Touros de Fogo. "A população de Benavente é que ficou queimada"

Comissão organizadora das Festas da Amizade e presidente da Câmara garantem que não houve "touros de fogo" - e queixam-se de ataque nacional. Ministério Público já abriu inquérito-crime.

Esta segunda-feira de manhã o ambiente em Benavente, vila de pouco mais de 11.500 habitantes, no distrito de Santarém, era de ressaca pós-festa. Muitas lojas fechadas, poucas pessoas nas ruas, maquinaria pesada a remover as toneladas de areia utilizadas para atapetar as ruas onde foram largados 30 touros, ao longo de três dias de festividades. Há gente nos cafés. E na Praça do Município, junto ao edifício da Câmara. Todas as conversas versam o mesmo tema: os touros de fogo “que não aconteceram”, e a “fotografia falsa que puseram a circular na internet” e que mostra um touro com as hastes a arder e a pele queimada.

Não podem chamar-nos nomes, dizer que devíamos levar tiros, que nos deviam era cortar os pescoços“, queixa-se ao Observador um “sardinheiro”, que é como quem diz membro da comissão de festas da terra, conhecidas por oferecerem sardinhas, pão e vinho aos participantes, e que este ano comemoraram 49 anos de existência. “Aquilo não é fogo, é aquela coisa dos foguetes!”, insurge-se a proprietária de um café, enquanto tira bicas e serve doses de moscatel gelado. “Alguma vez se ia fazer mal a um touro na Festa da Amizade?!”, responde-lhe uma cliente indignada pelo mal que nos últimos dias se tem dito das gentes de Benavente.

O alerta foi dado durante a semana passada pela Associação Animal: a comissão organizadora da Festa da Amizade, também conhecida como da Sardinha Assada, em Benavente, estava a preparar-se para apresentar, na edição desde ano, a decorrer entre 22 e 24 de junho, um espetáculo de “toiros de fogo”, uma tradição importada de Espanha, sobretudo da região de Valência, em que se prendem às hastes dos animais bolas de tecido ou de alcatrão que depois são incendiadas.

“Segundo testemunhos de médicos veterinários e especialistas em comportamento animal, o sofrimento físico que os touros experienciam quando os seus cornos ficam a arder é muito grande, quer porque os cornos dos touros são muito sensíveis, quer ainda porque os touros acabam por ficar com os olhos, focinho, boca e língua gravemente queimados, entre outras partes do corpo. A isto acresce o sofrimento psíquico que resulta de estarem nestas circunstâncias, querendo libertar-se do fogo que arde nos seus cornos e não sendo capazes de o fazer”, explicou a Animal em comunicado emitido um dia antes do início das festas.

Uma vila inteira está a ser chacinada dentro de Portugal por uma coisa que não aconteceu. Não somos assim tão retrógrados nem da Idade Média para torrarmos animais no meio da praça. No meio disto tudo, a população de Benavente é que ficou queimada."
Bruno Nepomuceno, cabeça de lista do PSD à Assembleia de Freguesia de Benavente

Com o apoio do PAN (Partido Pessoas Animais Natureza); por intervenção do comando territorial da GNR de Santarém, que reuniu com representantes da câmara municipal da vila ribatejana e com a comissão de festas; e de acordo com um parecer emitido pela Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), o evento foi cancelado na passada quinta-feira de manhã, a escassas horas do início das festas.

Ainda assim, um vídeo captado nessa mesma madrugada, em que se vê um grupo de homens a manietar e a pegar fogo aos cornos de um touro, em pleno cenário das festas locais, comprova que aquilo que foi decidido pelas autoridades não foi cumprido, o que não só incendiou as redes sociais como acendeu um rastilho de ódio nacional contra os benaventenses — que garantem ao Observador que a história não é bem como a têm pintado defensores dos animais e não só.

