Retrocedamos um século. Por razões óbvias, muita gente tem ultimamente revisitado a chamada “gripe espanhola” de 1918. Contudo, pela mesma altura, houve um outro acontecimento que seria também interessante recordarmos. Já ouviu falar da Depressão de 1920-21? É provável que não.

Todos nós, de tempos a tempos, ouvimos falar do fantasma do crash de 1929, dos medonhos anos 30, da Grande Depressão que (supostamente) só foi resolvida com uma nova Guerra Mundial. Provavelmente, haverá até quem, no atual contexto em que vivemos, acredite que perante a falta de medidas drásticas dos diversos governos podemos estar condenados a algo parecido. Contudo, surpreenda-se o leitor, nos anos de 1920-21 também houve uma depressão, mas da qual ninguém fala nem mesmo nesta altura em que ela seria jornalisticamente tão apelativa e suscetível de uma comparação direta. Mas ela existiu mesmo – está na Wikipedia!

Após o final da Grande Guerra seguiram-se alguns meses de elevados ganhos e renovadas expectativas. Porém, dada a gigantesca inflação e os controlos governamentais introduzidos pela guerra bem como os mortos provocados pela mesma e pela pandemia que a seguiu, era inevitável um grande reajustamento nas economias de diversos países.

No que respeita aos Estados Unidos, diversos autores estimam uma redução no Produto Nacional Bruto (PNB) de entre 2,4% e 6,9%! Quedas gigantescas nos preços, entre 14% e 18%. Repito: deflação de 18% em dois anos (superior à verificada nos anos 30)! O desemprego que em 1919 se estimava entre 1,4% e 3% atingiu possivelmente os 11,7% em 1921. Foram reduções drásticas nos lucros, empresas a falir e a mudarem de proprietários em processos de insolvência, até que… terminou. Em 1923 o desemprego já se voltava a cifrar entre os 2,4% e os 4,8% e a economia estava pronta para os “Loucos Anos 20”. Tal como descreveu o professor e banqueiro Benjamin M. Anderson (1886-1949) nas suas memórias, «assumimos as nossas perdas, reajustámos a nossa estrutura financeira, aguentámos a nossa depressão e, no mês de agosto de 1921, começámos de novo. Na Primavera de 1923 já tínhamos alcançado novos máximos na produção industrial e havia até falta de mão-de-obra em muitos setores».

Perante tal sucesso no combate à recessão, a pergunta que se coloca é: O que fez o Governo? Queremos aplicar a mesma receita!

A resposta é: Nada. Ou melhor: cortou despesa para reequilibrar o orçamento e reduziu a dívida pública! Não houve injeções massivas de liquidez da parte do banco central, nem gigantescos planos de estímulo da parte do ministério da economia, nem controlo de preços e de lucros. O Presidente Wilson havia sofrido um severo AVC no final de 1919 que o deixou basicamente incapacitado durante o resto da sua presidência e o seu sucessor, o republicano Warren G. Harding, expressou-se da seguinte forma aquando da sua nomeação como candidato à presidência, em 1920: «Apelemos a todos por parcimónia e economia, por abnegação e sacrifício se for preciso, por uma luta mundial contra a extravagância e o luxo, pela reafirmação de uma vida de simplicidade, daquele plano de vida prudente e normal em que consiste a saúde da República. Nunca, desde que a história da humanidade se começou a escrever, se recuperou de uma guerra a não ser pelo trabalho e pela poupança, pela diligência e abnegação, ao passo que a despesa desnecessária e a extravagância negligente têm marcado todas as decadências na história das nações.»

Por ser tão caricatamente oposto ao que esperaríamos de um presidente da república hoje em dia, tomo a liberdade de citar também uma parte do seu discurso de tomada de posse, em março de 1921: «Nenhum destes castigos será leve, ou sequer distribuído uniformemente. Não existe forma de assim os tornar. Não existe um passo instantâneo da desordem para a ordem. Temos de enfrentar as condições de uma realidade cruel, assumir as nossas perdas e começar de novo. É a lição mais antiga da civilização… Nenhum novo sistema fará um milagre. Qualquer experiência selvagem só contribuirá para aumentar a confusão. A nossa melhor garantia reside numa administração eficiente do nosso sistema já testado».

Assim sendo, o orçamento federal foi reduzido de 18,5 mil milhões de dólares em 1919 para 3,7 mil milhões de dólares em 1922 e a dívida pública desceu de 26 mil milhões de dólares no final de 1919 para 22,3 mil milhões em junho de 1923. Por estas razões, o reconhecido analista financeiro James Grant autor do livro The Forgotten Depression: 1921: The Crash That Cured Itself, notou com ironia que «tanto à luz da doutrina keynesiana como da monetarista, é difícil imaginar políticas mais primitivas ou contraprodutivas». Nesse sentido, compreende-se que Grant tenha descrito esta depressão como “a depressão que se curou sozinha”.

Mas será que o Governo podia ter tornado as coisas mais suaves? Talvez. Só que provavelmente à custa de estagnação, como foi o caso da Depressão dos anos 30, e de maiores problemas no futuro, como foi também o caso do Japão, como descreve Anderson: «No início de 1920, os grandes bancos, os grupos industriais e o governo juntaram-se, destruíram a liberdade dos mercados, travaram a queda dos preços das matérias-primas e mantiveram, durante sete anos, o nível de preços japonês acima do nível mundial, então em queda. Durante estes anos, o Japão sofreu uma estagnação industrial crónica e, no final, em 1927, teve uma crise bancária de tal gravidade que muitos grandes grupos bancários ruíram, assim como muitas indústrias. Foi uma política estúpida. Na tentativa de evitar perdas em inventário que representavam um ano de produção, o Japão perdeu sete, só para depois incorrer em perdas ainda mais exageradas no final. O New Deal começou no Japão no início de 1920

A Primeira Guerra Mundial serviu às burocracias estatais do Ocidente como prova definitiva do quão saboroso poderia ser um controlo abrangente, por parte do Estado, das engrenagens capitalistas. Por outro lado, a desintegração do padrão-ouro clássico e o regresso ao uso quase descarado dos bancos centrais para financiar dívidas de guerra à custa de inflação marcaram o fim da ordem mundial construída pelos liberais clássicos, baseada no rigor financeiro e no comércio internacional. Todavia, mantinham-se ainda, em especial na população americana, alguns dos valores e traços culturais que haviam levado à sua extraordinária ascensão. Basta lembrar que quer a Reserva Federal quer o imposto sobre o rendimento, tal como hoje o conhecemos, só haviam sido instituídos nos Estados Unidos poucos anos antes, em 1913.

Desde então, muita coisa mudou, incluindo, obviamente, o enquadramento legal, institucional e até cultural das nossas economias. A economia são pessoas – e a sociedade atual não parece dispor das “âncoras” culturais e institucionais que lhe permitiriam aguentar no sobressalto de 2020-21 uma receita tão drástica como a circunstancialmente aplicada em 1920-21. Enquanto liberal, acredito que tal situação se deve, em grande medida, às ilusões e distorções coletivas criadas e forçadas pelo Estado, que tudo finge precaver e que em tudo promete intervir.

E é por isso que escrevo este artigo: para que o nosso País saiba que nem sempre foi nem terá de ser assim; para que saiba que tempos houve em que os indivíduos e as comunidades superavam, em liberdade, até as piores depressões; e para que perceba que, ao contrário do que lhe dizem, o Estado intervencionista e esbanjador faz mais parte do problema do que da solução.