“Um Rei no exílio pode ser uma figura patética e toda a minha vida fiz por não sê-lo” /premium

14 Julho 2018292

Quando tinha apenas seis anos, Simeão II foi nomeado Rei da Bulgária. Com a imposição do comunismo, fugiu e passou 50 anos fora. Depois, foi eleito primeiro-ministro. Falou em exclusivo ao Observador.

— Ora então boa tarde!

A voz chega-nos de surpresa no lóbi do Hotel Albatroz, em Cascais, quando informamos na receção que viemos para uma entrevista. A meio da frase, o entrevistado surge-nos pelas costas, já de braço estendido para um aperto de mão firme, mas afável. É Simeão II, antigo Rei da Bulgária e ex-primeiro-ministro. É o único monarca no mundo a ter sido eleito para um cargo republicano.

É uma história única, a deste monarca que assumiu o trono com apenas seis anos, em 1943, depois de o seu pai, o Rei Boris III, ter morrido de forma misteriosa dois dias após uma reunião com Adolf Hitler. Aos nove anos, com a chegada e confirmação do comunismo na Bulgária, Simeão II e a família fugiram para o exílio. Primeiro, estiveram no Egipto e, mais tarde, assentaram malas em Madrid. Foram 50 anos de exílio, em que, conta Simeão II ao Observador, procurou não ser “uma figura que só serve para receções em salões”. E foi ainda mais fundo nessa pretensão quando, em 1996, regressou à Bulgária, causando uma enchente no centro de Sófia, onde se gritava: “Queremos o nosso Rei!”. Tanto pediram, que o tiveram — mas noutro formato. Em 2000, fundou um partido. No ano seguinte, ganhou as eleições e governou com maioria absoluta.

Simeão II está em Portugal para apresentar o seu livro de memórias, “Simeão II da Bulgária — Um destino singular”, cuja cerimónia contou com a presença de Marcelo Rebelo de Sousa. Regressou, assim, ao país onde passou algumas temporadas durante o exílio e onde a sua mãe, a Rainha Giovanna, viveu os últimos 24 anos de vida. Por isso, insiste que a entrevista seja num português praticamente fluente, onde só por vezes o espanhol dá um ar de sua graça. Nela, falou do passado no exílio, dos seus tempos únicos como primeiro-ministro, do atual estado da Europa e de como, apesar de ser monárquico, acredita que a Bulgária “funciona” como uma república.

A edição portuguesa do livro de memórias de Simeão II

Que memórias tem aqui de Cascais e do Estoril, por onde chegou a passar durante o exílio?
É dos tempos da minha juventude. Aqui, íamos à casa do Conde de Paris, em Sintra. E o irmão da minha mãe, o Rei Humberto, morava aqui. Por isso, naturalmente, tinha muitos amigos. Também estava aqui a família real espanhola. Ontem vi alguns amigos dessa altura. Já somos todos velhotes! Mas é sempre muito agradável vir aqui e ver como o país se desenvolve.

Mas foi feliz aqui? Afinal de contas, foi numa altura complicada da sua vida, o exílio.
O exílio nunca é uma coisa agradável, nem fácil. Podem falar de “exílio dourado”, mas ainda assim eu não posso recomendar a ninguém ir para o exílio. O nosso não foi dourado, com certeza. Mas quando se fala de um lugar tão bonito e agradável como esta costa, esquece-se que o resto da vida era sempre difícil.

Quais foram as dificuldades?
Não poder regressar ao meu país, ao mesmo tempo que via o que se passava lá. Também tivemos problemas e dificuldades económicas. O facto de ser um Rei no exílio — vou ser muito cínico, talvez — pode ser facilmente interpretado como uma figura patética. Uma figura que só serve para receções em salões. E em toda a minha vida eu fiz para não ser esse elemento, entre patético e inútil.

Fotografia de Simeão II a 25 de abril de 1943. Tinha seis anos — e quatro meses depois, com a morte do pai, passou a ser ele o Rei

Tinha claramente esse receio de ser patético, então.
Sim, talvez. Procurei não sê-lo!

Apesar de ter passado por vários sítios no exílio, foi em Espanha que ganhou estabilidade, correto?
Sim. Mas antes disso fomos da Bulgária para o Egito em 1946, quando saí com nove anos. Depois, em 1951, fomos para Madrid e fiquei lá até ao dia em que regressei à Bulgária pela primeira vez em quase 50 anos, menos uns meses, depois de ter saído do país.

Foi muito tempo fora.
Muitíssimo. É mais do que uma vida!

Em 1996, depois de 50 anos de exílio, Simeon II voltou à Bulgária. Em 2001, com um partido criado em seu nome, ganhou as eleições e tornou-se primeiro-ministro (Kael Alford/Getty Images)

E como foi a sua educação em Espanha? Em Madrid, estudou num liceu francês. Desta forma, teve uma educação espanhola, francesa, europeia, búlgara…?
Também foi em inglês, porque estive numa academia militar nos EUA. Estudei em Espanha em cursos de diferentes universidades, também. Foi uma mistura sempre útil, sempre interessante. Pessoalmente, sou francófono, é em francês que leio mais. Sou um leitor inveterado. E como durmo pouco, tenho tempo à noite para ler. Durante o dia, mesmo com esta idade, tenho muitas coisas para fazer, então leio à noite. E tenho muito orgulho nisso. Tenho perto de 3 mil livros lidos, em cinco línguas, nestes 81 anos.