A secção de Benavente do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) já anunciou a “abertura de inquérito para efeitos de investigação da eventual prática de crime relacionada com a atividade ’touros de fogo’”, anunciou a Lusa ao fim da tarde desta segunda-feira.

Vídeo real, fotografias também — mas tiradas há anos, em Espanha

“Uma vila inteira está a ser chacinada dentro de Portugal por uma coisa que não aconteceu. Não somos assim tão retrógrados nem da Idade Média para torrarmos animais no meio da praça. No meio disto tudo, a população de Benavente é que ficou queimada”, diz Bruno Nepomuceno, cabeça de lista do PSD à Assembleia de Freguesia de Benavente, “sardinheiro” em 2000 e autor da mascote das festas, o Jacinto — “Trabalho em publicidade, todos os anos faço um campino diferente, como toda a gente gostou muito do que fiz no ano passado, ficou. O nome vem daquilo que se costuma dizer: ‘Jacinto, branco ou tinto?'”.

"Nós aqui em Benavente não somos um povo bárbaro, somos um povo de afetos. Na nossa festa celebramos a amizade num espírito de grande alegria, convívio e confraternização, em torno daquilo que são as nossas raízes, que estão ligadas à cultura taurina. O touro foi durante muitas décadas importantíssimo do ponto de vista social e económico para o município. Um povo que não tem história é um povo vazio."
Carlos Coutinho, presidente da Câmara de Benavente

Apesar de não contestar a veracidade do vídeo, Carlos Coutinho, presidente da Câmara Municipal, garante que as imagens que têm servido para ilustrar os artigos sobre aquilo que aconteceu nas Festas da Amizade não foram sequer captadas durante o evento. “Essas fotografias são espanholas e foram tiradas há anos, não têm nada a ver com aquilo que aconteceu em Benavente”, diz, secundado por cinco dos 19 “sardinheiros” de 2017 — todos os anos, no final das festas, cada membro da comissão escolhe um amigo para o substituir na tarefa de angariar fundos e organizar o próximo evento, faz em 2018 meio século que é assim.

Na 49ª edição da Festa da Amizade foram distribuídos 5 mil quilos de sardinha gratuitamente

“Os touros de fogo são uma tradição da zona de Valência, fazem uma hastes metálicas e na ponta metem umas bolas de tecido, tipo ligadura, impregnadas em alcatrão, e durante meia hora o animal anda a deslocar-se com aquilo. Com os movimentos, o material vai-se desagregando e obviamente cai em cima do touro, o que provoca queimaduras. Não foi o que aconteceu aqui, nós aqui em Benavente não somos um povo bárbaro, somos um povo de afetos. Na nossa festa celebramos a amizade num espírito de grande alegria, convívio e confraternização, em torno daquilo que são as nossas raízes, que estão ligadas à cultura taurina. O touro foi durante muitas décadas importantíssimo do ponto de vista social e económico para o município. Um povo que não tem história é um povo vazio”, garante o autarca. Que também admite: “Mesmo como aconteceu — foi posto um pequeno artefacto que dá luz mas não liberta fogo — provavelmente não devia ter acontecido. Percebo que o cidadão comum deste país, que não está familiarizado com a nossa forma de estar e de ser, possa ficar indignado. Talvez tenha havido alguma imaturidade…”

"A ser verdade que não foi utilizado fogo -- e tenho sérias dúvidas que o seja --, estamos a falar exatamente do mesmo. Não estamos a falar de pauzinhos que se colocam nos bolos de aniversário e que seriam inofensivos para o touro mas de engenhos pirotécnicos que soltam com muita intensidade e altas temperaturas faúlhas que vão ferir o touro e poderão até levá-lo à cegueira."
André Silva, deputado do PAN

Ao Observador, vários “sardinheiros” confirmam: cometeram um erro, mas esse erro não foi terem prendido, aos cornos de um touro, duas armações em ferro azul com um par de tochas de sinalização nas pontas, a que depois pegaram fogo. “O nosso erro foi termos escrito nos cartazes que íamos ter toiros de fogo! Isto faz-se muitas vezes em Portugal, ainda em 2014 se fez aqui em Benavente. Isto não arde, só dá iluminação, como aquelas coisas que se põem nos bolos de anos, não queimam. Até pedimos para não serem vermelhas, para não dar a impressão de que era fogo. Prezámos sempre pelo bem-estar do animal, não há povo no país que goste mais dos touros do que nós!”

