1. Uns estão sentados entre as quatro paredes, de olhares fixos na luz da vela, cujo último pavio tem os segundos contados. Outros preferem a luz da lua, a brisa nocturna, e a companhia sonora dos morcegos que não disfarçam o saborear das primeiras mangas maduras. Mas todos partilham a mesma dor: o estado de saúde da mãe piora a cada dia que passa!

Porque a deixaram nesse estado esse tempo todo, sem tratamento? – questionam os filhos mais novos. E os mais velhos, depois de alguma hesitação, lá se prontificam a contar toda a história.

Era era, Er certo! (1)

2. No princípio não havia nada, o espaço sideral dominava de cima a baixo, e, como que numa convergência de vontades entre a necessidade e criatividade, o todo poderoso, assim tratado pelos crentes ou o big bang teorizado pelos arautos da ciência, entrou efervescente em trabalho de parto, dando positivamente a conhecer aquela cujo título é rainha a quem foi confiada o segredo do caminho para a felicidade.

Mulher formosa, de aspecto sumptuoso, cativante no trato, uma autêntica arrebata corações que, dos tais olhos que a vêem, um despertar de emoções e de paixões não mais permitem que o vínculo estabelecido com tamanha beleza e generosidade seja quebrado seja por que motivo seja.

Não admira porém, com tantos predicados à mostra, associado ainda ao poder de encaminhar os seres para a felicidade, que essa mulher viesse a congregar numerosos pretendentes à sua volta. Teve muitos filhos, de todas as cores que a natureza lhe permitiu gerar. E, sobretudo, como mãe generosa que é, em momento algum consentiu que um filho seu sofresse privações que pudessem comprometer o seu sustento e o seu crescimento, em harmonia com o berço sagrado para a realização plena enquanto indivíduo. Desde sempre sonhada e para sempre desejada, era uma mulher realizada!

Do seu riso de felicidade, o céu emocionava-se deixando cair um gotejar límpido e puro que escorria peito abaixo numa abundância de vida onde o colorido das árvores, os rios de peixes, animais de toda a espécie, se alimentavam, no mesmo seio materno que é também um mar de possibilidades para todos. Ainda dos seus ventres, nas entranhas mais profundas, ela mantém aconchegadas, caso os filhos venham a precisar, pedras preciosas, metais raros, areias pesadas, gás e até hidrocarbonetos.

3. Cada um podia viver como entendesse e como desejasse, por isso mesmo nunca deixou que lhes faltasse nada. Assim foi desde os primórdios. Até que, certo dia, nuns anos longínquos, vindo doutras latitudes, um forasteiro, ao passar por ela em sua barca, nas longitudes outrora desconhecidas, não resistiu a tamanho encanto e resolveu tomá-la à força em casamento. Tiveram filhos, viveram muitos anos juntos, mas a mulher nunca lhe mostrou o verdadeiro caminho para a felicidade, tendo em conta a humilhação e as sevícias que tatuavam o seu coração cada vez que um dos filhos era maltratado ou de si retirado, como mercadoria, acorrentado no atlântico, para bem longe do seu regaço.

Ela andou entristecida, encolheu durante muitos anos, sofreu, foi explorada, lamentou a sorte que lhe calhou! Contudo, manteve sempre a sua generosidade tanto para os filhos como para o forasteiro. O tempo foi passando e, de revolta em revolta, os filhos foram sempre exigindo a sua mãe de volta para que ela os pudesse conduzir livres no caminho para a felicidade que logo no princípio dos tempos ela herdou do arquitecto das coisas vivas e viventes.

As lutas eram constantes, mas a verdade é que cada um lutava por si ou pelos seus interesses ou pelas suas mágoas e frustrações. Até que um dos filhos, aquele de olhar comprido a quem chamaram de utópico, fez então entender aos restantes irmãos que para recuperarem a sua mãe querida tinham que lutar unidos, juntos, no mesmo palmo e no mesmo trilho; os que se encontravam no regaço a aconchegar a mãe e os que estavam fora. Separado da manada, um búfalo é presa fácil para uma alcateia; junto da manada, afugentam até os leões!

Os irmãos perceberam o repto do tal filho de olhar comprido, lançaram-se na aventura, acreditaram na ideia, lutaram juntos e de mãos dadas. Resgataram a mãe das mãos do forasteiro. Muitos ficaram pelo caminho pela bravura e abnegação que emprestaram à causa, inclusive o tal filho de olhar comprido. No conjunto, tanto os que estiveram na frente de combate como os que nela não participaram directamente sentiram-se orgulhosos de tão grande feito. Finalmente livres, dizia-se com grande entusiasmo!

