Real
1 Não saber? Mas como não saber se sabemos sempre tudo? Todos ao mesmo tempo, globalmente e ao segundo?
Não saber, não comunicar, não ser comunicado? Verbos arrumados na história, coisas do outro mundo. Do de antes. A estranheza era tão imensa como um oceano. Não cabia num dia. E foi a rádio, a “velhinha” rádio, formidável companheira e igual a nenhuma outra, que nos amparou aquela estranheza, sem referências, nem identificação.
E a luz veio ao pôr do sol. Acertadamente.
Dizem que Luís Montenegro tem sorte. Talvez. Mas o que por estes dias se viu foi acerto no ofício.
Irreal
2 Pior é difícil? A pergunta ouve-se em vários círculos alusiva ao que aí ficou: o “apagão” e a pré-campanha legislativa. Nada têm obviamente a ver uma com a outra, o “espírito” foi parecido.
A partir de anteontem à noite mas sobretudo no dia de ontem, o que se ouviu – oposições e parte da media – foi de estarrecer. Da asneira à solta à obsessão com a afanosa procura de “culpados”, os empurrões para que fossem “do” Governo, senão do próprio governo inteiro: com o maestro da orquestra governamental a reger a grande “Sinfonia do Apagão”, da sua autoria.
A asneira à solta, sim.
Quando se substitui a pergunta pela acusação; e quando o argumento principal é a suspeita, o insulto ou a irracionalidade, o jogo democrático está subvertido.
A minha grande perplexidade é porém outra: será que o eleitor comum se revê, ou coincide com a conclusão do líder da oposição e candidato a Primeiro Ministro sobre o “apagão” ibérico? Esta conclusão, por exemplo: “Faltou uma voz de comando e de serenidade”? (Onde, em quê? Que prejudicou ou agravou?)
Outra: “ o Governo falhou e devia ter usado rádio, de hora a hora, para tranquilizar populações”. E numa adenda à sua própria conclusão política, Pedro Nuno Santos conclui sem sombra de dúvida, como se tivesse passado pelo mesmo: o “mais grave foi que também tivemos apagão no governo central”.
O mais grave?
Pode ser que eu me engane mas a pergunta não me surge como despicienda: o eleitorado revê-se nisto? E adere às amostras de ignorância ou de má-fé – abundantes, ambas – distribuídas ontem pelo ar do tempo oposicionista?
3 Pré campanha mortiça; promessas económicas de amanhãs que cantam; muito acinte, pouca substância; temas pescados na espuma dos dias e não no perigo dos dias; flagrante desfocagem – continuará ? – entre a comezinha visão doméstica com que nos entretiveram e a inquietante realidade do mundo como ele está. Cansaço? Também. Um cansaço triste. Fosse nos desinspirados debates televisivos, fosse na comemoração parlamentar do cinquentenário da Constituição: pouca convicção, modesto brio, fartas as culpabilizações recíprocas (e por parte de mais do que de menos, um indecoroso uso e abuso da figura do Papa Francisco – foi preciso ouvir para acreditar). Excepção para o Presidente da República. Se as palavras surpreenderam pela escolha do conteúdo – onde estava o jovem deputado Marcelo que em 1975 se sentou naquele mesmo parlamento inaugurando uma nova história política no país? – o seu discurso brilhou na construção da forma e da substância: na fluência e ritmo do verbo e na inteligência da sua devoção ao Papa Francisco.
4 Os debates? Por partes:
- Resistirá “este”(?) Pedro Nuno Santos (o dos debates) à sua própria natureza? Que caminho quis sinalizar com o uso da “moderação”? Para que escolhas aponta um repentino “centrismo”? Se no PS “funcionarem” os votos úteis, que fará o seu líder com eles? Ao menos a imprevisibilidade está intacta: afinal já não há CPI (mas ontem havia, com as consequências que se sabe).
- André Ventura, dividido entre o seu asco ao vasto perímetro pluripartidário e liberal que é o nosso, e o terror de não saber o que fazer de si mesmo e de 49 deputados, se lá não entrar, Ventura agitou-se. Fê-lo deploravelmente, entre o caos e a histeria (o que foi particularmente visível no seu debate com Luís Montenegro, et pour cause). Agarrado à emigração como a uma bóia e ao retórico assassinato de meio século português (onde teve protagonismo, se encostou a quem podia e cultivou ambições).
Ventura sabe que um dia vai ter que dar alguma coisinha aos 49 oficiantes ateus “desta” democracia, mas não sabe como, nem quando. Sim, mesmo que vá subindo a escada dos votos.
- Luís Montenegro talvez não pudesse estar no seu melhor após a exaustiva e causticante saga “Spinumviva”, que logo de início tratou com menos apuro discernimento e cuidado do que ela mereceria (acho eu). Um erro aliás logo ferozmente devorado pelo gáudio e apetite das oposições. Isto dito, a diferença entre Montenegro e o resto dos líderes-debatentes-televisivos, não me parece uma fantasia: na serenidade, no comedimento, na razoabilidade, no saber do que fala. Na racionalidade política com que usa e pratica a própria política. Falta o grande debate.
Ouço dizer que Luís Montenegro leva vantagem. Não sei. Mas há algo que o país sabe: Montenegro governa há ano e meio, Pedro Nuno Santos esteve lá durante muito tempo, com altas responsabilidades – que hoje acusa não existirem nos seus sucessores – e o seu partido morou oito anos no governo. A diferença assustaria qualquer líder, mas o líder do PS não se assusta: é ele quem assusta.
Mas veremos.
Transcendente
Como um luto pode ser luminoso e como numa desolada despedida esteve o dom da alegria… Passou-se diante dos olhos do mundo no último sábado, na Praça de S. Pedro onde, encenado pela milenar sabedoria da Igreja, tudo esteve certo no derradeiro adeus ao Papa Francisco: a profundidade do verbo, o recolhimento, a dignidade. A solenidade. Os substantivos talvez não casem com este latino vivaço, olhar brilhante, sorriso aberto, sempre próximo do “outro”, que fez do Evangelho um mapa e da Igreja um “hospital de campanha”. Mas tudo assim se passou: soleníssimo – não poderia ser de outra maneira –; e sentidíssimo: o mundo quis estar presente.
Crentes e não crentes unidos numa união planetária, em nome de um pastor que interpelou uns e outros através do seu legado: foi mais longe do que os autores do permanentemente aberto caderno reivindicativo insistem em não reconhecer; levou a Igreja para fora das suas portas, atemorizando “instalados” que foram preferindo etiquetá-lo a segui-lo.
Entre duas “alas” porventura excessivas e nada generosas entre si – e nunca esquecendo os do “meio da ponte” – esteve Francisco: presente, atento, e andarilho das sete partidas; interveniente pela palavra em todos os cenários de guerra, activo no diálogo inter-religioso, autor de Encíclicas vitais como mandamentos. Fiel à doutrina, servindo o Evangelho, sabendo lidar com o mundo que levava ás costas, foi o inspiradíssimo militante da Igreja “em saída.”
Após esta jornada memorável na Praça de S. Pedro – e da mais disruptiva fotografia que me lembro dos últimos anos – é com esse Pastor que fico. E com a universalidade da sua misericórdia que levou a todos, todos, todos.