Quais foram os livros que mais o marcaram?
Não, são livros de História. Sempre tratei de temas políticos que são relacionados com a História. É disso que eu gosto, gosto imenso.

Voltemos à sua educação. Acredita que foi educado para um dia voltar ao trono e ao poder?
Isso era relativo. Naquela altura, não se podia pensar em voltar, era uma quimera. Mas, tendo nascido com este nome e nesta família, a minha mãe insistia que eu e a minha irmã tivéssemos os princípios necessários. De certa maneira, comecei de muito jovem a ocupar-me com os temas búlgaros e a visitar comunidades de búlgaros no mundo. Quase sem querer, assumi esse papel, mesmo que apenas de forma teórica.

E custava-lhe que fosse apenas teórico? Deve ser muito frustrante um jovem saber que é Rei, mas que não pode passar da teoria à prática.
Mais do que frustrante, era uma realidade que tinha de se aceitar. Eu evitava imaginar coisas que não eram atingíveis. E depois, quando caiu o Muro de Berlim, nem sequer os melhores especialistas kremlinólogos acertaram. Por isso, não fui eu o mais ignorante ou ingénuo. Foi uma implosão, de repente.

Simeão II lançou este sábado a edição portuguesa do seu livro de memórias "Um destino singular" (Book Hut, 2018) (ANDRE DIAS NOBRE / OBSERVADOR)

Esperava que a União Soviética e os regimes do Pacto de Varsóvia durassem a sua vida inteira?
Mais do que a minha vida! Eu pensava que nem os meus filhos veriam a Bulgária. Enganei-me! (Risos)

A verdade é que, na Bulgária, não se assistiu propriamente a um período de maior tolerância, como a Perestroika. O autoritarismo até foi subindo, numa fase já terminal da presidência de Todor Zhivkov.
O Zhivkov esteve lá 35 anos! Deixou marcas profundas. Muitas vezes fala-se de ditaduras, mas… Há as ditaduras, há os regimes autoritárias e, depois, por cima disso tudo, há o regime to-ta-li-tá-rio, que exclui tudo! Foi isso que nós tivemos durante muitos anos. Quase duas gerações! Foram 35 anos. Ele começou pouco a pouco a mudar a Constituição, coisa que ele fez duas vezes, para poder entrar nas funções que pretendia.

Tudo isto, certamente, levou-o a pensar que nunca ia acabar, porque eles arranjavam sempre maneira de dar a volta, incluindo à Constituição.
Sim, sim. Mas, naturalmente, a Bulgária tinha as costas aquecidas pela União Soviética, o que era muito cómodo.

Até que a União Soviética colapsou. Como é que viveu os dois anos entre a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o fim da União Soviética, em 1991? Foi quando viu a queda do Muro de Berlim que começou a achar que…
… que o sistema não era eterno! Observei muito o que se passou, contactei com pessoas que antes não podiam sair do país. Antigamente, em Espanha, havia 42 — 42! — búlgaros. Agora há 280 mil oficialmente registados. Pode haver mais 20, 25 mil, além desses. Ou seja, era um movimento inédito. Então começaram a vir búlgaros a Madrid para falar comigo. E eu fiquei à espera, e a observar, desde 1989. A primeira pessoa da nossa família a voltar à Bulgária foi a minha irmã, em 1991. Depois foi a minha mãe, em 1993. Eu só fui lá em 1996. Porque queria observar, ver, deixar as pessoas pensar um pouco de forma livre. Então, esperei. Houve quem me dissesse que foi tempo demais, mas esperei.

No seu livro conta que teve uma conversa com a Rainha Isabell II em Londres, no Palácio de Buckingham, em que ela lhe disse para ter calma e não precipitar o seu regresso.
Sim, ela disse: “Não te precipites, como outros fizeram”. Mas como ela tem uma experiência tão fenomenal, é lógico que temos de aceitar o que ela diz. Além de um conselho para ir devagar, era uma insinuação.

"O facto de ser um Rei no exílio — vou ser muito cínico, talvez — pode ser facilmente interpretado como uma figura patética. Uma figura que só serve para receções em salões. E em toda a minha vida eu fiz para não ser esse elemento entre patético e inútil."
Simeão II

Mas disse-lhe o quê? Que estava a pensar voltar à Bulgária ou foi a Rainha Isabel II que percebeu que teria essa intenção??
Não, falámos em termos gerais. Eu disse que, naturalmente, como o país tinha regressado à democracia e já não estava no sistema soviética, sempre teria uma possibilidade de voltar lá e ver o país. Mas como cidadão!

Mas não foi bem como cidadão que começou a receber pessoas em Madrid. Não estava já a pensar no futuro? E que futuro é que esperava ter para si?
Eu estava na expectativa para saber o que eles imaginavam e o que eles esperavam.

