Como espécie, temos uma capacidade única para nos adaptarmos a diferentes ambientes. E temos uma capacidade impressionante para transformarmos os ambientes em função das nossas necessidades. Em dias normais, habitamos múltiplos ambientes: o ambiente doméstico, os ambientes criados pelos transportes que utilizamos, os ambientes da restauração, os ambientes laborais ou escolares, entre outros. Esta pluralidade ambiental dificulta em muito a adoção de comportamentos de saúde, mesmo em condições ótimas de literacia e de motivação para a mudança.

Construir um hábito desejado implica criar automatismos na tomada de decisão; automatismos estes que são construídos à custa da repetição de comportamentos face a estímulos. Cada vez que repetimos a associação entre estímulo e resposta (por exemplo, associar o acordar com o comer um pequeno-almoço saudável), mais facilmente a resposta fica automatizada. As repetições iniciais são claramente mais difíceis de ocorrer porque concorrem com respostas já “instaladas”; em particular quando o ambiente varia constantemente (quando tomamos o pequeno-almoço fora de casa, por exemplo). A construção de hábitos é, portanto, dificultada quando faltam “marcadores” ambientais constantes.

O combate atual ao coronavírus implicou uma séria restrição de ambientes. É, sem dúvida um momento difícil. Que contraria a natureza exploratória da espécie humana. Mas é também um momento oportuno (kairós, no grego antigo) para a construção de hábitos de saúde desejados pelo próprio. Este retiro forçado permite-nos controlar o ambiente em que passamos a quase totalidade do tempo; podemos assim, mais facilmente, controlar o que comemos, o quanto comemos e quando comemos; permite-nos ajustar melhor os horários de sono; permite-nos criar rotinas de autocuidado (ler, ouvir música, etc.).

No meio da adversidade em que vivemos, os ambientes promotores de comportamentos patogénicos são bem mais fáceis de controlar: estamos maioritariamente limitados, por defeito, ao nosso próprio ambiente doméstico. Ambiente este que podemos moldar à nossa necessidade e interesse. E que, ao ser personalizado, permite-nos mais facilmente tomarmos as decisões certas nos momentos certos. Assim, apesar de tudo o que estamos hoje a viver, dispomos de uma excelente oportunidade para utilizarmos o dia-a-dia de forma proveitosa, para nos tornamos ainda melhores. Carpe diem.