Rádio Observador

Orçamento do Estado

Adivinhem qual é o país que mais cresce na Europa

Autor
4.248

Os resgates não mudam a essência dos países. A competividade, a estrutura das economias, a qualidade das instituições são muito mais determinantes para a pobreza ou prosperidade do que esses programas

Qual é o país europeu, qual é ele, cuja economia cresceu 6,9% no ano passado, a taxa mais alta de toda a União Europeia? E que este ano e no próximo vai continuar a crescer a taxas elevadas – 4,5% e 3,5%, respectivamente (as previsões que utilizo são as que a Comissão Europeia ontem divulgou)? Que tem um défice orçamental controlado e a caminho de zero: 1,8% (2015), 1,3% (2016) e 0,8% (2017)? Que vai descendo a dívida pública dos 98,5% para os 91,5%? Que aumenta os salários médios entre 3,2% e 2,2% ao ano mas, apesar disso, o custo unitário do trabalho está em queda, o que significa que a produtividade aumenta mais do que os salários? Que tem o desemprego em queda dos 9,4% para os 7,8%? Que tem um excedente da balança externa na casa dos 3% do PIB? Que nos primeiros nove meses do ano passado assistiu a uma duplicação do investimento em propriedade intelectual, ao receber a transferência de patentes de empresas multinacionais – talvez porque a tributação que aplica sobre as empresas é das mais baixas da União?

Este país é a Irlanda e foi, a par da Grécia e de Portugal, um dos três países da zona euro resgatados entre 2010 e 2011. A crise irlandesa teve sobretudo origem na banca mas rapidamente contaminou as finanças públicas e a confiança dos investidores na capacidade do país pagar a sua dívida – tal como com Portugal e a Grécia. A intervenção da troika na Irlanda não foi branda e levou a um corte severo de cerca de 30% na folha salarial da função pública, a uma redução de cerca de 10% nos empregos do Estado e a cortes profundos na generalidade da despesa pública que, em proporção, se assemelharam aos portugueses. O défice orçamental chegou aos 33% em 2010, quando o Estado se viu obrigado a socorrer os bancos. E o desemprego atingiu os 15%. Houve uma vaga de imigração, num país que já tinha uma longa história nessa matéria.

Num momento em que continuamos às voltas com a nossa austeridade, a discutir cortes e reposições, a avaliar se aos apertos de esquerda são melhores ou piores do que os de direita e a tentar perceber se o PIB este ano vai crescer 2,1% ou 1,9%, é importante olhar para os lados.

Temos a Grécia, que continua mergulhada na sua histórica disfunção. E temos a Irlanda, que em três anos voltou às taxas de crescimento das décadas de 80 e 90 que lhe valeram o rótulo de “tigre celta”.

As intervenções da troika tiveram os seus erros, que não foram poucos, mas a cartilha aplicada nos três países foi semelhante: cortes na despesa pública, aumentos de impostos, maior abertura à concorrência de alguns sectores. Foi a cartilha que muitos consideram “neoliberal” e de empobrecimento.

Os opostos resultados a que chegaram os três países intervencionados permitem-nos pensar que a base de competitividade, a estrutura das economias e a qualidade das instituições dos países são muito mais determinantes para a pobreza ou prosperidade futuras do que os programas de emergência aplicados, os seus erros e as suas virtudes.

Os resgates não mudam a essência dos países e das economias. Os que não são competitivos, estão minados por corporações, rejeitam a abertura de mercados, preferem o proteccionismo e Estados anafados que não conseguem pagar, não mudam em três ou quatro anos de tratamento de choque com medidas pontuais e de emergência. É isso que está a acontecer na Grécia e, em menor escala, em Portugal.

Do mesmo modo, aqueles que conseguiram construir dinâmicas fortes de competitividade, que preferem a abertura da economia, que valorizam a capacidade de criar riqueza antes de a distribuir e que são dotados de instituições fortes e elites preparadas, também não perdem essas características só porque são submetidos aos mesmos tratamentos de choque. É isso que se verifica na Irlanda. Lá, fala-se da crise de 2009-2011 como “a grande depressão” e começa a ser assunto do passado. Está ultrapassada e o regresso da dinâmica empresarial e económica está de volta. Foi um mau momento que o país superou com o êxito que se vê.

Por cá, com ou sem troika, com ou sem austeridade, com mais ou menos “vacas gordas”, não sairemos deste processo de morte lenta enquanto não reformarmos a economia, tornando-a competitiva e aberta, e nos contentarmos com a mediania ou, pior do que isso, com a mediocridade protegida.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Orçamento do Estado

Afinal havia outro (orçamento)

Paulo Ferreira
2.412

O governo pretendeu manipular a discussão do OE2017. Para isso, serviu-se da esperteza de ganhar alguns dias sem os números reais, para que pudesse contar a sua história baseada em números falseados

Combustível

O mundo ao contrário /premium

João Pires da Cruz

Se o seu depósito é mais importante do que aquilo que os pais deste bebé sentiram quando lhes disseram que o filho deles morreu instantes depois do nascimento, é porque tem o mundo ao contrário.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)