O que esperavam de si, como Rei no exílio?
De mim, sim. Mas eu sou um realista profundo. Por isso, tudo o que são entusiasmos, sentimentos ou impulsos são de agradecer, mas há que olhar com cuidado para temas tão graves e complicados como a mudança de um regime.

Simeão II (à direita) numa caçada com o Rei Juan Carlos de Espanha (ao centro)

Quais foram os fatores que ponderou entre a queda do regime comunista, em 1991, e o seu regresso, em 1996?
Eu achei que aquele foi o momento oportuno para fazer uma primeira visita, que foi impressionante.

Foi recebido por milhares de pessoas no Aeroporto de Sófia e também já no centro da cidade.
Foi tremendo! E aí viram-se ainda os velhos costumes. O oficial da segurança que ia no carro, numa certa altura, diz-me: “Plano B. Temos de ir por outro lado”. Tudo isso para evitar, naturalmente, que tanta gente me visse. Eu disse-lhe: “Senhor coronel, eu espero por este momento há 50 anos. Vamos pelo trajeto previsto. Eu posso passar a noite no carro, que é muito confortável”. Notei logo que ele ficou incomodado. Mas, não é que a receção que me fizeram tenha sido um acontecimento enorme, mas fez disparar uma esperança que eram muito para lá das capacidades de uma pessoa.

Foi um período muito complicado na História da Bulgária, onde as pessoas tinham de ir às compras logo depois de ganharem, porque a inflação era tão alta que se esperassem umas horas já não conseguiam comprar nada.
Foi quase como o que aconteceu na Argentina. E depois também apareceu a política em democracia. As pessoas não sabiam bem como reagir, era tudo novo. Mas o povo búlgaro demonstrou uma sabedoria e um realismo invejáveis.

"O oficial da segurança que ia no carro, numa certa altura, diz-me: 'Plano B. Temos de ir por outro lado'. Tudo isso para evitar, naturalmente, que tanta gente me visse. Eu disse-lhe: 'Senhor coronel, eu espero por este momento há 50 anos. Vamos pelo trajeto previsto. Eu posso passar a noite no carro, que é muito confortável'. Notei logo que ele ficou incomodado."

Porque diz isso?
Porque podia ter havido excessos e vinganças. Mas não foi assim, aconteceu tudo sem vítimas. Depois de tantos anos num sistema assim, podia ter havido. Agora há quem olhe para trás e diga: “Ah, faltou catarse!”. Eu creio que para o país é sempre preferível que não se chegue à violência inútil.

No livro conta que se recebeu um recado de Todor Zhivkov, já em 1997. Ele queria falar consigo?
Sim! Para mim foi um convite muito interessante e fiquei sempre com pena de ele ter adoecido e morrido antes de me encontrar com ele.

Mas que conversa é que teria com o homem que, entre outras coisas, foi a cara do regime que o impediu a si de voltar ao seu país. Disso e de tantas outras coisas!
As outras coisas eram muito mais graves do que me ter impedido voltar ao país.

É evidente. Mas do ponto de vista pessoal seria sempre desafiante, não acha? Por isso é que lhe pergunto: que conversa é que teria com ele?
Quereria ouvir a opinião dele sobre os meus compatriotas. Afinal ele governou durante 35 anos, por isso devia conhecer as pessoas, os espíritos, os costumes, tudo, perfeitamente.

Vamos avançar um pouco no tempo e falar das eleições de 2001, que venceu. Que aventura foi esta? Acredito que tenha sido uma decisão ponderada, mas não deixa de ser uma aventura.
Sim, foi isso que pensaram muitos diplomatas e outros tantos — e, como em tantas ocasiões, o resultado não foi o que esperavam. Depois de tantos anos, entre 1989 e 1996, e depois a minha entrada na política em 2000, vi que pela minha experiência tinha um papel para desempenhar. Achei que o momento era oportuno. E preenchia todos os requisitos à altura: tinha mais de 40 anos e tinha nascido na Bulgária. Mas as autoridades tiraram uma carta da manga e disseram que não tinha residido nos últimos cinco anos no país, o que era um estupidez. Então disse: se eles não jogam limpo, porque é que me vou limitar a um papel de não-intervenção? Então criámos um partido e ficámos para ver o que acontecia.

É verdade que tinha contacto com prestigiados académicos, juristas, políticos, entre outros. Mas como é que foi o processo de encontrar pessoas para a sua lista? É que os deputados das suas listas não eram só pessoas com o perfil que acabo de descrever. Também havia um padeiro, uma maestrina de um coro infantil ou um guarda de uma apeadeiro numa pequena aldeia. Não foi um risco?
Não, porque qualquer pessoa no parlamento representa o povo. Tem de haver um pouco de todos e não só eminências, caso contrário é uma coisa imóvel. Por isso é que também fomos o partido com o maior número de mulheres — ou senhoras, como se diz agora, politicamente correto. Eu tinha visto mais de 4 mil pessoas em Madrid nos anos que esperei depois de 1989. Por isso já tinha visto e conhecido muitas pessoas. E aos que me pareciam mais capazes pedi que me aconselhassem pessoas para metermos nas listas. Por isso, montou-se uma estrutura complicada.

