Sabem do que me tenho lembrado, amiúde, neste tempo de omnipresentes manifestações pró-Palestina pela Europa fora? Tenho recordado que já andamos há imenso tempo à espera de uma manifestação — uma, que seja — da tal suposta maioria (esmagadora!) de muçulmanos, que veio para o ocidente apenas à procura de uma vida melhor e que, tal como a maioria (esmagadora?) de nós, também não é fã da ideia de que o proferir de uma qualquer versão da frase “Deus é grande” deva ser seguido por um rebentamento. Ou por uma boa série de facadas, vá.
Enquanto espero deitado numa cama articulada com um colchão ortopédico anti-escaras, constato que a hecatombe do Bloco de Esquerda nestas autárquicas foi muito para lá do desastre de que todos falam. O cataclismo foi ao ponto de, no próprio município de Mortágua, Mortágua ter tido exactamente zero votos. “Sim, Tiago, mas o Bloco candidatou alguém ao município de Mortágua?” Eh pá, não faço a mínima ideia e nem tenho vagar para continuar a pesquisar isso no Chat GPT. Agora, se a Mortágua não foi sequer candidat@ a Mortágua, o apocalipse foi ainda maior do que qualquer um de nós imaginava!
Apocalipse que teve o seu epicentro em Lisboa, claro, onde a coligação PS, Livre, PAN, Bloco de Esquerda e Hamas, teve menos votos do que a canção de Israel no Festival Gazovisão da Canção. Teve menos votos é como quem diz que, nos últimos tempos, pelo menos o Hamas viu a sua representatividade na política portuguesa disparar (pun intended, como é óbvio).
Ainda assim, isso não foi suficiente para que a coligação esquerdisto-bichano-islamista triunfasse, naquele que teria sido um extremamente simbólico — ainda que não Triunfo dos Porcos — Triunfo da Leitão. Como é que ninguém antecipou poder dar mau resultado alguém supostamente apoiado pelo Hamas apoiar a Leitão, apenas denota uma inadmissível desconsideração pelas milenares tradições gastronómicas de toda uma civilização.
Temos, portanto, o Bloco de Esquerda fora das câmaras municipais, facto ao qual não corresponderá, estou certo, termos o Bloco de Esquerda fora das câmaras televisivas. O que pode já explicar, em parte, o empenhado desinteresse pelo processo de paz no Médio Oriente, engendrado por Donald Trump. “Hum… Paz no Médio Oriente?… Já ouvi falar, sim, mas não ligo muito a essa coisa da paz num território historicamente envolto em conflitos sanguinários…” dá ideia de ser o máximo que se escuta, entre bocejos, na comunicação social tradicional. O que acaba por ser normal, convenhamos: o que é desmantelar o Hamas, o Hezbollah, os Hutis, a Síria de Assad e o programa nuclear do Irão, ao pé de saber se o PS terá linhas vermelhas em relação ao Chega em Alpiarça? É zero. Como os votos para Mortágua em Mortágua, nem mais.
A sorte do Bloco de Esquerda é que sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela. Janela pela qual o Bloco entra, sem pedir licença, claro, okupando de imediato a assoalhada. E nestas eleições, Ricardo Leão, do PS, ao ganhar de forma estrondosa em Loures, escancarou a janela para que o Bloco entre por lá adentro, acompanhado pelo movimento Vida Justa, para prosseguir a sua incansável campanha de desmantelamento de tudo o que se assemelhe a ordem e rigor no processo de realojamento naquele município.
Aliás, se depender da acção do Bloco de Esquerda, e a ver pelo rumo que o Médio Oriente pode seguir a partir deste processo de paz, por altura das próximas autárquicas aquilo em que boa parte dos portugueses estará a pensar não é se vota nos mais socialistas, nos só ligeiramente menos socialistas, ou nos psicoticamente socialistas: vamos é estar a pensar se não chegou a altura de nos mudarmos para a Faixa de Gaza.
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