Mais uma semana que passou e mais uma indignação fútil. Fútil, porque não serviu para mais do que a mera utilização dos cidadãos em benefício de uma agenda própria. Desta vez, o motivo foi a entrevista ao Expresso do embaixador dos EUA em Portugal. De acordo com George E. Glass, Portugal terá de escolher entre os EUA e a China no que diz respeito, entre outros assuntos, à utilização da tecnologia 5G. Não é a primeira vez que os EUA alertam um aliado para os riscos (e o perigo), em matéria de defesa, que representa a tecnologia 5G chinesa. Aliás, é perfeitamente natural que um país soberano, como os EUA, perante uma ameaça à defesa dos seus interesses estratégicos, entre os quais se incluem os seus aliados, dê a conhecer a sua posição relativamente a essa matéria. É perfeitamente natural que um Estado soberano, como são os EUA, dê a um seu aliado, como país soberano que também é, a possibilidade de escolher que opção tomar. Tal como é perfeitamente natural que um embaixador cumpra o seu trabalho, que é o de comunicar ao país onde se encontra colocado quais os interesses do seu governo.

Não foi este o entendimento dos nossos governantes e de alguns analistas políticos portugueses. Marcelo Rebelo de Sousa, que fala mais rápido do que a sua própria vontade, foi peremptório ao afirmar, que por uma “óbvia questão de princípio”, “em Portugal, quem decide acerca dos seus destinos são os representantes escolhidos pelos Portugueses”. O Ministro dos Negócios Estrangeiros repetiu a mesma mantra, que, de tão óbvia, me faz crer que, a ser mais apertado, a escolha de Portugal será, obviamente, a norte-americana. Mas a indignação atingiu também alguns comentadores e jornalistas. Marques Mendes, por exemplo, disse que se tratou de um insulto inaceitável e que o embaixador devia pedir desculpa.  Já o director do Público, Manuel Carvalho, escreveu que Portugal não é um quintal de Washington. Da minha parte bem que dei voltas à entrevista (quase que virei o jornal ao contrário, não tivesse sido dessa forma que os críticos a leram) e não me deparei com qualquer ameaça. O que disse o embaixador? Que Portugal devia escolher entre os EUA e a China. Não disse para escolhermos os EUA. Também não nos informou que a aliança com Washington tinha os dias contados. Não, o que o embaixador norte-americano, George E. Glass, nos disse foi que, no exercício da sua soberania, Portugal teria de escolher entre os EUA e a China. O que Glass fez, enquanto diplomata, foi transmitir a Portugal as condições estabelecidas pelo seu governo e que os EUA consideram imprescindíveis para encarar Portugal como aliado. Não o podia fazer? Se não o podia, é porque nos esquecemos que os embaixadores não servem só para colocar fotografias suas nas redes sociais com o cachecol da selecção das quinas e torcerem pelo Ronaldo. Portugal é mais do que isso e a política também. Aliás, a própria soberania tem mais dignidade do que isso, por muito digno que seja o futebol e por muito mais que eu admire a carreira e as capacidades de Cristiano Ronaldo.

A indignação de Marcelo, Santos Silva, Marques Mendes, Manuel Carvalho, entre outros, é, perdoem-me, simplista. Deram-nos a escolher e o choque foi frontal. O que se percebe: num país onde os cidadãos têm pouca ou nenhuma liberdade de escolha, custa a crer que até os governantes a possam fazer. Perante essa possibilidade, indignaram-se, que é uma forma simpática de dizer que se assustaram. De acordo com o dicionário, indignação significa um sentimento de fúria ou desprezo, igual a um agastamento que, por sua vez, também se pode entender como um estado de preocupação e angústia. O que é, aliás, uma distinta definição de Portugal: um Estado de preocupação e de angústia. E não é só de agora. Tal como não é só de agora a ilusão relativamente à soberania. Já no século XVIII, o império português pouco mais era que uma permissão britânica, tornando-se, praticamente, num protectorado no final desse século. Até a continuidade da existência portuguesa se deve, de certa forma, à necessidade britânica de que Espanha não dominasse toda a península e se apropriasse do nosso império. Portugal, à semelhança dos Países Baixos, foi visto pelos Britânicos como um enclave na Europa e no mundo, postado às portas de Espanha. Éramos soberanos? De certa forma, sim. Como o fomos, quando D. João VI largou de Lisboa para o Rio de Janeiro com escolta britânica e o favor dos ventos; como o fomos, quando garantimos um império em África, para indignação generalizada de uma elite lisboeta, que não percebeu que se conseguia muito mais do que seria de esperar de um país pequeno. Se ainda somos soberanos? O Reino Unido decidiu sair da UE porque não se considerava como tal. É soberano, um país com aliados? É a Coreia do Norte, que não tem aliados, soberana? De que serve a indignação não fundamentada de um país, que se não pertencesse à UE o seu Estado não teria dinheiro para pagar os salários dos funcionários? Não serve para absolutamente nada.

Não serve, com certeza, para se perceber o que está em causa nas palavras do embaixador dos EUA. Porque o que Glass nos disse, foi que a China já não é o país pobre onde Portugal, em 1995, decidiu construir o aeroporto de Macau, porque Pequim não tinha condições para o fazer. A China é a nova grande potência mundial, está a comprar dependências na Ásia, em África (em Angola e em Moçambique, o que nos devia preocupar bem mais que as palavras de Glass), na América do Sul e na Europa. Portugal é um dos alvos dos investimentos chineses. O que Glass nos diz, é que neste tipo de rivalidades não está em causa apenas a economia e os negócios, porque tanto a economia como os negócios têm implicações políticas. Aquilo para que Glass nos alerta é a possibilidade de Portugal acordar um dia com uma penosa dependência face a Pequim. A diplomacia chinesa não brinca em serviço e a sua linguagem é enigmática. Se Portugal preferir não ouvir as palavras claras do embaixador norte-americano, corre o risco de, num futuro não muito longínquo, outros governantes escolhidos pelos Portugueses, se depararem com a incómoda e óbvia impressão dos que saem de reuniões sem que consigam definir por que motivo estas não correram bem. As verdadeiras ameaças só se sentem mais tarde, quando as palavras que nos dizem em surdina são devidamente digeridas. Nessa altura tornar-se-à óbvio, que não levámos a sério o aviso de um aliado. A soberania é um conceito muito complexo para que se lide com ela com fúria ou desprezo.