Os médicos portugueses estão ‘indignados’. Vivem diariamente o drama da ditadura informática que invadiu o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Uma ditadura sem regras, intolerante, desesperante, disfuncional e excessivamente burocrática. Em que a instabilidade dos programas e aplicações informáticas é desastrosa e o estado obsoleto em que se encontram muitos equipamentos (computadores) é sinistro. E esta situação provoca um sentimento de desalento e revolta nos profissionais de saúde e um enorme sentido de injustiça e ansiedade nos doentes. O que está a contribuir para agravar a relação médico-doente e a própria qualidade da medicina.

No momento em que os médicos estão sujeitos a uma pressão excessiva e inaceitável para produzirem mais números, mais consultas, mais procedimentos, mais cirurgias, sem qualquer respeito pelo tempo e pela qualidade, os Serviços Partilhados do Ministério da saúde (SPMS) e o Ministério da Saúde (MS) continuam a bombardear os médicos com programas e aplicações informáticas disfuncionais para tudo e mais alguma coisa. Os médicos querem trabalhar e muitas vezes não conseguem rentabilizar o tempo. E a sua relação com o doente vai-se deteriorando. Perdem muitos minutos preciosos para abrir programas, para “saltar” de aplicações em aplicações, para ultrapassarem “janelas” desnecessárias, para tentarem prescrever medicamentos através da receita médica desmaterializada (utilizando a já famosa Prescrição Electrónica Médica – PEM), para ligarem e desligarem o computador na esperança de ultrapassarem os problemas informáticos. Numa parte significativa dos casos sem sucesso.

Esta ditadura informática é um dos primeiros e principais obstáculos a um atendimento verdadeiramente focado no doente. É tempo de dizer basta! Não podemos continuar a aceitar promessas que não são cumpridas. Sempre que contestamos o “cortejo” de disparates informáticos que se vão sucedendo, alguém nos diz que tudo se vai resolver rapidamente. Falso. A situação em vez de melhorar, agrava-se. E a probabilidade de erro em saúde aumenta. Para desespero dos médicos e dos doentes.

É urgente e obrigatório reduzir a complexidade e o peso excessivo dos sistemas informáticos na medicina. Exigindo ao Ministério da Saúde a integração das várias aplicações informáticas, a simplificação de processos de identificação e o investimento em equipamentos e hardware. E responsabilizando as instituições dependentes do MS e o próprio MS pelas disfunções graves das aplicações e sistemas informáticos que tenham consequências negativas para os doentes e para os médicos. Não podemos continuar a ser responsáveis pela irresponsabilidade de outros. De resto, os SPMS já demonstraram, durante demasiado tempo, a sua incapacidade para resolver o problema.

Os sistemas informáticos devem ser concebidos para ajudar a melhorar a qualidade da medicina. Para simplificar processos e procedimentos. Para garantir informação fiável e acessível aos médicos dos doentes. Para preservar a confidencialidade dos dados pessoais. E não o contrário, como está a acontecer desde há alguns anos.

É preciso acabar com esta ditadura informática no SNS e devolver a Medicina à sua faceta mais humana, mais próxima do doente.

Os médicos e os doentes agradecem.

Presidente do Conselho Regional do Norte da Ordem dos Médicos