"Podia ter havido excessos e vinganças. Mas não foi assim, aconteceu tudo sem vítimas. Depois de tantos anos num sistema assim, podia ter havido. Agora há quem olhe para trás e diga: 'Ah, faltou catarse!'. Eu creio que para o país é sempre preferível que não se chegue à violência inútil."

Mas, sinceramente, esperava conquistar metade do parlamento? Foram 120 deputados em 240 possíveis.
E podíamos ter tido mais quatro deputados, caso não tivesse sido falsificado um partido que tinha o meu nome [a lista original era o Movimento Nacional – Simeão II e teve 42,74% dos votos; a “falsificada” teve 3,44%]  para desviar votos, só para dividir.

Faz lembrar os táxis em Sófia, onde há uma empresa que cobra preços legais — a OK — e outra que se faz passar pela primeira — chamada OH — e depois cobra preços muito mais caros. Fizeram esse truque consigo, também?
Eles tentaram, pelo menos! Mas nós conseguimos a maioria na mesma [em coligação com o Movimento pela Direitos e Liberdades, partido da minoria étnica turca] e acredito que fui útil para a transição, porque tinha experiência do momento espanhol. E além disso conhecia a experiência de outros países. Era um europeísta convicto — e ainda hoje sou, naturalmente — e no mundo ocidental havia confiança na minha pessoa. Desculpe que o diga, mas era assim. E isto era útil para o país, não era para mim, que podia ter ficado muito mais tranquilo em Madrid, sem responsabilidades e sem torturas como eram as sextas-feiras no parlamento. Era um fogo cruzado tremendo.

Quando tomou posse prometeu aos búlgaros que iria melhorar as suas vidas em 800 dias [a frase foi: “Estou pronto para propor um plano de medidas económicas e uma parceria socio-económica que, com a ajuda a conhecida produtividade e iniciativa búlgara, vai mudar as vossas vidas em 800 dias”].
Isso foi uma das lendas negras que ficaram até hoje. Quando vejo as estupidezes — desculpe — que dizem tantos políticos, não sei porque é que não lhes lembram algumas delas. Para mim ficou esta. Mas, primeiro, eu não prometi nada. Segundo, isso vinha de um livro de estudos americano para tratar de uma sociedade fraturada. Eram 800 dias. E o que eu disse era que íamos tentar. E o que eu disse que íamos conseguir em 800 dias conseguimos em mil. Portanto, o meu grande pecado por ser em mil em vez de ser em 800. Se toda a gente tivesse trabalhado e tivesse procurado avançar, eu acho que os 800 dias teriam sido suficientes.

Então sente-se injustiçado.
Não, mas isso foi usado por certas pessoas, por meios que me eram contrários, para dizer: “Lá está a sonhar, a dizer que vão chover notas de euros e dólares ao dia 800 dias e a partir daí não há problemas”.

E na sua análise o que é que aconteceu ao dia 1000, então?
Ao dia 1000 aconteceram as coisas que eu tinha dito que procuraríamos conseguir. Eu meço as minhas palavras cinco vezes. Prefiro ser assim para não lamentar nada do que tenha dito.

Mas que coisas foram essas? A entrada na NATO foi uma delas?
A NATO era necessária, tal como a entrada na União Europeia [a Bulgária só entrou em 2007, mas a assinatura do tratado que lhe abriu as portas, tal como à Roménia, foi em abril de 2005, quatro meses antes de Simeão II sair do poder] e conseguir uma certa democracia, com vários partidos políticos. E economia também cresceu, nos meus anos cresceu 6%. Naturalmente que na Bulgária tínhamos muito por onde crescer e muito caminho para recuperar, mas isso não pode diminuir o fenómeno de crescimento que houve. E as relações com o estrangeiro — eu tinha muitas relações da minha vida de negócios — e isso trouxe também empresas que se interessaram para começar algo na Bulgária.

Além de primeiro-ministro, acredita que foi também um pouco Rei na altura?
Para alguns sim, mas para outros fui um traidor, porque esperavam que o Rei fosse apenas Rei e não entrasse na política. E outros queriam que eu entrasse com uma sede de vingança e coisas destas. Mas isso estava muito longe da minha visão de futuro, de uma Bulgária democrática, de uma sociedade normal.

Em 2004, o Governo de Simeão II garantiu a entrada da Bulgária na NATO. Aqui, Simeão II cumprimenta o então secretário-geral, Jaap de Hoop Scheffer (Mark Renders/Getty Images)

É uma sociedade que, apesar de vários esforços, vive com o problema da corrupção.
Eu, em 81 anos, não conheço um país onde esse problema não exista. O que eu não aceito é que se diga, assim geralmente, corrupção. Diga-me apelido, primeiro nome e morada. E assim falamos. Mas conheço países onde as coisas funcionam da mesma forma. Não quero dizer que malo de muchos, consuelo de tontos [provérbio espanhol, traduzível para “o mal de muitos é o consolo dos tontos”], como dizem os espanhóis. Mas não aceito que se falo assim de corrupção. O que corrompe é igualmente corrupto como o que recebe. Isto não é nenhuma invenção búlgara, também vem de fora.

