Entre 2012 e 2018 liderei a campanha de angariação de fundos da Nova School of Business and Economics.  Esta campanha obteve donativos de 54 milhões de euros de 50 empresas (70% do total) e de cerca de 1700 doadores individuais (30% do total), que financiaram não só a construção do campus de Carcavelos, mas também bolsas de estudo, cátedras para a contratação de professores e projetos de investigação e inovação. Sem estes apoios, dificilmente a faculdade poderia competir com as melhores do mundo como é bem visível na sua posição em rankings e na capacidade de atração de alunos internacionais.

Este modelo de financiamento tem sido atacado numa série de artigos publicados nas últimas semanas por Bruno Faria Lopes, Luís Aguiar-Conraria, Fernanda Câncio, João Paulo Batalha, Daniel Oliveira, Vera Gouveia Barros, Luís Monteiro e, porventura, outros que me tenham escapado.  A principal crítica que fazem é que a dependência das universidades do financiamento privado limita a sua independência e as torna suscetíveis a pressões várias.  (Presumivelmente, o financiamento exclusivo pelo Governo traz outro tipo de dependências, mas não é o tema em discussão agora…)

Suponho que estes articulistas não sejam ativistas de alguma campanha anti-empresas, nem sejam motivados por invejas e rivalidades entre universidades, pelo que devemos aproveitar a polémica para refletir sobre o modelo de financiamento filantrópico das universidades e, sobretudo, para aperfeiçoar os mecanismos de governo, de forma a não deixar dúvidas perante a comunidade que servimos.

A filantropia tem sido uma importante base de sustentação de universidades.  A primeira campanha de fundraising de Harvard aconteceu em 1643 e nomes como Stanford, Carnegie, Mellon, Duke ou Rockefeller são indissociáveis das universidades que fundaram.  E não se pense que é um fenómeno exclusivo de universidades privadas, há muitas escolas de universidades públicas com nomes que reconhecem os apoios que receberam: Anderson em UCLA (por onde andei muitos anos), Haas em Berkeley, Darden em Virginia, ou Kenan-Flagler em UNC.  Na Europa, a filantropia universitária é mais recente, mas há já muitas escolas, cátedras, centros e edifícios construídos com apoio de mecenas e a Nova SBE está na vanguarda deste movimento.  São exemplos de como a visão de filantropos pode impulsionar a criação de grandes instituições.  Mais ainda, a forte concorrência entre universidades pelo apoio de mecenas torna esta fonte de financiamento profundamente meritocrática – um doador privado só apoia um projeto se acreditar na instituição e se se identificar com a sua ambição!

Prevejo que a filantropia se torne ainda mais importante no futuro – em que, por exemplo, as universidades terão que fazer fortes investimentos para acompanhar a revolução digital na educação – uma vez que os governos não têm capacidade de financiar totalmente a educação e investigação de instituições de primeira linha.

No entanto, precisamos de ter todo o cuidado! Donativos filantrópicos só podem ser potenciadores da atividade das universidades desde que estas sejam capazes de assegurar que não haja “strings attached” que afetem os seus objetivos ou limitem a sua atividade. A integridade, independência e o propósito de serviço público têm que estar sempre num plano superior às intenções de qualquer doador, por generoso que seja.

Assegurar esta independência na prática nem sempre é fácil e já vimos alguns escândalos de grande dimensão – como o que afetou a London School of Economics por ter aceitado um donativo da Gaddafi Foundation, na altura em que o filho do ditador recebia um doutoramento da escola.

É óbvio que as universidades recebem pressões de todo o lado – veja-se a pressão que têm recebido recentemente de grupos ativistas e que levaram, por exemplo, a Universidade de Chicago a suspender o editor do Journal of Political Economy por supostos comentários racistas, ou Princeton, a retirar o nome do antigo presidente Woodrow Wilson da School of Public and International Affairs. Nisto, as universidades não são diferentes de outras instituições, incluindo o Governo, a Assembleia da República, reguladores, consultoras, sociedades de advogados, auditores e a própria imprensa. Em qualquer destes casos, o que distingue a qualidade das instituições é a forma como reagem a essas pressões. Os mecanismos de governo e códigos de conduta existem para assegurar a sua independência e dirimir conflitos de interesse. Mais ainda: as instituições são constituídas por pessoas e o seu comportamento reflete a integridade de quem as dirige. A ética não se proclama, pratica-se!

No caso que defendo, seguimos o mais possível o modelo americano de separar, do ponto de vista jurídico e de governo, o endowment da Faculdade.  Nesse sentido, foi criada a Fundação Alfredo de Sousa, uma fundação privada, sem fins lucrativos, que tem como missão única apoiar a Nova SBE.  Esta fundação recebeu os donativos, desenvolveu a obra do campus e gere o seu património, dirigida por um Conselho de Curadores e um Conselho de Administração com total independência da faculdade. Presidi ao Conselho de Administração da Fundação durante os primeiros três anos e tivemos, como é óbvio, que gerir alguns conflitos com doadores e com a própria faculdade.  Não foi fácil, mas fomos sempre intransigentes na garantia de independência do governo da escola face aos doadores.

Em questões éticas, não basta “ser”, é fundamental também “parecer”. Mecanismos de governo, códigos de conduta e órgãos de fiscalização não são perfeitos e estão em permanente melhoria. Mas, se bem desenhados, são capazes de preservar a autonomia das escolas e garantir que estas conseguem não só continuar a ser competitivas, mas que garantem uma accountability e transparência maiores do que em qualquer outro modelo.

Em última análise, se queremos universidades que não sejam meras torres de marfim, saímos do mundo asséptico e temos que lidar com os problemas éticos da vida no mundo “real”.