá de comer ao crocodilo, não nos podemos queixar depois de ser comidos pelo próprio crocodilo.
Usando a sua metáfora, acha que o PSD corre o risco de ser engolido pelo crocodilo Chega?
Sim, entre o original e a cópia, o eleitorado escolhe o original, ainda para mais um original na extrema-direita que tem uma “liberdade de atuação” que um partido social democrata não deveria ter, como partido dentro da história que tem dentro do funcionamento democrático português.
No atual contexto, quem deve ser o parceiro privilegiado do PSD? O Partido Socialista?
Em momentos de grave crise da democracia liberal, não só em Portugal, com os resultados eleitorais que temos, como também noutros países, é fundamental aprofundar acordos com parceiros que também são fundamentados precisamente nessa democracia liberal e obviamente que o PS é um caso desses. Isso também já aconteceu, no reverso, quando o PSD estava na posição e foi colocado esse ónus sobre a liderança de Rui Rio.
Mas isso não seria entregar, de alguma maneira, a oposição de bandeja ao Chega, que podia agigantar-se como líder da oposição?
O problema está na normalização do discurso, na escolha das temáticas — porque é que o governo recém-empossado escolheu a temática da imigração/nacionalidade para colocar como o principal tema agora? A escolha do tema, a forma como e debate o assunto, abrindo as portas escancaradas à extrema-direita — até na residência de São Bento — isso sim é a normalização do discurso e é a interiorização desse discurso e atuação. E a extrema-direita tem de ser combatida por oposição e pela demonstração dos factos reais, sobre o contributo positivo, não só para a economia como também para a sociedade portuguesa, de uma imigração que se quer que seja feita de forma harmoniosa e dentro do sistema democrático. E não é abrindo a porta à extrema-direita que se consegue domesticar essa extrema-direita. Já outros cometeram esse erro de tentar domesticar e não é possível domesticar. É estranho este puro eleitoralismo, esta pura colagem à extrema direita.
Na semana passada assistimos a um momento no Parlamento com André Ventura, e também nas redes sociais a deputada Rita Matias, a ler nomes de alunos de escolas portuguesas. O PSD devia ter feito uma condenação forte desse momento. Hugo Soares, o líder parlamentar, chegou a dizer que a esquerda é que estava a empolar o assunto. Essa é a reação adequada?
Isso não é de todo a reação adequada. É preciso fazer frente a esse género de atuação indigna por parte de políticos junto de uma comunidade que é a comunidade mais frágil da nossa sociedade, que são as crianças, que mais devemos proteger, seja de onde for a natureza da sua origem e origem cultural. Estão envolvidos numa escola portuguesa e é preciso salvaguardar essa integração. Aguiar-Branco também tem tentado uma outra abordagem, mais tolerante a essa extrema-direita e à sua “liberdade de expressão”, e vemos que ela não se coíbe por causa disso. É muito importante que na casa da democracia haja um total respeito pela dignidade e pela igualdade entre os cidadãos.
Spinumviva? “Montenegro quer varrer para baixo do tapete”
Voltando aqui ao artigo de opinião em que anunciou que se ia desvincular do PSD, uma das coisas que diz é que seria impossível permanecer militante de um partido que baseou toda a campanha na fabricação de uma “dicotomia entre fazedores contra bloqueadores, questionando as mais básicas exigências de transparência no exercício de cargos públicos”. Luís Montenegro devia ter-se demitido da liderança do partido na sequência do caso Spinumviva?
A busca pela transparência, do “quem não deve não teme”, também inclui informação junto do eleitorado. E permaneceu sempre uma aura de dúvida em relação a essa falta de transparência junto do eleitorado, até levando ao oposto. Já tinha visto esse filme diretamente cá na Madeira. Foi exatamente a mesma estratégia adotada, que é criar no eleitorado a noção de que existe a seguinte dicotomia: ou estamos a deixar alguém trabalhar, ou são os outros “chatinhos” que estão sempre a procurar papéis. E a duvidar até do papel, mais do que legítimo e necessário, da comunicação social nesse escrutínio.
Luís Montenegro está a impedir que a opinião pública faça um juízo documentado sobre o seu percurso?
A forma como trata também a Entidade da Transparência tem sido demonstrativa desse posicionamento de querer varrer para baixo do tapete certas questões, quando o que é necessário é sempre um cabal esclarecimento e transparência junto do eleitorado. Isso cria uma descrença junto de cidadãos em relação à justiça, aos motivos que estão por trás de mecanismos judiciais. Quem está no poder executivo não deve ajudar à descredibilização.