Não é um conceito búlgaro, isso é certo.
Pois não, não é um trademark.

Mas acha que a Bulgária não tem ainda uma imagem menos positiva no espaço da Europa? São poucos os países que aceitam o alargamento de Schengen à Bulgária. E no referendo do Brexit falou-se muitíssimo dos imigrantes búlgaros e também romenos.
Sim, e não compreendo porquê, porque tanto um país como o outro tem todos os requisitos para fazer parte de Schengen. Agora, com o que está a acontecer, não é tão justo para nós. Nós somos uma fronteira externa da UE, por isso temos mais responsabilidades do que os países internos. Fomos equipados para isso, tomámos as medidas que nos pediram… Mas, sabe?, fica às vezes a ideia de que precisam de ter um elemento que sirva de exemplo, para dizerem: “Aqueles são os maus e nós somos os bons”. Tudo é relativo e para mim o importante é que as coisas funcionem. Nós temos muitas dificuldades na justiça, mas já se eliminaram muitas, com os conselhos e as ajudas de muitos países para acabar com essa imagem de dúvida. Isso, naturalmente, demora algum tempo a ser posto em prática. Porque a democracia aprende-se, não se impõe. Dá para impor uma ditadura, sim. Mas uma democracia vem daqui [aponta para a cabeça].

Antes de vir para entrevista, falei com um antigo jornalista búlgaro que me contou várias histórias sobre, todas elas para ilustrarem um único argumento: a de que o senhor não foi um primeiro-ministro convencional.
Infelizmente não podia mudar o meu passado… (risos)

"Houve uma altura em que, em Plovdiv, chegou uma mulher cigana e assinou a lista. E o jovem que lá estava a recolher as assinaturas perguntou porque é que me apoiava. E ela respondeu: 'Ele deve ser um homem muito bom, porque tal como nós tem cinco filhos!'"

Ele contou-me uma história de uma senhora cigana que lhe terá enviado uma carta a dizer que gostava muito de si e que por isso deu o nome Simeão ao filho. E o senhor, por ter apreciado o gesto, convidou esta senhora e a família dela para a sua residência oficial. Isto aconteceu mesmo?
Isso é uma lenda. É muito amável, mas é uma lenda! Quem eu convidei foram os líderes Roma, que nunca tinham sido convidados, para ver o que se podia fazer com esta comunidade. A lenda desta senhora vem de outra história, que é do tempo em que me pediam para eu ser Presidente da República. E havia mesas onde as pessoas escreviam os seus nomes para fazerem um abaixo-assinado para eu me candidatar à presidência. E houve uma altura em que, em Plovdiv, chegou uma mulher cigana e assinou a lista. E o jovem que lá estava a recolher as assinaturas perguntou porque é que me apoiava. E ela respondeu: “Ele deve ser um homem muito bom, porque tal como nós tem cinco filhos!”. Esta história é verdadeira, ao contrário dessa de eu a ter convidado para a minha casa. Teria sido interessante para mim, mas não foi assim que aconteceu (risos).

Porque é que acha que há tantas lendas à sua volta, então?
Para mim, é um sinal de simpatia. Demonstram que há interesse. Houve uma situação anedótica, com a minha mulher. Ela gosta de passear na cidade, até porque ninguém repara nela. E houve uma vez em que ela estava na rua e passaram dois ou três carros grandes de forma um pouco prepotentes e uma senhora que estava ao pé da minha mulher disse: “Que vergonha, que perigo”. Depois quando ouviu a resposta da minha mulher perguntou de onde ela era, e a minha mulher disse que era espanhola. Ea senhora respondeu: “Ah, espanhola! O Rei Juan Carlos é um grande Rei, fez tanto pelo seu país. Ao contrário do Simeão, que não fez nada!”. Isto foi com a minha mulher! Num milhão de pessoas que há em Sófia, teve logo de encontrar minha mulher e dizer-lhe isso!…

Por falar do Rei Juan Carlos, é sabido que têm uma relação de amizade próxima.
Sim, claro. Crescemos juntos não só aqui, mas também em Espanha. Ele só tem menos 6 meses do que eu.

E têm a mesma experiência, nalguns casos. Embora ele tenha um pouco mais de sorte.
Ele teve um papel fantástico na Transição espanhola e pessoalmente devo-lhe muito.

Tentou copiar-lhe o exemplo?

Copiar é difícil porque cada país tem as suas especificidades, mas certamente foi um exemplo de que uma transição pode ser feita sem vinganças. O Rei Juan Carlos foi a garantia para que não houvesse…

… uma catarse, como disse há momentos.
Sim, isso.