Indústria tauromáquica em desespero?

André Silva, deputado do PAN, que na passada sexta-feira endereçou uma série de perguntas sobre o caso à ministra da Administração Interna e esta segunda-feira formalizou uma denúncia junto do comando geral da GNR — “Houve ou inação ou conivência por parte da entidade fiscalizadora”, acusa ao Observador –, discorda.

“A ser verdade que não foi utilizado fogo — e tenho sérias dúvidas que o seja –, estamos a falar exatamente do mesmo. Não estamos a falar de pauzinhos que se colocam nos bolos de aniversário e que seriam inofensivos para o touro, mas de engenhos pirotécnicos que soltam com muita intensidade e altas temperaturas faúlhas que vão ferir o touro e poderão até levá-lo à cegueira. É sempre uma agressão física injustificada ao touro. E se as pessoas assumiram que foi isso que fizeram assumiram também que usaram o sofrimento do animal como forma injustificada de divertimento”, diz o deputado, que garante que o caso de Benavente está longe de ser único. “Isto é apenas mais uma resposta da indústria tauromáquica, desesperada pela falta cada vez maior de adesão das pessoas às corridas de touros. Como não têm público, nos últimos dois anos têm vindo a operar cada vez mais na ilegalidade e a inventar novas formas de atrair pessoas. Este é só um dos muitos eventos que têm sido cancelados em todo o país nos últimos meses.”

A grande questão é: por que motivo, depois da reunião da passada quinta-feira de manhã na Câmara, em que foram cancelados os touros de fogo previstos para a meia-noite seguinte, decidiram os “sardinheiros” desafiar as autoridades e manter o programa das festas? “Não quisemos desiludir as pessoas, pela publicidade que já tínhamos feito, por isso é que arranjámos esta alternativa.”

"Tenho uma casa agrícola que compra e aluga touros para eventos. Sabia que ia haver touros de fogo, mas não como em Espanha, aquilo são umas coisas que há nos campos de futebol, não queimam. Tenho muito amor aos animais, não ia deixar que lhes fizessem uma coisa dessas."
Dilário Cavaco, proprietário dos touros

Mas, inicialmente, revela um “sardinheiro”, o que estava previsto era outra coisa. Nas extremidades das tais armações metálicas deveriam ser enrolados pedaços de corda, previamente mergulhados em líquido inflamável — “Como aquele que se costuma usar nos fondues, que incendeia mas não queima”, interrompe Bruno Nepomuceno –, a que depois seria pegado fogo. “Foram feitas duas peças, com mais de 20 centímetros cada, que na base ainda tinham um copo, para apanhar qualquer resíduo que por acaso caísse e garantir que não se queimava o animal”, garante este organizador das festas.

Um outro membro organizador, campino, que entretanto tinha ido à sede da comissão de festas, regressa com as armações usadas e uma tocha — “repuxo de mão 60 segundos – prata a dourado – amarelo”, diz o rótulo. Para comprovar que o engenho pirotécnico é inofensivo e não magoou o touro preso a um poste por volta da 1h00 da madrugada da passada sexta-feira, na Avenida Dr. Francisco José Calheiros Lopes, mesmo em frente ao tribunal de Benavente e logo após a atuação do grupo Ciganos D’Ouro, puxa de um isqueiro e trata de o acender. A chama extingue-se ao fim de um minuto, nem tanto, não sem antes o “sardinheiro” passar a palma da mão sobre ela, primeiro para um lado, depois para o outro: “Podem ver, não queima”.

