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Há quem queira um novo apartheid. Em Portugal a expressão deste desejo tem tido várias vozes, havendo já quem defenda abertamente a limitação de direitos a quem não se queira vacinar, e mesmo o seu encarceramento num futuro próximo.

A história é conhecida e, temo, volta a repetir-se. Falo de se aproveitar uma questão sanitária para instalar, passo a passo, um regime cada vez mais totalitário. Este processo tem como fase intermédia e essencial a identificação clara e separação entre “bons” e “maus” cidadãos – nos dias de hoje, através do passaporte de vacinação, já com grande implantação (veja-se a ironia) em Israel, a terra dos judeus marcados com a estrela de David há 85 anos.

Hoje, os “maus” são os que não aceitam as regras e que constituem, segundo a narrativa, um perigo ambulante e iminente para a saúde pública – ou, para ser mais exacto, para a saúde dos “outros”, os “bons” cidadãos. Coisa estranha, esses cidadãos não suportarem viver com outros que não se querem vacinar, considerando (i) o baixíssimo risco da doença para quase toda a população e (ii) que eles estão protegidos quer com a vacina quer com as máscaras. (Sim, por eles a máscara ficará para sempre, não se iludam). E, por isso, os “maus” têm de ser confinados – ou pior. Sabemos quando a loucura humana começa, não sabemos onde e quando acaba, mas normalmente não acaba bem. A memória é infelizmente curta.

Os episódios seguintes desta narrativa – caso ela continue a avançar –  são conhecidos: limitar direitos a todos os que não se aceitem vacinar, proibi-los de ir à escola ou de trabalhar com outros; de ir aos supermercados; de aceder às contas bancárias (como forma de colocar “pressão adicional” para a vacinação); depois encarcerá-los bem longe, em edifícios e campos para isso preparados, porque mesmo o facto de viverem num prédio onde coabitam com outros cidadãos já vacinados representa perigo (afinal, os vizinhos podem cruzar-se nas escadas); enfim, proibir tudo o que for preciso para que se vacinem e sejam “bons cidadãos”; retirá-los da sociedade, do espaço partilhado, para um sítio onde não representem perigo. E, a seu tempo, quem sabe (novamente a loucura humana) considerar soluções mais radicais, tendo em conta o enorme custo para a sociedade que eles representarão (tê-los presos e alimentá-los custa muito dinheiro) e não deixando de considerar que, num tal cenário, a anestesia a que a população estaria sujeita permitiria muita coisa que hoje seria considerada “desumana” e “impensável”. Tal qual aconteceu com os Goulag e outros campos de concentração. [“Mas… os outros também faziam o mesmo… eu só cumpri ordens…”].

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Tudo isto perante um vírus “relativamente bonzinho” (disse-o Maria Manuel Mota, diretora do IMM, Instituto de Medicina Molecular) e uma pandemia assente em três pilares falaciosos.

Primeiro, assente em Testes PCR, que não foram criados para aferir da capacidade de infectar, mas apenas da presença de matéria viral, como disse o seu criador e como referem todos os cientistas sérios. Significa isto que um resultado “verdadeiro positivo” apenas indica que existe matéria viral, mas não necessariamente infecciosidade. Os testes continuam a ser efectuados maioritariamente a 45 ciclos ou mais em Portugal e no mundo não é muito diferente. Aliás, apesar de inúmeras cartas enviadas por várias entidades, a DGS e o Governo simplesmente não falam da questão dos ciclos, muito menos obrigam os laboratórios a esse limite. Vivemos uma “pandemia de positivos”. Os números de “positivos” que nos dão são um empolamento brutal do número real de infectados e, mais ainda, daqueles que, estando infectados, têm realmente capacidade de infectar.

Segundo, porque se instalou a ideia de que os assintomáticos espalham o vírus só por existirem. Mesmo que estejam de boca fechada, na rua, sem espirrar pelo nariz. Basta estarem na rua sem máscara, sozinhos, para poderem contaminar alguém que passe por eles a andar. É este o terror instalado. De que vale Jorge Torgal lembrar que não há contágio minimamente provável nos vírus respiratórios por mero contacto social, mas apenas com sintomas, e quando haja espirros ou algum contacto muito próximo, como um beijo? De que vale Fauci ter dito no início que os assintomáticos nunca eram o “principal motor” da propagação de um vírus respiratório (tendo depois corrigido essa afirmação)? Apesar de a probabilidade de contágio por assintomáticos ser baixíssima, praticamente nula, o facto de teoricamente não ser “impossível” faz com que comentadores e peritos continuem a alimentar este medo – de forma absolutamente desproporcional, mas fundamental à manutenção do medo na população. Entre os mais medrosos, há até a conhecida afirmação de que “não ter sintomas é exatamente um dos sintomas!”

