Quando se misturam muitas discussões numa só por regra não se chega a lado nenhum. Pior ainda é quando nesses debates se associam agendas pessoais ao que devia ser apenas um franco debate de ideias. Nessa altura, à direita, está mesmo o caldo entornado. Temo por isso que não seja possível ter um debate civilizado e cordato sobre o abaixo-assinado “A  clareza que defendemos”, até porque ele foi desde o primeiro minuto capturado pelo tema dos Açores. Mesmo assim vou fazer um esforço para clarificar dois pontos – a questão de saber se “tudo começou em 2015” e a da equivalência entre os extremismos de esquerda e de direita.

1 A ideia de que tudo começou em 2015 com “o precedente da geringonça” é atrativa mas não é rigorosa. Não há dúvida que foi com o passo dado por António Costa em 2015 que se romperam dois tabus: pela primeira vez deixou de ser o partido mais votado e com mais deputados no Parlamento a formar governo e também pela primeira vez partidos que não faziam parte do “arco constitucional” foram chamados a viabilizar uma maioria parlamentar.

Só que não foi em 2015 que a direita descobriu que não poderia nunca governar em Portugal sem ter maioria absoluta – foi em 1979 e foi com Sá Carneiro. Sá Carneiro formou a primeira AD porque percebeu que só com uma maioria parlamentar o PS e a esquerda (na altura, o PCP e a UDP) o deixariam ser primeiro-ministro. De então para cá nunca essa regra se quebrou a não ser por uma vez: em 1985, quando o PRD irrompeu efemeramente na cena política e Cavaco Silva pode formar um governo minoritário que só duraria dois anos. Depois disso, em 1987, 1991, 2002 e 2011 só houve primeiros-ministros de direita quando os partidos de direita tiveram maioria na Assembleia. Ponto final, parágrafo.

Por outras palavras: a direita para governar tem de ter maioria, como Sá Carneiro percebeu, e pediu, em 1979, e Cavaco Silva repetiu em 1987 e 1991.

O que é que mudou de 2015 para cá? Ficou claro, tanto à direita como à esquerda, que com o actual sistema eleitoral maiorias absolutas de um só partido são virtualmente impossíveis de alcançar. Já eram antes, mas agora com a multiplicação de novas forças políticas, com a erosão do centro político e com a percepção (essa sim criada pela geringonça) de que o voto útil pode não ser tão útil como isso, as maiorias absolutas monopartidárias passaram ao domínio da quimera.

Mais: como estas eleições nos Açores comprovaram, estamos a assistir a uma mudança do sistema partidário. Há partidos novos que tudo indicam vieram para ficar, como o PAN, a Iniciativa Liberal e o Chega. E há um partido fundador do regime, o CDS, que mesmo resistindo, passa por uma crise existencial (nos Açores acaba de perder um deputado e um quarto dos votos).

Não julguem que a chegada destes novos partidos afecta apenas as áreas políticas onde burocraticamente os arrumamos – Chega e IL à direita, PAN à esquerda. O fenómeno é mais complexo e abala de forma muito mais estrutural os alicerces do sistema partidário, das velhas fidelidades e das ideias feitas sobre “esquerda” e “direita”. É pena em Portugal haver poucos estudos eleitorais, mas basta olhar para a geografia do voto e para o que nos vão dizendo as sondagens para perceber que o Chega penetra no eleitorado de quase todos os partidos e fala sobretudo para as classes mais baixas ou que  a Iniciativa Liberal tem uma base eleitoral mais transversal, mais jovem e que até compete em muitos meios com o Bloco de Esquerda.

É neste quadro que não posso deixar de sorrir quando continuo a ouvir os raciocínios clássicos dos sapientes “analistas” sobre os eleitores “moderados” que deixariam de votar aqui ou acolá por causa do Chega nos Açores. Também ouvi quem dissesse o mesmo a propósito do que fariam os eleitores moderados do PS quando descobriram que Costa afinal podia casar-se com uma gerigonça, mas viu-se. Na verdade o que assusta, ou mesmo horroriza, os nossos sapientes analistas (e, claro, a generalidade dos jornalistas) não é bem o que realmente faz mover o cidadão comum. Mas disso tratarei no próximo ponto.