Simeão II tem uma amizade de longa data com o Rei Juan Carlos. "Ele teve um papel fantástico na Transição espanhola e pessoalmente devo-lhe muito", disse (KOCA SULEJMANOVIC/AFP/Getty Images)

Mas isso, lá está, não é visto com bons olhos por todos. Há quem acredite que alguns assuntos ficaram por resolver, sobretudo porque se promoveu uma atitude de silêncio sobre o passado. Tanto que o novo Governo de Espanha quer agora retirar os restos mortais de Franco do Vale dos Caídos.
E acha que fazer isso vai servir para alguma coisa, para democratizar o país? Não acho nada disso. Acho que essas coisas têm de ser deixadas e ser muito mais pragmático e tentar não capitalizar sobre erros. Porque afinal de contas essa situação não foi criada por uma só pessoa. São circunstâncias. Muitas vezes os historiadores criticam tudo o que foi feito no passado. Isso é facílimo, eu também, poderia fazer isso. Mas quando se está lá e se tem de decidir tudo num segundo, as coisas já são diferentes.

Na Bulgária também houve este debate, com consequências diferentes, com a demolição do mausoléu de Georgi Dimitrov [primeiro líder da Bulgária comunista, que governou logo após o fim da monarquia, em 1946, até 1949, ano em que morreu].
Para mim foi um erro, até patético ou cómico, porque não caiu logo.

Sim, conta-se que levou mais dias a ser demolido do que a ser construído.
Sim, construiu-se em menos de duas semanas [Nota: foram seis dias]. Mas para mim demolir algo assim não é nem prático nem construtivo.

É verdade que quando foi eleito a demolição já tinha sido feita há dois anos. Mas, se isso não tivesse acontecido, não acha que teria a tentação de destruir o mausoléu de um dos homens que levou para a frente e sustentou um regime que em tudo lhe era oposto?
Não. Não. Eu gosto de construir. Gosto de acrescentar ao que foi feito no passado.

De forma sedimentar.
Isso. Não é tirar de baixo, de um passado que já não podemos mudar de qualquer das maneiras.

A Europa está a mudar rapidamente, em que começamos a ver o aparecimento de partidos novos que, nalguns casos, alteram a maneira de fazer política. Como encara este período?
É um fenómeno histórico, mas coisas não são imutáveis. Mas ver tudo isso como mau é colocar as emoções à frente dos factos e da realidade. Não é uma época de mudança, é uma mudança de época. É isso que está a acontecer e temos de aceitar. Não podemos ser pessimistas, isso é o pior. O importante é sermos realistas, porque ser otimista também é demais. Sobretudo porque agora se ouvem muitas críticas para a Europa. Mas que alternativa é que há para os países europeus. O que temos é de ficar unidos e ser a União Europeia.

Mas não lhe causa estranheza que em Itália, com o Movimento Cinco Estrelas e a Liga no Governo, se esteja a negar que navios com centenas de migrantes atraquem em segurança?
Para mim a lógica é sempre o realismo. Numa Europa em que o atual processo demográfico, é claro que os imigrantes são necessários. Olhemos para os números em vez de estarmos a olhar para a notícia que agita um dia ou dois e que depois se esquece. Tudo isto tem de ser estudado. Os partidos como a Liga e o Cinco Estrelas foram eleitos pelos italianos, não é uma coisa extraterrestre. Então, agora têm as consequências. Têm de operar e resolver os temas como eles acham correto. Se os partidos tradicionais dececionaram, então isso é um tema dos partidos tradicionais. Mas isso não põe em causa o futuro da UE ou de temas que são tão gravíssimos e fundamentais.

Mas como é que acha que a Europa deve abordar esta questão? É que o acordo que resultou do último Conselho Europeu é a prova de uma Europa atomizada, em que cada país decide sozinho e numa “base voluntária” se acolhe requerentes de asilo. E antes disso já houve países que, de forma unilateral, construíram vedações ao longo da sua fronteira. Fala-se do caso da Hungria, mas a primeira até foi a Bulgária, de forma parcial.

Nós fomos obrigados a isso pela União Europeia. No início entraram 27 mil refugiados, mas depois não queriam ficar na Bulgária. E a primeira quota que depois se decidiu para a Bulgária era 1650 refugiados por anos. Depois quando chegaram os primeiros 850, foram recebidos com cartazes a dizer “Welcome Refugees”, toda a gente estava contente. E eles disseram: “Não sabemos sequer onde é que fica a Bulgária, nunca pensámos em viver na Bulgária, queremos é ir para a Suécia e para a Alemanha”. E o que é que nós podíamos fazer? Interná-los? Então foram-se embora.

"Eu tenho uma afinidade e uma empatia com refugiados por ter sido um exilado. Então, compreendo muitas vezes as causas destas pessoas. Mas não posso ser um sentimental, tenho de ser realista e ver como se pode arranjar uma solução. Mas durante os vários séculos da Europa vimos situações análogas e até piores e sempre sobrevivemos."

Sim, o mesmo aconteceu cá em Portugal.
Pois. E o que é grave agora é que tem de ser ver por que país é que cada refugiado entrou e tem de voltar à força. Isso é um drama.

Mas, enquanto europeísta que é, como é acha que pode ser encontrada uma política uniformizada para este problema? Ou não pode?
A solução é a vontade de todos de permanecer e de resolver os problemas. Porque, mais uma vez, digo que não há uma alternativa à Europa que construímos e que ainda temos de melhorar. Mas não há soluções mágicas. Tem de ser pouco a pouco, com a experiência, com os erros. Eu tenho uma afinidade e uma empatia com refugiados por ter sido um exilado. Então, compreendo muitas vezes as causas destas pessoas. Mas não posso ser um sentimental, tenho de ser realista e ver como se pode arranjar uma solução. Mas durante os vários séculos da Europa vimos situações análogas e até piores e sempre sobrevivemos.

