Eu vivo em Lisboa, os meus pais no Porto, os meus avós na Guarda.

Tal como nós, muitas famílias em Portugal vivem assim: dispersas pelo território. Tal como nós em Portugal, muitas famílias espanholas vivem dispersas pelo seu país, incluindo na Catalunha, uma das áreas mais industrializadas onde milhões de espanhóis com origens fora da Catalunha encontraram o básico: um emprego e um lugar onde criar a sua família no seu país.

Construímos as nossas vidas sob a proteção de constituições — portuguesa e espanhola — democraticamente sufragadas por todos os cidadãos que garantem que todos somos cidadãos por igual no nosso país e todos temos acesso ao território por igual, e que a nossa ligação a qualquer parte do nosso país só pode ser quebrada através de uma decisão democrática que envolva todos os cidadãos.

Eu nunca aceitaria um referendo ou processo de independência organizados de forma regional, unilateral e contra a Constituição, sem negociação, sem quaisquer garantias ou proteções, que ameaçasse fazer de mim ou dos meus familiares estrangeiros no nosso próprio país, nas cidades onde vivemos, nas terras onde cresci, nas terras dos meus pais ou dos meus avós. Vocês aceitariam?

Olhem para o caos que é o Brexit e a luta para garantir os direitos dos portugueses que vivem no Reino Unido – país estrangeiro e com processo de saída da UE totalmente legal e negociado – e agora imaginem o caos e o perigo que é retirar a nacionalidade no seu próprio país a milhões de pessoas (já para não falar no que significaria perder a nacionalidade para quem vive no estrangeiro…) seja a catalães que vivem fora da Catalunha seja a espanhóis que vivem na Catalunha. Colocar uma fronteira onde não existia uma. Porque é isso que o separatismo representa.

Enquanto em Portugal se fala do nacionalismo e separatismo catalão como uma luta utópica pela justiça e pela liberdade, na Catalunha líderes separatistas usam discurso xenófobo para desviar as atenções da sua incompetência e corrupção falando dos castelhanos como raça inferior e de Espanha como um país que sorve os recursos da Catalunha. Será que as nossas avós no interior do país são parasitas dos nossos recursos porque nós trabalhamos e produzimos no litoral ou em outras áreas mais industrializadas e ajudamos a garantir a sua seguraça social? Deveríamos demonizar e abandonar unilateralmente essas pessoas e essas regiões?

É isto que queremos promover? A criação de mais fronteiras numa UE que se quer mais unida (ou pelo menos não menos unida)? Queremos mesmo fomentar uma guerra numa região que tem uma enorme autonomia inserida num dos países mais democráticos do mundo para benefício de líderes incompetentes e corruptos e de anarquistas que destroem as ruas?

A Catalunha vive dividida – entre quem apoia a independência e quem não a apoia – mas não vive sob ocupação. A Catalunha beneficia de prosperidade económica, democracia, justiça e paz num mundo onde isso existe cada vez menos. A própria Espanha – em tempos laboratório de experiências de nazis e comunistas numa das guerras mais horrendas que o mundo já viu – conseguiu reerguer-se e construir um dos países mais prósperos, avançados e democráticos do mundo e até acabar com o terrorismo.

Nós faríamos bem em não promover a instabilidade naquela que é uma das melhores regiões do mundo para se viver nem em fomentar guerras totalmente desnecessárias no país nosso vizinho que já teve de sofrer e lutar demais no último século.