2 Se consultarmos o site do Prémio Nobel, nele escreve-se que Egas Moniz recebeu o da Medicina em 1949 “pela sua descoberta do valor terapêutico da lobotomia em certas psicoses”. Hoje todos consideramos essa prática bárbara. Na socialista Suécia, estima-se que entre 1935 e 1975 (sim: 1975) 63.000 pessoas, essencialmente mulheres, tenham sido esterilizadas no quadro de um programa eugénico destinado a tornar mais forte o povo sueco. A prisão perpétua, que Portugal aboliu em 1884, ainda está prevista no Código Penal da maioria dos países da União Europeia. E sabiam que a possibilidade de administrar uma substância hormonal para impedir que alguém de ter uma ereção por um período de tempo limitado, algo a que vulgarmente se chama, para horror geral, “castração química”, está prevista na legislação de países como o Reino Unido, o Canadá, a França ou a Suécia?

Referi todos estes exemplos, como podia ter citado muitos outros, apenas para chamar a atenção para um ponto: aquilo que consideramos aceitável discutir à mesa de gente civilizada evolui com o tempo, muda com a geografia e, muitas vezes, basta que alteremos a linguagem para que nos pareça palatável o que antes surgia como abjecto. Mas como vivemos no tempo das redes sociais, das tribos e das claques e é por vezes muito difícil ter a presença de espírito para separar o trigo do joio, foi de causar arrepios a forma como por estes dias vi traçar algumas “linhas vermelhas”.

Tenho para mim claro, por exemplo, que quando falamos de democracia falamos sobretudo de regras, não de fins, porque no fundo falamos de um sistema que assegura que é sempre possível uma transição pacífica de poder, uma mudança de políticas, e que ao mesmo tempo os direitos das minorias são respeitados e todos têm direito a exprimir-se. Por isso horroriza-me tanto a resistência de Donald Trump em organizar a transição de poderes, como me assustam aqueles que no campo oposto propõem sanções revanchistas.

Dito assim parece muito consensual, quem leu os jornais e viu as televisões nas últimas semanas sabe que esta aparente evidência é tudo menos consensual.

É assim que, vindo para Portugal, me espanto quando se escreve, por exemplo, que “sendo todos os extremismos um risco, hoje o comunismo é uma relíquia inofensiva”, como se a China, governada por um Partido Comunista, não estivesse em vias de se transformar na primeira potência mundial, ou como se não tivéssemos assistido nas últimas décadas a tragédias como a venezuelana. Da mesma forma que fico chocado quando alguém, que até se diz de direita, considera que “a limitação da linguagem ou da liberdade de expressão a pretexto do politicamente correcto” é um assunto que pode ser discutido naturalmente numa sociedade plural, mas que a tal “castração química” que afinal é mais comum do que parece, não é tema “admissível” numa democracia europeia.

Cito estes dois exemplos porque eles me parecem exemplares de muito desnorte que para aí vai. Na verdade ninguém nos deve pedir para ter certezas e ou possuir “verdades eternas” — devemos sim ser muito claros sobre quais são os nossos valores e os nossos princípios, assim como não podemos tirar os olhos da nossa bússola pois temos de saber o que queremos, porque só assim chegaremos a algum lado.

Neste debate tenho algumas certezas, e uma delas é que a extrema-esquerda não é melhor, nem mais inocente, nem mais inofensiva do que a extrema-direita. Vão por mim: já fui de extrema-esquerda, conheço a sua forma de pensar, descortino-a mesmo quando ela se disfarça, sei que nunca comunistas ou bloquistas, sobretudo os primeiros, serão realmente democratas.

Mas da mesma forma que tenho certezas, também não sei dizer quem ganha ou quem perde quando um partido moderado da direita faz um acordo com um partido radical. A literatura não é conclusiva. E não me sai da cabeça que no país onde se levou mais longe o princípio da “cerca sanitária”, a França, tanto a velha direita como sobretudo o partido socialista acabaram destruídos enquanto o partido de Le Pen nunca parou de crescer.

3 Para que não restem dúvidas, e sem entrar em mais controvérsias, já disse o que tinha a dizer sobre a solução governativa dos Açores. O voto dos açorianos foi claro: queriam a mudança e deram a maioria a um conjunto de partidos de direita que podia proporcionar essa mudança. A obrigação desses partidos era entenderem-se, como se entenderam, mesmo que por vias travessas por causa do Chega. Fora da bolha dos que vivem da política e para a política ninguém entenderia que isso não acontecesse e que se fosse jogar à roleta russa para o Parlamento Regional.