Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Todos os dias nos morrem. São gente como nós, desconhecidos chegados. É deles que hoje quero falar, fazendo um parêntesis na Grécia, no dérbi, no estado islâmico; um parêntesis na angústia diária dos que não conseguem aceder a medicamentos vitais, dos que não conseguem aceder a empregos vitais, dos que não conseguem aceder a afectos vitais.

Todos os dias nos morre gente desconhecida, que afectuosamente conhecemos. Escritores, políticos, desportistas, músicos, actores. Cada vez que morre um, sobressaltamo-nos. Durante algum tempo fazemos luto, em conversas íntimas connosco próprios. “Deus meu” pensamos, se somos crentes (e às vezes se o não somos), “como será a minha vida sem ele, como será viver num mundo dele privado?” Não há resposta e, sem resposta, a vida continua, mais ou menos assim-assim.

“Captain, my captain”. Robin Mclaurin Williams morreu em 2014. Morreu-nos, poeta morto nas palavras ditas de Walt Withman a evocar Abraham Lincoln: “O Captain! my Captain! our fearful trip is done; The ship has weathered every rack, the prize we sought is won; …”. Traduzo livremente:” Ó capitão! Meu capitão! Nossa medonha viagem terminou; O navio venceu todas as tormentas, ganhámos o prémio perseguido; O porto está próximo e ouço os sinos, o povo inteiro exulta, Enquanto os olhos seguem a firme quilha, o barco audaz e enraivecido: Mas ó coração! coração! coração! Ó as gotas sangrentas de vermelho, No tombadilho onde jaz meu capitão, Caído e frio, e morto”.

A vida, a medonha viagem – a maravilhosa, exaltante, medonha viagem -, termina sempre assim, o capitão tombado no tombadilho, caído frio (e morto) depois de uma vitória exaltante, ou de muitas derrotas, prémios almejados, ganhos ou perdidos. A vida termina sempre assim, recordam-nos os mortos que nunca conhecemos, os nossos conhecidos mortos, que à distância também connosco navegaram o navio audaz  e enraivecido; o extraordinário e grandioso  navio que  é  a vida.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Interpelam-nos, esses mortos desconhecidamente familiares. Em 2014, Philip Seymour Hoffman, Mickey Rooney, Alain Resnais, José Wilker, Lauren Bacall; Gabriel Garcia Marquez, Nadine Gordimer; Paco de Lúcia, Johnny Winter, Joe Cocker, Pete Seeger; Eusébio… e tantos outros, pessoas conhecidas.

Para onde foram, interrogamo-nos, buscando pistas para o nosso próprio destino? Não fazemos ideia, na verdade. Essa é a verdade: 50 mil anos de religiões, 2500 de filosofia e teologias, milhares de mitos, deidades, muitos mortos depois e continuamos sem saber. Quem somos, o que aqui fazemos, para onde vamos? Porque somos?

Há uma resposta comprovada, difícil de pôr em causa: somos o resultado da selecção natural, o fruto longínquo da explosão câmbrica de há mais de 500 milhões de anos, explicados por Darwin e seus seguidores numa fascinante variedade de conceitos que mantêm actual e certeira a original teoria da evolução darwiniana. Somos os vencedores da luta pelos recursos naturais, os predadores no topo da cadeia. Quem diria?

Mas seremos só isso? A evolução é um facto, a teoria que a explica está consolidada – ainda que em permanente evolução (como o facto que explica). Mas seremos só isso, pergunto, repito-me? Quando pensamos nos nossos mortos familiares, quer nos que intimamente são só nossos, quer nos que sendo de todos também nos pertencem intimamente, não podemos deixar de questionar o sentido de tudo isto. E questionar até que ponto aquelas vidas – tão cheias de sentido, capazes de inspirar e divertir e embalar as nossas e as de tantos seres humanos -, não são a prova viva, ainda que tendo já cessado, de haver na existência muito mais do que uma luta pela sobrevivência, muito mais do que um facto biológico decorrente de sermos os seleccionados pela natureza, graças à força que a inteligência nos concedeu.

Entenda-se bem: não está em causa a teoria da evolução, tão óbvia, tão indesmentivelmente comprovada. Mas o ser humano, todos nós, precisa de mais do que isso – precisa de transcendente, de crer numa vida de significado, a que a morte não possa pôr cobro. A que a morte, afinal, venha dar sentido.

Miguel de Unamuno, num belo livro denso, defendeu não ser Deus o responsável pela imortalidade humana – por um devir para além do fim físico -, mas sim esse devir, esse transcendente destino, inevitável para além que nos justifica e fundamenta, que leva os seres humanos a inventar Deus. A criar Deus. E é assim que nós, frágeis seres imperfeitos e ao mesmo tempo tão maravilhosamente criativos, capazes de sublime e de terrível, de crueldade e de ternura, recriamos permanentemente as condições da nossa própria imortalidade. Mesmo que morramos, como morreram Eusébio, Amália, Pessoa e Camões, geniais geradores de mitos, imortais que nos fazem imortais.

E tudo isto é o contrário do horror jihadista, que mata a transcendência e condena os homens, em especial os perpetradores, à sua própria finitude e ao desespero da irrelevância, a que sempre estão condenados os algozes, os tarados, os buscadores de fama à Heróstrato. E assim acabei por falar da espuma dos dias, dos horrores a que ultimamente temos sido em excesso convocados; faço-o apenas porque a estupidez dos assassinos é demasiado espessa, feita do sangue, da ira e da profunda tristeza engendrada pela estupidez do fanatismo, e porque eles não sabem, eles não sonham, o mal que engendram sempre que julgam servir divindades (que, a existirem, porque estão ao serviço da transcendência humana, há muito os terão renegado).

Afinal, como escreveu Unamano, se é o nada que nos está destinado, vivamos de modo a fazer com que isso seja uma injustiça.

* Professor da Universidade Católica, Instituto de Estudos Políticos