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On the set of The French Connection
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Gene Hackman era tão real como a luz fria do dia. Como a sua linguagem povoada de calão policial, os seus modos brutos, o álcool que bebia a mais, o discutível herói capaz de disparar pelas costas

Corbis via Getty Images

Gene Hackman era tão real como a luz fria do dia. Como a sua linguagem povoada de calão policial, os seus modos brutos, o álcool que bebia a mais, o discutível herói capaz de disparar pelas costas

Corbis via Getty Images

"The French Connection" e Gene Hackman: 50 anos depois, ainda incorruptíveis /premium

Estreou-se em Outubro de 1971. Meio século depois, a verdade deste pioneiro dos filmes-guerrilha continua lá toda: das perseguições pelas ruas de NY ao rosto do herói mortal.

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“Se o filme deixou um legado, não faço ideia qual seja”. Quem se atreveu a dizer tal infâmia acerca de “Os Incorruptíveis Contra a Droga” (“The French Connection” no original)? Oh, ninguém de especial – apenas Gene Hackman, o protagonista, que, na pele do truculento polícia Jimmy “Popeye” Doyle, ganhou o primeiro dos seus dois Óscares (o outro seria já nos anos 90, por “Imperdoável”) e o único na categoria de ator principal. “Não vejo o filme desde a primeira projeção, há 50 anos, numa sala de visionamento minúscula e escura numa empresa de pós-produção”, explicitou há dias ao New York Post, na primeira entrevista que concede numa década.

Aos 91, goza uma reforma pacata em Santa Fé desde que se retirou em 2004, depois de uma carreira brilhante que, porém, culminou numa comédia chamada “Alce Daí, Senhor Presidente” (talvez tenha sido boa ideia sair aí, sim. Aliás, melhor ideia ainda teria sido sair imediatamente antes). Na conversa tida por email, e mesmo reconhecendo o enorme empurrão que a “Connection” representaria para a sua vida e obra, sintetiza, no mesmo carveriano tom “heroísmos não, por favor” que ofereceu a muitas das personagens que interpretou: “Na altura, pareceu-me a história respeitosa de um polícia que conseguiu impedir uma poderosa família de criminosos de se infiltrar no negócio da droga em Nova Iorque”.

[o trailer de “Os Incorruptíveis Contra a Droga”:]

É mais ou menos isso, Gene – quem somos nós para contrariar? Mas, felizmente para William Friedkin, o realizador, e Philip D’Antoni, o produtor, houve quem se sentisse mais empolgado no fim daquela hora e 45 de jogo do gato e do rato nas ruas de Nova Iorque. Desde logo os membros da Academia, que lhe deram cinco dos principais Óscares em 1972 batendo, por exemplo, “A Última Sessão”, do jovem prodígio Peter Bogdanovich, ou a “Laranja Mecânica”, do monstro Kubrick: Melhor filme, Realização, Ator Principal, Argumento Adaptado e Montagem. Mais a imprensa estrangeira em Hollywood que lhe entregou quatro globos, pelas mesmas quatro primeiras categorias. E os britânicos, que também não devem ter desgostado deste filme muito americano, de tal modo lhe deram também cinco BAFTA, distinguindo as mesmas categorias que a congénere no novo mundo, trocando somente o argumento pela banda sonora. E finalmente nós, os espectadores, que aqui estamos a celebrar o filme 50 anos depois, mesmo mal nos lembrando da última coisa que almoçámos.

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Mas, como tantas outras vezes na história do sucesso, também este esteve quase para não acontecer. Uns filmes têm tudo para dar certo e dão errado; outros têm tudo para dar errado e dão certo. Porquê? Ninguém sabe. É o sortilégio do que a câmara quer ou recusa. E por isso fascina.

O “p” nada silencioso em “Incorruptíveis”. O artigo definido em “a droga”. Façam melhor, seus punks

“The French Connection” é o muito célebre título original. Refere-se explicitamente a um braço criminoso francês que tentou infiltrar-se nas redes de tráfico de heroína da Big Apple dos anos 60 (sim, detestamos destruir-lhe isto, mas, afinal, os sixties não foram só erva e LSD). A tradução portuguesa, porém, cometeu aquela rara proeza de, entre nós, se tornar tão famosa como o original, parodiada, glosada, imitada: “Os Incorruptíveis Contra a Droga”. É preciso admirar a valentia deste título. Hoje, nem se traduzem os títulos; nos anos 70 e 80, rebatizava-se à bruta, e o autor que se queixasse se quisesse que, a seguir, ainda levava com pior.

“The French Connection” não sabia a estrelas nem estúdio. Era anos 70 puro, nova Hollywood, a geração que salvaria um star system em declínio por excesso de sucesso. Não era possível continuar a fazer cinema da mesma maneira depois de tantos anos. Não depois da nouvelle vague.