No entanto, há um argumento cada vez mais generalizado, tanto na opinião pública como nas esferas de poder, que apontam que estes refugiados são pessoas que não têm a nossa cultura, que não têm a herança judaico-cristã. O facto de serem muçulmanos pode ser um desafio, mas acha, como outros, que pode ser também um problema?

É um desafio, mas se olharmos para a proporção dos habitantes do país e virmos quantos é que são de uma outra cultura, não vejo que haja um perigo. A Alemanha tem mais de 2 milhões de origem turca e outro milhão dos que entraram. E, lá está, muitas dessas comunidades adaptam-se pouco a pouco. Não pode ser em seis meses, será em 20 ou 30 anos. Aí eles já são alemães e não pensam sequer como pensavam no país de origem.

Mas nem em todos os casos isso é evidente. Em França é recorrentemente apontado o problema da formação de guetos de imigrantes magrebinos, o que causa alguma fricção. Esta parte em si já não diz respeito aos refugiados, mas entra sempre no debate.

Muitos são só emigrantes económicos, sim. E há sempre uma parte do país que não conhece estes países nem estas pessoas e que, automaticamente, olha-os como inimigos. É uma certa ignorância. Outros têm medo que lhes tirem o emprego, mas muitas vezes os cidadãos destes países já não querem fazer os trabalhos que os imigrantes fazem. Por isso há um equilíbrio. Temos de ver as coisas com um pouco mais de generosidade e amplitude de visão, temos de pensar nas calamidades que sofrem estas pessoas que chegam. Porque são pessoas, não são números ou estatísticas.

O desafio que coloca também diz respeito à Bulgária. Em abril, foi publicada uma sondagem [da Comissão Europeia] onde se dizia que a Bulgária era o país onde se aceitava menos os imigrantes em toda a UE.
Não sei a que hora do dia, em que cidade ou em que aldeia foram feitas as perguntas. Porque historicamente na Bulgária entraram e saíram ocupadores estrangeiros, além de que somos abertos. Não somos anti-judeus nem anti-islamitas, porque até temos 15% de muçulmanos. Acho que isso é uma sondagem de certos grupos políticos que conheço…

… quais grupos?
Os que são xenófobos, de uma direita nacionalista um pouco… diria que dessimeonónica.

Onde é que diria que se insere no compasso político?
Pessoalmente, sou liberal. Assim foi a minha educação intelectual e também o nosso partido.

Liberal só na economia ou também nos costumes?
Naturalmente nos costumes e na economia, mas não como um neolib americano. É um liberal normal, onde a indústria e a economia funcionam consoante todas as regras da democracia. Por educação, sou uma pessoa tolerante.

"Temos de olhar para o mapa mundial e ver onde estamos. Não estamos muito longe da Rússia linguisticamente e, agora que já podemos falar de religião, também não estamos longe do ponto de vista religioso. É lógico que temos de ter boas relações. Não é por termos sido ocupados por eles que agora há perigo."

Mas apoiaria a aprovação do casamento homossexual na Bulgária?
Se for necessário, se houver uma maioria de pessoas que são afetadas por isso… Porque até agora a questão não passa de umas minorias e ninguém pergunta aos heterossexuais quem é que eles são e o que eles fazem. Por isso, para mim, isto é tudo muito pessoal e deve ser feito sem foguetes e muito barulho, para que não seja aproveitado como arma política e para que continuemos a legislar como noutros países, onde já se aceita.

Há pouco falou do politicamente correto, começando por dizer “mulheres” e depois trocando para “senhoras”. Alinha com as críticas que apontam para um exagero desta tendência?
O meu lema é: nada que seja exagerado é positivo. Tudo deve ter medida. É assim que as coisas funcionam melhor para si, para mim, para todos. Se alguém exagera, é sempre uma provocação para os outros e depois perdemos tempo em coisas inúteis.

Como tem encarado o desempenho do atual primeiro-ministro da Bulgária, Boiko Borisov? Vocês conhecem-se há muito tempo.
Sim, há muito tempo. Ele agora ainda tem dois anos como primeiro-ministro.

Ele foi chefe da sua equipa de segurança durante a campanha eleitoral?
Sim, mas não foi durante a campanha. Mas foi, durante quatro anos. Ele tinha uma empresa de segurança e era o chefe da minha equipa de segurança. Muitas vezes as pessoas falam dele e dizem que foi o “guarda-costas do Rei”. Isso é uma generalização e também uma maneira de falar dele com desprezo. Mas ele fez uma carreira fantástica! Porque eu depois fiz dele secretário de Estado da Administração Interna, a seguir foi eleito duas vezes para presidente da Câmara de Sófia e depois foi eleito para primeiro-ministro três vezes. E ainda lá está! (risos)

Ele procura a sua ajuda, vocês costumam falar?
Sim! Sim, sim. Agora com a presidência rotativa do Conselho Europeu, os búlgaros todos estão mobilizados para que resultasse bem.