“Albuquerque fez chantagem emocional com o eleitorado”
Escreveu que o filme da Spinumviva já tinha acontecido “noutras latitudes, mas que não se esperava da estrutura nacional”. Reconhece neste caso algum dos sinais de alerta que tem criticado nos comportamentos de Miguel Albuquerque na Madeira?
O que aconteceu na Madeira, e ainda acontece, tem sido o contrário daquilo que foi prometido em 2015. Passados quase dez anos, determinadas práticas não desapareceram por completo, como vimos na corrida às eleições internas que ocorreram recentemente, onde houve atropelos em termos dos direitos dos militantes, por exemplo. E a nível nacional há uma tendência de quase minimizar o que se passa na Madeira em termos políticos, como uma inevitabilidade de um folclore político. Fazemos parte todos de um país e não deveria haver essa forma de olhar para a Madeira como se fosse natural o que acontece.
Num caso como no outro, Miguel Albuquerque e Luís Montenegro venceram as eleições. Como é que explica isto?
A nível regional, houve muita chantagem política e emocional, que foi feita com o eleitorado madeirense, devido à questão do governo estar em gestão, de não haver orçamento regional e depois também fruto de alguma iliteracia política. Mas aqui na Madeira foi necessário ir buscar o CDS para conseguirem uma maioria. O assunto não está completamente resolvido, nem é tão linear quanto isso: não ganharam as eleições para estar mandatados para fazer o que quiserem.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 8.º e último episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui, o quinto aqui, o sexto aqui e o sétimo aqui]
Na Madeira, esperava ter visto a direção nacional do partido a condenar as declarações de Eduardo Jesus, que se referiu em termos impróprios a duas deputadas regionais?
Em primeiro lugar, gostava de ter visto um presidente da Assembleia Regional reagir imediatamente a condenar e a defender os seus colegas dessas declarações indignas, que nem em pensamento um executivo que está a convite do Parlamento deve pensar sobre os seus opositores políticos. Houve aí alguma hesitação lamentável também a nível regional, da parte das estruturas, e uma forma de justificar e desculpar tudo com o calor do debate.
E a nível nacional?
A nível nacional não me espanta, porque faz parte de todo o fechar de olhos ao que acontece na Madeira. Se outros exemplos já foram exportados, temo o que acontecerá se também este género de atuação for motivo de inspiração para o Governo. É fundamental haver essa clarificação de não se poder suportar este género de linguagem e agressividade perante outros deputados, até porque vemos o que está a acontecer pelo mundo fora: um exagero de violência política e verbal e um aumento dessa escalada, que também tem consequências nas atitudes até dos próprios cidadãos. Isto não pode ser normalizado e as assembleias também servem para servir de exemplo do que se pode e não pode fazer em sociedade.
Apesar de a sua desvinculação ainda ser uma decisão muito recente, admite regressar à vida política, por exemplo, por outro partido?
A minha decisão foi uma decisão muito ponderada, que demorou muito tempo também a concretizar, porque não é fácil depois de quase 20 anos de militância, de pertença, de partilha de projetos políticos. Os temas que estão em cima da mesa, a questão da lei da nacionalidade, a questão do crescimento galopante da extrema-direita, são problemáticos, e são debates muito maiores do que o destino individual de uma ex-militante.
“Entre Gouveia e Melo e Seguro votava em Seguro”
Vamos avançar com o segundo segmento do nosso programa, o bloco “Carne ou Peixe”, onde só pode escolher uma de duas opções. Quem preferia empurrar nos carrinhos de cesto do monte: André Ventura ou Eduardo Jesus?
Acho que Eduardo Jesus já andou várias vezes nas velocidades dos carrinhos a descer o monte, por isso teria que dar essa experiência à extrema-direita para ver se também baixa. Não só de altitude, como também de apoio a nível nacional.
Preferia umas rodadas de poncha na companhia de Luís Montenegro ou de Pedro Passos Coelho?
As ponchas deixo mais para quem nos visita à Madeira, portanto não iria participar nem com um nem com o outro.
Se chegássemos a uma segunda volta das presidenciais com Gouveia e Melo e António José Seguro, em quem é que votava?
Seguro.
Preferia fazer uma levada com Miguel Albuquerque ou com Alberto João Jardim?
Com Alberto João Jardim, porque parece que Miguel Albuquerque quer privatizar os trilhos e as levadas.