O mais marcante nos “Incorruptíveis” era a sua energia crua, ríspida, real. O ambiente de rua, a soltura da câmara, os modos das personagens, o embate do tráfico que quase conseguíamos sentir e, “last but not the least”, as personagens. Nada de atores bonitinhos saídos da maquilhagem para dentro do fato de polícia sofrido e mal pago – Gene Hackman era tão real como a luz fria do dia. Como a sua linguagem povoada de calão policial, os seus modos brutos, o álcool que bebia a mais, o discutível herói capaz de disparar pelas costas. Era isto: “The French Connection” não sabia a estrelas nem estúdio. Era anos 70 puro, nova Hollywood, a geração que salvaria um star system em declínio por excesso de sucesso. Não era possível continuar a fazer cinema da mesma maneira depois de tantos anos. Não depois da nouvelle vague.

A necessidade, essa mãe de todo o engenho

Bom, mas a “Connection” tinha duas boas razões para soar tão real. A primeira é que era baseada numa história verídica, ocorrida em 1961 e contada por Robin Moore oito anos mais tarde no livro The French Connection: A True Account of Cops, Narcotics and International Conspiracy. A personagem de Gene Hackman, Jimmy Doyle, inspira-se diretamente em Eddie Egan, detetive da secção de narcóticos da polícia de Nova Iorque; a de Roy Scheider, Buddy Russo, na de Sonny Grosso, colega no mesmo departamento. As alcunhas, aliás, eram mesmo as dos agentes na vida real: “Popeye” e “Cloudy”. Os traficantes são todos inspirados em criminosos reais, com a personagem de Alain Charnier à cabeça, interpretada pelo veterano espanhol Fernando Rey e baseada no chefe francês Jean Jehan.

On the set of The French Connection

Gene Hackman, o protagonista, frente a frente com William Friedkin, o realizador, durante a rodagem de "Os Incorruptíveis Contra a Droga"

Corbis via Getty Images

A segunda razão é que não havia dinheiro.

Sim, William Friedkin até queria uma estrela bonitinha no papel de Popeye – um Paul Newman ou um Steve McQueen – mas não cabiam no magro orçamento de 1,8 milhões de dólares, além de que, no caso de McQueen, acrescia a falta de vontade de voltar a fazer um polícia tão pouco tempo depois de “Bullitt”. O realizador lá desistiu dos sex symbols, virou-se para o outro lado da mesa de pool em “The Hustler” e sugeriu Jackie Gleason, mas Hollywood tem horror ao fracasso e a 20th Century Fox não podia arriscar depois do flop de “Gigot”. Peter Doyle recusou porque quis apostar nos filmes românticos; e Jimmy Breslin, a arriscada quarta ou quinta escolha, um lendário colunista da cidade que nunca tinha representado, ainda chegou a ensaiar três semanas com Roy Scheider, mas recebeu guia de marcha quando se percebeu que não sabia conduzir (e os fãs sabem como é importante saber guiar em “The French Connection”).

Também o vilão não foi, propriamente, uma primeira opção. Friedkin ligou ao diretor de casting pedindo-lhe um ator que tinha visto em “A Bela de Dia”, mas, como não se lembrou do nome de Francisco Rabal, tomou por bom o de Fernando Rey que ouviu do outro lado da linha. Rey era um actor-fétiche de Buñuel que viria a entrar também em “O Charme Discreto da Burguesia” ou “Este Obscuro Objeto do Desejo”, mas então nem sequer sabia falar Francês. Friedkin só não o terá despedido quando soube que Rabal, por seu turno, não sabia uma palavra de inglês.

Sem dinheiro para tanto figurante, muitos dos polícias que vemos em “Os Incorruptíveis Contra a Droga” são mesmo agentes da NYPD. O mecânico “Irv” é mesmo Irving Abrahams, um mecânico que trabalhava com a polícia e que Eddie Egan conseguiu pôr no filme. E até Bob Morrone e William Coke, respetivamente condutor e maquinista do metro, são mesmo condutores e maquinistas.

Aquele inconfundível travo a verdade

E não fica por aqui o que improvisos e constrangimentos orçamentais emprestaram ao filme. Sem dinheiro para tanto figurante, muitos dos polícias que vemos em “Os Incorruptíveis Contra a Droga” são mesmo agentes da NYPD. O mecânico “Irv” é mesmo Irving Abrahams, um mecânico que trabalhava com a polícia e que Eddie Egan conseguiu pôr no filme. E até Bob Morrone e William Coke, respetivamente condutor e maquinista do metro, são mesmo condutores e maquinistas, já que as autoridades se recusaram a pôr uma composição do metro nas mãos de atores.