E, fora da Europa, ouvi dizer que lhe abriu portas na Arábia Saudita, conseguindo que ele fosse recebido pelo Rei.
Sim, claro. Essa era uma oportunidade económica importante para o país. Por isso, eu eu tenho essa relação, porque não devo ajudar? Ele foi recebido pelo Rei, o Rei deu-lhe um almoço, o que é uma coisa nunca antes vista. E antes tivemos um encontro com o príncipe herdeiro. Eu conheço-os. Eu falei com o Rei Salman e disse: “Majestade, tem noção de que Sua Majestade é o quinto irmão que eu conheço?”. Por isso, é uma relação de muitos e muitos anos de amizade. E, se tenho a possibilidade de facilitar a visita do nosso primeiro-ministro, é a coisa mais lógica a fazer. Pragmatismo. No final de contas, o que interessa são as coisas que são úteis para o país.

Acredita que é um risco a Bulgária afastar-se da UE e aproximar-se da Rússia? Esta é sempre uma questão que se coloca em países que estão nestas coordenadas geográficas.
Temos de olhar para o mapa mundial e ver onde estamos. Não estamos muito longe da Rússia linguisticamente e, agora que já podemos falar de religião, também não estamos longe do ponto de vista religioso. É lógico que temos de ter boas relações. Não é por termos sido ocupados por eles que agora há perigo. Para mim, olhar só para Bruxelas é um erro. Temos de olhar para a China, o Japão, EUA e, antes de tudo, saber quem são os búlgaros e procurar os interesses do nosso país.

E isso pode passar por ter boas relações com Moscovo, então?
Não pode, para mim tem de passar! Somos tão pequenos que é ridículo procurar atitudes desafiantes. É um mercado enorme, tem um passado interessante. Eu fui o primeiro primeiro-ministro a ir a Moscovo depois de 1989 porque achei que era importantíssimo.

O senhor é de uma era em que lideraram referências, os ditos estadistas, como Winston Churchill, Charles de Gaulle ou até o Rei Juan Carlos. Como é que olha para estes tempos em que os EUA são liderados por um homem como Donald Trump, que apesar da sua vida empresarial ficou conhecido acima de tudo pelos reality-shows que protagonizou, sempre com um estilo muito próprio?
Muito próprio, sim!

Mas como olha para Donald Trump? Não é um tempo completamente diferente para o seu?
Sem querer ofender, não vejo nenhuma semelhança nem com a chegada ao governo nem nada disto. Tem de perguntar os cidadãos americanos.

Mas como encara o estilo de Donald Trump?
Não é o meu. Definitivamente.

Ainda assim é um líder que tem surpreendido algumas pessoas. Há tempos encontrou-se com Kim Jong-un e dentro de uma semana e uns dias estará com Vladimir Putin.
É lógico que o Presidente Trump tem de se encontrar com o Presidente Putin, porque são duas potências muito grandes. Às vezes, é melhor não personalizar. O mais importante é pensar as relações entre estas duas potências e que são positivas para o resto do mundo. Isso é muito mais importante.

"Com 81 anos já vi muito e estou agradecido ao Todo Poderoso por ainda estar vivo. Não tenho muito mais para fazer. Desfrutar dos netos, talvez."

Há que ser pragmático, então.
Aborrecido, talvez. Mas pragmático.

E, de forma pragmática, o que acha que lhe falta fazer na vida?
Com 81 anos já vi muito e estou agradecido ao Todo Poderoso por ainda estar vivo. Não tenho muito mais para fazer. Desfrutar dos netos, talvez.

Quem é o seu sucessor?
Trata-se de uma família e não de uma sucessão dinástica. O nosso filho mais velho, que morreu, era o nosso príncipe herdeiro. Agora tenho muitos netos e, graças a Deus, muito preparados e inteligentes. Espero que o nome fique ligado ao país ao nível de que eu gostaria.

Então acha que um dos seus filhos ou netos podem vir a ser, como é o seu caso, chamado de Czar ou Czarina na Bulgária?
Isso é muito difícil. Mas ninguém sabe o que vai acontecer.

Então o senhor é o último Czar?
Isso é normal. Isso faz parte da História. Veja a solução que adotou a princesa Margarida da Roménia. Eu gostei muito disso. É guardiã da Coroa. O que é isso, o que quer dizer? [Encolhe os ombros] Simbolicamente é uma coisa digna.

E pragmática?
Sim. Porque não há uma monarquia. Porque se houvesse uma monarquia seria uma questão completamente diferente. Mas quando é uma república isso depende dos cidadãos romenos, ou búlgaros, se preferem um sistema ou outro.

Não tem esperanças de a Bulgária voltar a ser uma monarquia?
Sendo realista e vendo como já passaram praticamente 30 anos desde 1989, acho que a nossa democracia funciona em república. Funciona mais ou menos, mas funciona. Isso é que é o importante. Que a monarquia constitucional ou parlamentária tem vantagens não há dúvida nenhuma. Mas eu já estou a fazer publicidade a isso há muito tempo.

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