O engenho utilizado para colocar nas hastes do touro

Mesmo ao lado, Dilário Cavaco, acena afirmativamente: não só não queima como nenhum dos 30 animais presentes nos três dias das festas sofreu qualquer tipo de ferimentos. Saberá o que diz: é o dono de todos eles. “Tenho uma casa agrícola que compra e aluga touros para eventos. Sabia que ia haver touros de fogo, mas não como em Espanha, aquilo são umas coisas que há nos campos de futebol, não queimam. Tenho muito amor aos animais, não ia deixar que lhes fizessem uma coisa dessas. Os touros estão todos ótimos, graças a Deus, até porque me fazem falta para outros eventos.”

Jornalistas convidados a sair “para não se aleijarem”

Após o incidente da madrugada de sexta-feira, as festas deste ano, a que acorreram, estima o presidente da Câmara, cerca de 40 mil pessoas, terão decorrido com a normalidade habitual. “Oferecemos cinco mil quilos de sardinhas, 10 mil pães e cinco mil litros de vinho. Ainda não fizemos o orçamento final, mas estimamos ter gasto uns 80 mil euros”, diz o presidente da comissão organizadora, por tradição o “sardinheiro” mais velho. “Não houve um único desacato, não tivemos qualquer problema de desordem pública”, garante Carlos Coutinho. Podiam ter tido, admite no entanto um dos organizadores, que reconhece que durante o “touro de fogo” os ânimos se exaltaram, com a equipa de reportagem da SIC presente no local: “Foram convidados pelo povo de Benavente a retirarem-se, para não se aleijarem. A SIC é um canal anti-taurino, está mais do que provado”. Acabaria por ser este canal a dar a notícia e a divulgar o vídeo que esteve na origem da polémica.

Apesar de várias notícias darem conta de uma investigação em curso por parte da GNR, fonte do comando territorial de Santarém garante ao Observador que “este assunto não carece de investigação nenhuma”. E informa que o auto da ocorrência, preenchido logo na madrugada de quinta para sexta-feira, já foi enviado à Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC), bem como ao Ministério Público local — que esta segunda-feira confirmou ter aberto um inquérito-crime para averiguar a situação.

“O evento durou apenas alguns segundos e não foi por isso mesmo presenciado pela GNR. Uma vez que entretanto chegou ao nosso conhecimento e que entendemos que a situação é dúbia e que poderá haver algum ilícito, enviámos a informação às autoridades competentes.”

"Não fomos nós, contratámos um grupo de profissionais, da Moita ou de Alcochete, nem sei bem, malta que está ligada aos touros, para fazer aquilo. Pagámos 500 euros, eram quatro mas trouxeram mais dez. E a população se quisesse participar também participava. Nós nem estávamos lá."
Membro da comissão organizadora das festas

Ao Observador a GNR garante que, sendo a Festa da Amizade da responsabilidade da comissão organizadora, não está a efetuar quaisquer diligências no sentido de identificar os pelo menos sete homens envolvidos na pega do touro em cujos cornos foram colocadas as armações metálicas dotadas de engenhos pirotécnicos — os responsáveis serão sempre os 19 “sardinheiros” de 2017.

Ainda assim, os membros da comissão, que pedem para não ser identificados pela reportagem do Observador, vão rejeitando as responsabilidades: “Não fomos nós, contratámos um grupo de profissionais, da Moita ou de Alcochete, nem sei bem, malta que está ligada aos touros, para fazer aquilo. Pagámos 500 euros, eram quatro homens mas trouxeram mais dez. E a população se quisesse participar também participava. Nós nem estávamos lá, não temos vagar para essas coisas, temos de andar a fechar ruas, a entregar barris… É muito trabalho. Nem vamos à cama desde quinta-feira”.

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