Não foi construído um só décor em estúdio; tudo é filmado em cenários reais – 86, mais precisamente, dispersos por toda a grande Nova Iorque suja e perigosa, pré maravilhas da gentrificação. Sem storyboards e altamente dependentes de São Pedro e do seu extraordinário, porém incontrolável sistema de iluminação natural.

E, por fim, não se pediu autorização para filmar boa parte das cenas. Autorizações custam tempo, dinheiro e, nalguns casos, empregos. A cena dentro do metro recebeu autorização, mas teve por consequência o despedimento previsto pelo responsável que a concedeu quando pediu 40 mil dólares e um bilhete só de ida para a Jamaica.

On the set of The French Connection

Corbis via Getty Images

Cá fora, na mítica sequência da perseguição de carro debaixo da linha de superfície do metro, pura e simplesmente não foi pedida autorização para filmar. Afinal, eram só 26 quarteirões de Brooklyn, de Gravesend a Bensonhurs, percorridos a alta velocidade…

A sequência da perseguição

Detenhamo-nos um pouco nesses cinco lendários minutos de fita antes de acabar. Foram filmados com uma câmara presa ao pára-choques e reduzida para 18 frames por segundo para aumentar a sensação de velocidade, outra no capô e uma no interior do veículo operada pelo próprio Friedman, já que era a única pessoa na equipa capaz de filmar que não era casada nem tinha filhos. É mesmo Gene Hackman ao volante do Pontiac LeMans durante algumas partes do percurso, mas a maior parte foi feita por Bill Hickman, ator (no filme, é o agente Mulderig), mas também duplo, figura lendária que seguia o amigo James Dean no dia do acidente fatal e que já fora o responsável pela sequência de “Bullitt” – para muitos, a “outra” grande perseguição da história do cinema.

Nas ruas, os próprios “heróis” originais, os agentes Eddie Egan e Sonny Grosso, iam parando o trânsito nos cruzamentos mais perigosos com a ajuda de alguns companheiros. No interior do carro, outro polícia seguia escondido para mostrar o distintivo caso alguém os mandasse parar. E até o choque que vemos com outra viatura é real, a cena foi mantida e o assustado proprietário devidamente indemnizado.

[William Friedkin comenta a cena da perseguição no American Film Institute:]

A sequência tornou-se um must entre os adeptos do estilo “guerrilha”. “Foi apenas por graça divina que ninguém se tenha magoado ou morrido”, diz Friedkin à mesma peça comemorativa do cinquentenário no New York Post. “Nunca o faria agora.”

O legado

William Friedkin tornou-se um dos mais jovens realizadores de sempre a receber o Óscar – 36 anos – e é hoje o mais antigo galardoado com a estatueta ainda vivo. Dali saiu para dirigir outro filme mítico, “O Exorcista”, antes de ir, lentamente, mergulhando numa carreira que nunca mais conheceria o mesmo brilho. Gene Hackman, que só tinha decidido tentar ser ator 10 anos antes e já trintão, levou o seu Óscar, fez pouco depois com Coppola o genial “O Vigilante” e seguiu por uma carreira com muito mais altos do que baixos, que incluiu “Mississipi em Chamas”, “A Firma”, “The Heist”, “Crimson Tide”, “Get Shorty”, vestir a pele do Lex Luthor original na primeira trilogia de “Super-Homem” e até “The Royal Tennenbaums”.

Nas ruas, os próprios “heróis” originais, os agentes Eddie Egan e Sonny Grosso, iam parando o trânsito nos cruzamentos mais perigosos com a ajuda de alguns companheiros. No interior do carro, outro polícia seguia escondido para mostrar o distintivo caso alguém os mandasse parar.

“Os Incorruptíveis Contra a Droga”, que ainda teve uma discreta sequela em 75 com Hackman e Rey, mas dirigida agora por John Frankenheimer (“O Prisioneiro de Alcatraz”), foram eleitos um dos 100 melhores filmes norte-americanos de sempre pelo American Film Institute na lista comemorativa do centenário do cinema em 1998 e mantidos na atualização de 2007, mesmo descendo do lugar #70 para o #93. Constam como 8.º melhor thriller de sempre para o mesmo AFI e 10.ª melhor montagem de todos os tempos para a MPEG, guilda dos editores americanos de cinema (palmas para o editor Gerald B. Greenberg). A NYPD tornou-se — não só por causa da “Connection”, mas também — um dos ícones de Nova Iorque, com merchandising a ser vendido como souvenir típico ao turista de passagem.

“Quanto à perseguição”, diz Gene Hackman ao Post, “filmaram uma melhor uns anos antes com o Steve McQueen”.

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