Sobre os assintomáticos acresce que, pela falta de validade de muitos dos resultados dos testes – porque (1) com elevados ciclos existem “verdadeiros positivos” a matéria viral que são na realidade “falsos positivos” ao que interessa (capacidade de infectar) e (2) porque existem muitos falsos positivos estatísticos quando há baixa prevalência nas amostras de testagem –, muitos dos assintomáticos são simplesmente “falsos assintomáticos”. Porquê? Um “verdadeiro assintomático” é alguém que está efectivamente infectado, “porém” não tem sintomas. Mas existem muitos “falsos assintomáticos”: pessoas, que estão assintomáticas “porque” não estão infectadas (provavelmente, o caso famoso de Marrafa de Carvalho). Muitos serão falsos assintomáticos porque não estão infectados. Porque são falsos positivos.

O terceiro pilar é a política de carimbos de mortes “por” Covid. Como Graça Freitas referiu há meses, e como Fauci também referiu, com esta pandemia passou a carimbar-se com base no evento terminal e não na causa de morte. Em Portugal, não se fazem autópsias às mortes “com resultado positivo a Teste PCR”, que por abuso se dizem mortes “por Covid” (nem sequer mortes “com Covid”, que seria o mínimo dos mínimos, por não se aferir a causa). A causa pode não ser Covid. Num estudo da CDC, apenas 5% das mortes com Covid tinham tido como causa identificável a Covid, por não existirem outras co-morbilidades. Nos outros 95% de casos haveria a concorrência de co-morbilidades. É difícil avançar com uma percentagem para as mortes nas quais a Covid tenha sido a “causa principal”, mas com certeza andará muito longe dos 100%. Talvez seja 20%, 30%, 40%? Não sei. Mas sei que os números de mortes estão necessariamente altamente empolados.

Qual a gravidade do novo vírus SARS-Cov-2? A única forma cientificamente válida de aferir da gravidade desta pandemia, tendo em conta a falta de validade dos Testes PCR e sobretudo a política de carimbos, é ter em conta a mortalidade excessiva a nível mundial – e nos primeiros meses. E a conclusão é clara: ela não foi estatisticamente superior. Foi um pouco superior, mas não muito. E porquê nos primeiros meses? Porque passado algum tempo as medidas de “lockdown” tomadas, sobretudo relacionadas com o fecho dos sistemas de saúde, levaram (estão a levar) a uma mortalidade colateral muito significativa. E isso faz aumentar a mortalidade excessiva total. Mas a causa essencial disso são as medidas tomadas, não o vírus em si. Portugal é um caso (tristemente) notório neste campo. O SNS continua fechado, as mortes colaterais aumentam, por falta de assistência, por falta de rastreio e acompanhamento (fora tudo o resto que se relaciona com a saúde física e mental de todos), mas os telejornais ainda nem sequer abrem com a mortalidade total diária – apenas interessa a mortalidade Covid. Triste. Muito triste.

Mas havia e há outras opções.

Em Portugal deixou de se falar da Suécia, como não se fala da Flórida, Texas ou Dakota do Sul, que abriram completamente a economia e não têm subida de casos ou mortalidade. Aliás, é muito curioso que o INSA (Instituto Ricardo Jorge) tenha sempre feito uma análise entre a temperatura e a incidência de casos na época gripal, mas que agora os peritos convidados pelas televisões achem todos que a temperatura e a humidade não têm nada que ver com a dinâmica do SARS-Cov-2. Isto são séculos de ciência perdida – mais do que pela ignorância descarada, pela evidente censura de outras opiniões, incluindo do epidemiologista e cientista de maior renome mundial – John Ioannidis –, como de tantos outros, com destaque para os três grandes por detrás da Great Barrington Declaration: Sunepta Gupta (Oxford), Martin Kulldorff (Harvard) e Jay Bhattacharya (Standford).