4. A celebração subsequente, a par das muitas promessas de prosperidade e dignidade, foi sol de pouca dura para a maioria – diga-se a bem da verdade. A mãe libertada ainda preparava os lábios para ensaiar o sorriso inaugural de contentamento pela liberdade conseguida quando as suas vestes foram tingidas de sangue com os primeiros fuzilamentos entre irmãos. Começava-se então a escrever o capítulo origem do grande manual de ódio e vingança que tem caracterizado os filhos do arco da governação desta nobre rainha e no qual os restantes irmãos têm levado por tabela.

Ou se está contra ou se é a favor! Quem pensa diferente é inimigo e um inimigo, para alguns filhos da mãe rainha, é para aniquilar! As divisões foram sendo acentuadas com clivagens sociais gritantes, onde uns poucos irmãos tomaram posse de quase tudo, deixando as migalhas restantes para a maioria dividir a contento. Uma sociedade do salve-se quem puder ganhava alicerces, com o abandono e o trágico destino dos que estiveram na primeira linha de combate a lutar pela mãe, a provarem com estrondo a sensação de desamparo numa queda vertiginosa de valores e de princípios que arrastou qual obulum num temporal de Agosto toda a sociedade junta.

Os filhos a quem foram confiados os cargos de chefias, entusiasmaram-se com o poder, esqueceram as promessas feitas e fizeram dos próprios irmãos os seus grandes inimigos. Os irmãos professores deixaram de receber os seus magros salários, a casa do saber está trancada a sete chaves, os médicos, engenheiros, economistas e outros técnicos de grande valor abandonaram o regaço da progenitora fugindo para outras paragens; as irmãs grávidas morrem às dezenas no trabalho de parto por falta de material e assistência nos hospitais, a mortalidade infantil é assustadora, a esperança de vida não vai além de meio século; a corrupção está mais do que legalizada, a justiça é impiedosa com ladrões de galinhas e faz vênias a verdadeiros criminosos, a droga chegou e não mostra vontade de partir; a desflorestação e a pesca descontrolada, causadoras de desequilíbrios nos ecossistemas, são evidências indisfarçáveis! E por todas essas situações e razões, a mãe não aguentou e adoeceu gravemente.

Como consequência, o seu corpo sofrido foi banhado de sangue fresco com uma guerra civil que dizimou milhares e separou amigos, acrescentou ódio ao ódio, vingança à vingança e do olho por olho, dente por dente, a cegueira e desdentadura não tem permitido aos seus filhos verem o caminho por onde devem ir nem provarem o sabor da sua doçura. De morte em morte e de golpe em golpe, ela piora cada dia a olhos vistos.

As desavenças continuam, as lutas persistem, e novos capítulos do manual de ódio e vinganças já não apresentam novidades para ninguém. Alguns irmãos, todavia, insistem na continuidade da automedicação com as mesmas receitas que têm demonstrado só servir para a degradação da saúde da mãe.

5. Novas doses de eleições e promessas de reconciliação e desenvolvimento foram injectadas na mesma terapêutica de sempre, mesmo quando o diagnóstico aponta para outras receitas, com saberes de novos especialistas.

Dizem que é preciso confiar neles, nas suas receitas, na sua boa vontade para com todos, no sentido de administrarem mais do mesmo e de se aguardar por resultados diferentes. A angústia cresce, as vozes são contraditórias, a correlação de forças é desproporcional, os interesses são vários e o apelo à resignação pela receita escolhida tem ecoado de ponta a ponta, deixando a rainha sem margem de manobra para clamar por alternativas.

Nós somos filhos desta mesma rainha, irmãos de todos os outros irmãos e, conseguindo existir para além do horizonte das nossas etnias e religiões, nós percebemos e compreendemos que somos muitos povos mas uma só nação; sentimos a Guiné como um todo identitário e a amamos como a uma mãe que sofre às mãos de filhos “doutores”. Estamos desesperados por vermos a nossa mãe a definhar-se para um possível ponto do não retorno!

A mãe querida, a rainha, a Guiné-Bissau, mulher de duas mamas, não aguenta mais automedicação falhada sob pena de se precipitar da situação de coma induzido onde se encontra no momento para a autodestruição e morte certa. É chegado o momento de tentarmos uma nova receita para um novo tratamento, a fim de permitir o restablecimento pleno da mãe, para que possa retomar, de mãos dadas com todos os filhos, o caminho para a felicidade a que temos direito por inteiro.

Viva a nossa mãe, viva a nossa rainha e viva a Guiné-Bissau!

(1) Fórmula introdutória para contar histórias em crioulo da Guiné-Bissau

Dirigentes da Associação Movimento Cantanhez