Tenho a certeza de que todos se lembram daquela cena célebre do filme “Casablanca” em que o chefe da polícia lidera uma rusga ao café Rick’s. Depois de expulsar todos os clientes, o capitão Renault exclama, perante um Humphrey Bogart entre o perplexo e o indignado: “Estou chocado! Chocado por descobrir que há jogo aqui!”. Mal termina a frase, um empregado do casino clandestino aproxima-se dele com um maço de notas e sussurra: “Senhor, aqui está o dinheiro que ganhou”. Ninguém se espantará se eu afirmar que o PS e o PSD estão cheios de encarnações modernas do capitão Renault: figuras de autoridade capazes de mostrar choque perante aquilo que já conheciam.
Há dias, a PJ e o Ministério Público voltaram a entrar em juntas de freguesia de Lisboa com a força de um mandado judicial, desta vez para investigar os pequenos e grandes negócios feitos usando o nome do PS. Com a pontualidade esperada, as lideranças socialistas declararam-se ingenuamente surpreendidas por estarem a descobrir que há coisas esquisitas a passar-se na vida autárquica lisboeta. Coitados: eles não sabiam de nada. Acreditem: eles ficaram boquiabertos. Tenham pena: eles foram os primeiros a sentir-se traídos. Uma pessoa ouve-os e é tomada pela irreprimível vontade de citar a frase reveladora que Maria José Nogueira Pinto em tempos atirou a um adversário num congresso do CDS: “Você sabe que eu sei que você sabe que eu sei”.
Nós também sabemos que eles sabem. E sabemos que eles sabem que nós sabemos que eles sabem. Quanto mais não seja, porque era totalmente impossível não saber: em regra, cada investigação judicial a juntas de freguesia em Lisboa é apenas o resultado inevitável de trabalhos jornalísticos publicados vários anos antes. Aconteceu na Operação Tutti-Frutti, aconteceu no caso Huawei e aconteceu, novamente, na Operação Imergente: em janeiro de 2022, a revista Sábado já tinha contado tudo o que era preciso saber sobre as interessantes vidas de assessores e autarcas socialistas. Mas, tal como os macaquinhos japoneses, as lideranças do PS não viram nada, não ouviram nada e não falaram sobre nada.
Percebe-se porquê. Para chegar à liderança de um partido, não é preciso ter carisma (como se pode comprovar com facilidade ao olhar para exemplos mais ou menos recentes); não é preciso ter ideias (coisa que, muitas vezes, agradecemos); e não é preciso ter um atestado de bom comportamento (não me ponham a falar de um certo e determinado ex-líder socialista). Só é preciso, muito prosaicamente, ter uma coisa: votos. Melhor: blocos de votos. Na vida interna dos grandes partidos, a democracia faz-se como no século XIX, com recurso a caciques que controlam redes de favores e que, no dia em que é preciso escolher um líder, entregam, com diligência, carrinhas cheias de eleitores que nem sabem se estão a votar para a liderança do PS, do PSD ou da Associação Recreativa e Cultural de Alguidares de Baixo.
Estou genuinamente curioso: os líderes dos grandes partidos querem mesmo convencer-nos de que não sabem de onde vêm aqueles votos? Sejam sinceros: nunca perceberam que toda a organização interna dos partidos que chefiam está assente num sistema que incentiva a prática de comportamentos com relevância penal em troca de fidelidades?
Durante anos infinitos, as lideranças dos grandes partidos assistiram a tudo e não fizeram nada. Preferiram o conforto da inércia ao incómodo de um combate pela lei, pela ética e pela moral (juro que não é trocadilho). Permitiram, sem sobressaltos nem hesitações, que tudo se mantivesse na mesma, à vista de todos. E, depois, ficaram muito chocados porque um dia a polícia bateu-lhes à porta.