Para a narrativa vigente, trata-se de “negacionistas”. E de facto, negam muita coisa. Eu não nego, como eles não negam, que haja um vírus que é perigoso para grupos bem identificados, com uma mortalidade muito considerável nesses grupos, e que pede medidas seculares conhecidas, tais como, para toda a população, a higiene regular de mãos e a auto-proteção de pessoas com sintomas; e a proteção vigorosa e pro-activa dos grupos de risco.

Não nego o vírus nem a sua gravidade para esses grupos bem identificados.

Antes de enumerar aquilo que nego, e para os mais engraçadinhos, que adoram discutir currículos em vez de ideias, de fugir ao debate substantivo, navegando em falácias sem fim, cito o Padre Samuel Bon: “não sou epidemiologista, mas não sou idiota. Estudei muito estas questões e tenho tanto direito como outros, também não epidemiologistas, a dar uma opinião; terei talvez até mais direito a tal, por ter dedicado tantas horas a estudar estes assuntos.”

Eis 11 coisas que nego:

  1. Nego que a gravidade do vírus seja tão alta como se pretende, porque a mortalidade excessiva mundial não o indica. A mortalidade “dita” Covid está altamente influenciada pela política de carimbos adoptada, que conta como morte “por” Covid cancros, ataques cardíacos, etc., e porque um resultado PCR positivo tem bastante menor validade que a apregoada.
  1. Nego a validade de Testes PCR feitos a mais de 25-26 ciclos. A mais de 25 ciclos um verdadeiro positivo significa que há, de facto, matéria viral, mas não necessariamente capacidade de infectar. Foi o próprio sub-director da DGS, Dr. Rui Portugal, que o afirmou. A 45 ciclos detectamos coisas muito pouco fiáveis. Não digo nada de especial.
  1. Nego que a política de carimbos de morte recomendada pela OMS seja aceitável. Obviamente que não é. É uma decisão metodológica, extraordinariamente importante para empolar números e criar medo, isso sim.
  1. Nego que o confinamento de pessoas saudáveis seja uma medida eficaz – e proporcional – para combater um vírus respiratório. Nunca assim foi, nunca assim será. Não é eficaz, não é aceitável.
  1. Nego que a sazonalidade não tenha importância na dinâmica do vírus. Qualquer criança o entende, quanto mais um político ou um perito, sobretudo passado 1 ano de pandemia e de dados recolhidos em Verões e Invernos pelo mundo fora.
  1. Nego que as políticas adotadas por este e por outros Governos sejam razoáveis e proporcionais. Veja-se o que se passa noutros países. As medidas tomadas estão absolutamente focadas no número de “casos” (altamente dependente dos Testes PCR) e ignoram ou desvalorizam gravemente todos os efeitos colaterais, como se de repente viver fosse igual a sobreviver (para os que vão sobrevivendo), como se mais nada importasse. Temos já em Portugal um excesso de mais de 20 mil mortes associados a outras causas, mas ninguém liga a isto. Nem políticos, nem jornalistas. Parece que há cidadãos de primeira e de segunda. Os que têm Covid e os que não têm Covid. E estes últimos não interessam. Podem morrer em casa, podem engrossar os números da mortalidade, que os telejornais só mencionam Covid. E 230 deputados pouco mais fazem.
  1. Nego que aquilo que se chama de vacinas sejam vacinas. São, de facto, tratamentos genéticos experimentais que têm, ao que os estudos indicam, eficácia comprovada a curto-prazo. Repito: a curto prazo. Mas não se conhecem os efeitos a longo-prazo. Não passou tempo suficiente. Não conhecemos os dois lados da balança. Não podemos fazer uma análise custo-benefício adequada. Sabe-se que pode haver efeitos colaterais e sabe-se que as ditas vacinas não impedem infeção nem transmissão (pelo que não é muito correcto dar-lhes esse nome), mas apenas casos de doença grave. [Como, segundo vários estudos e como a CMTV tem noticiado, também a Ivermectina permite – só que a Ivermectina custa muito pouco e não tem patente associada]. É criminoso, desconhecendo os efeitos de longo prazo e sabendo o quão pouco arriscado é este vírus para as crianças e jovens, sequer sugerir a inoculação de crianças e jovens com este tratamento experimental. É sabido também que crianças têm muito menor capacidade de transmitir o vírus do que há meses se veiculava – mas mesmo que tivessem, o vírus continua a ser “relativamente bonzinho” para a maior parte da população. E os adultos que quiserem, podem inocular-se. Deixem as crianças e jovens em paz.
