A última viagem que fiz com a minha mãe foi à Sardenha. Nessa altura estávamos longe de imaginar que dali a seis meses iria adoecer e morrer. Ficámos numa pequena villa, mesmo em cima da praia, onde ouvíamos o mar até adormecer. Os dias eram lentos, sem pressa e sem acordo com a urgência dos viajantes: enchiam-se com as praias, com os passeios pela costa, com as graças do meu filho muito pequeno, com a comida sarda e o vinho italiano, com o riso de quem celebra o dia. Guardo essa Sardenha num lugar feliz.

Talvez por essa viagem se ter transformado numa despedida, sinta a opção de Ricardo Salgado se passear pela Costa Esmeralda depois de justificar a não comparência no seu julgamento com a fragilidade da sua saúde, como uma profanação. Ricardo Salgado terá mergulhado naquelas águas muito antes de eu as conhecer, terá com certeza, passeado por outras terras mais maravilhosas, que eu talvez não chegue a conhecer. Talvez a sua saúde debilitada, a despedida urgente de si próprio, necessite de mar calmo e lugares de referência. Talvez.

A certeza no entanto é de que Ricardo Salgado está a ser julgado pela sua responsabilidade na hecatombe do BES.  Por essa pedra que rola constantemente pelo monte abaixo, numa penitência exigida a cada contribuinte, ano após ano, num movimento perpétuo, em que Sísifo somos nós, mas o crime é de outro. Com o enorme risco do crime ser esquecido mas a penitência não.

Não sei o que acontecerá a Ricardo Salgado: se será considerado culpado; se cumprirá pena; se agravará a sua saúde; se sobreviverá ao processo. Sei que as suas escolhas reflectem-no. É a imagem da impunidade a passear por Porto Cervo, onde não se fazem ressonâncias magnéticas, estudos genéticos nem avaliações neuropsicológicas. Passam-se férias. Caras. Muito caras. Se Ricardo Salgado se passeasse pela costa algarvia, esse lugar outrora tão bonito como a Sardenha, vendido ao desbarato, esventrado pela ganância e pelas políticas medíocres, talvez se apercebesse das férias que milhares de portugueses não têm por serem obrigados a viver nos intervalos das medidas da DGS, da variante delta, das empresas moribundas à espera de apoio, das insolvências forçadas, das dívidas públicas que já comprometem as próximas gerações.

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A elegância construída de Porto Cervo, acerrimamente protegida e defendida com o dinheiro e poder de quem por lá passa e vive, é um reflexo bem claro da ausência de empatia de quem vive acima dos mortais, num Olimpo falso em que a grandeza de carácter já há muito se dissipou no exercício da ostentação discreta materializada no número de decks e comprimento em pés.

Ricardo Salgado é um homem elegante, um manequim. Não é um modelo.