  1. Nego que haja debate científico quando praticamente só se ouve um dos lados. Nas reuniões do Infarmed e no prime-time televisivo, com algumas excepções, há só monólogos com todo o tipo de “novos” peritos. Incluindo – é forçoso destacar – Carlos Antunes, alguém que fez previsões desastrosas em Janeiro e que, não obstante ser académico (seria mais compreensível se fosse político, por triste que isto soe), foi incapaz de pedir desculpa por elas. Mas que continua nos telejornais, apesar de reconhecer que percebe pouco de epidemiologia e que apenas faz “previsão com base em tendências dos últimos 10 dias”. Para que servem os diretores de informação, afinal? Mas também merece destaque o “É, ou Não É?” da RTP1, em que Carlos Daniel presta um mau serviço público por não promover verdadeiros debates. Com todos os seus defeitos, no Prós e Contras sempre havia alguma “clivagem”. Ali, há apenas um alternar de monólogos bem-comportados dos convidados habituais do regime.
  1. Nego que estejamos numa democracia substantiva, quando nem uma voz no Parlamento se levanta (ao contrário do que vemos noutros países) contra a ditadura em progressão há um ano, com crianças sem brincar nos parques infantis, pessoas sem poderem aceder à orla marítima e milhares de mortes em excesso perfeitamente ignoradas. São todos do regime. Todos têm medo de destoar. A opinião pública é que manda. Se os portugueses estão com medo e querem mais confinamento, quem diz o contrário? Nem os partidos mais novos, nem sequer a Iniciativa Liberal tem coragem de defender a liberdade, que seja das crianças, que seja a liberdade dos que não têm Covid de serem assistidos condignamente no SNS, ou pelo menos um pouco mais “relevados” no espaço público. Como é que a Constituição garante o acesso universal aos serviços de saúde e continuamos com o fecho generalizado do SNS, com as pessoas a terem ataques cardíacos em casa, a adiar análises porque os laboratórios estão assoberbados com os testes ao vírus, a ter medo de ir a consultas e às urgências, porque podem apanhar o bicho? Sim, nego que tenhamos uma democracia substantiva pujante. Não gosto de líderes políticos que andam a reboque de estudos de opinião. Isso não é liderança. E o pináculo da vaga autoritária por que passamos é o sr. Presidente da República, que pede bom comportamento até à Páscoa, para que tenhamos Verão e Outono; sabendo nós que depois pedirá contenção para proteger o Natal, ao que se seguirá a Páscoa de 2022, e assim sucessivamente, adiando a vida inexoravelmente, impondo mais regras desproporcionais e escusadas a cada 15 dias. E a tudo isto os portugueses assistem impávidos, a comer batatas no sofá e a ver Netflix.
  1. Nego que uma matriz de risco num país decente se possa parecer com um boletim meteorológico, com cores esbatidas por vários sítios, um atestado de incompetência completo. Por pura teimosia do Governo (leia-se, manha do Dr. Costa), mantém-se a utilização da infantil matriz 2×2, apesar das críticas ao facto de excluir a variável fundamental – número de internados em UCI – e de não atender ao facto de que, com baixa incidência, um Rt acima de 1 querer dizer muito pouco. Aquela matriz é, sim, um passaporte para continuar a arbitrariedade ditatorial, com o ámen da maior parte dos jornalistas e comentadores e de todos os deputados da Nação.
  1. Nego, finalmente, que o Presidente da República esteja a cumprir o seu juramento, de cumprir e fazer cumprir a Constituição. Não está. E ele sabe disso.

Até as guerras têm regras. Por isso, em nome de todos os sapinhos que estão na panela de cozedura, a ver a temperatura a subir devagarinho, tantos sem dar por isso, peço o seguinte: ganhem coragem, tenham um mínimo de fair-play. Façam subir a temperatura mais rápido. Ponham já a água em ebulição. Sejam homens e mulheres a sério. Peçam já a solução final.